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Full text of "Archivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro"

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ISSN 0365-4508 


ARQUIVOS 
DO 
MUSEU NACIONAL 


Nunquam aliud natura, aliud sapienta dicit 
Juvenal, 14, 321 
In silvis academi quoerere rerum, 
Quamquam Socraticis madet sermonibus 
Ladisl. Netto, ex Hor 


VOL.LXVI 


RIO DE JANEIRO 


Abril/Junho 
2008 


ARrQuivOs DO MUSEU NACIONAL 


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO 
REITOR 
Aloísio Teixeira 


Museu NacIONAL 
DIRETOR 
Sérgio Alex K. Azevedo 


EDITORES 
Miguel Angel Monné Barrios, Ulisses Caramaschi 


EDITORES DE ÁREA 
Adriano Brilhante Kury 
Alexander Wilhelm Armin Kellner 
Cátia Antunes de Mello Patiu 
Ciro Alexandre Ávila 
Claudia Petean Bove 
Débora de Oliveira Pires 
Guilherme Ramos da Silva Muricy 
Izabel Cristina Alves Dias 
João Alves de Oliveira 
João Wagner de Alencar Castro 
Marcela Laura Monné Freire 
Marcelo de Araújo Carvalho 
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Maria Dulce Barcellos Gaspar de Oliveira 
Marília Lopes da Costa Facó Soares 
Rita Scheel Ybert 
Vânia Gonçalves Lourenço Esteves 


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Vera de Figueiredo Barbosa, Suely Alves Ano Bom 


DIAGRAMAÇÃO E ÁARTE-FINAL 
Lia Ribeiro 
SERVIÇOS DE SECRETARIA 
Thiago Macedo dos Santos 


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Universidade Federal de Minas Gerais 


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The Natural History Museum - Reino Unido 


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Royal Botanic Gardens - Reino Unido 
Fábio Lang da Silveira 
Universidade de São Paulo 
François M. Catzeflis 
Institut des Sciences de "Evolution - França 
Gustavo Gabriel Politis 
Universidad Nacional del Centro - Argentina 
John G. Maisey 
Americam Museun of Natural History - EUA 
Jorge Carlos Della Favera 
Universidade do Estado do Rio de Janeiro 
J. Van Remsen 
Louisiana State University - EUA 


Maria Antonieta da Conceição Rodrigues 
Universidade do Estado do Rio de Janeiro 


Maria Carlota Amaral Paixão Rosa 
Universidade Federal do Rio de Janeiro 


Maria Helena Paiva Henriques 
Universidade de Coimbra - Portugal 


Maria Marta Cigliano 
Universidad Nacional La Plata - Argentina 
Miguel Trefaut Rodrigues 
Universidade de São Paulo 


Miriam Lemle 
Universidade Federal do Rio de Janeiro 


Paulo A. D. DeBlasis 
Universidade de São Paulo 


Philippe Taquet 
Museum National d'Histoire Naturelle - França 


Rosana Moreira da Rocha 
Universidade Federal do Paraná 


Suzanne K. Fish 
University of Arizona - EUA 


W. Ronald Heyer 
Smithsonian Institution - EUA 


ARQUIVOS 
DO 
MUSEU NACIONAL 


VOLUME 66 


NÚMERO 2 


ABRIL/JUNHO 
2008 


RIO DE JANEIRO 


Arquivos do Museu Nacional, mais antigo periódico 
científico do Brasil (1876), é uma publicação trimestral 
(março, junho, setembro e dezembro), com tiragem de 
1000 exemplares, editada pelo Museu Nacional/ 
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem por 
finalidade publicar artigos científicos inéditos nas áreas 
de Antropologia, Arqueologia, Botânica, Geologia, 
Paleontologia e Zoologia. Está indexado nas seguintes 
bases de dados bibliográficos: Biological Abstracts, ISI - 
Thomson Scientific, Ulrich's International Periodicals 
Directory, Zoological Record, NISC Colorado e Periodica. 


As normas para preparação dos manuscritos encontram- 
se disponíveis em cada número dos Arquivos e em 
htttp://acd.ufrj.br/-museuhp/publ.htm. Os artigos 
são avaliados por, pelo menos, dois especialistas na área 
envolvida e que, eventualmente, pertencem ao Conselho 
Editorial. O conteúdo dos artigos é de responsabilidade 
exclusiva do(s) respectivo(s) autor(es). 


Os manuscritos deverão ser encaminhados para Museu 
Nacional/UFRJ], Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 
20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 


Financiamento 


. 


José Bonifácio 


O 2008 - Museu Nacional/UFR]J 


Fundação Universitária 


ISSN 0365-4508 


Arquivos do Museu Nacional, the oldest Brazilian scientific 
publication (1876), is issued every three months (March, 
June, September and December). It is edited by Museu 
Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, with a 
circulation of 1000 copies. Its purpose is the edition of 
unpublished scientific articles in the areas of Anthropology, 
Archaeology, Botany, Geology, Paleontology and Zoology. 
I is indexed in the following bases of bibliographical data: 
Biological Abstracts, ISI - Thomson Scientific, Ulrich's 
International Periodicals Directory, Zoological Record, 
NISC Colorado and Periodica. 


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that may, eventually, belong to the Editorial Board. 
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Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 


(QCNPq 


E onselho Nacional de Desenvolvimento 
Científico e Tecnológico 


Arquivos do Museu Nacional - vol.1 (1876) - 
Rio de Janeiro: Museu Nacional. 


Trimestral 


Até o v.59, 2001, periodicidade irregular 


ISSN 0365-4508 


1. Ciências Naturais - Periódicos. I. Museu Nacional 


(Brasil). 


CDD 500.1 


Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008 
ISSN 0365-4508 


DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS 
NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO 
NO PERÍODO DE 4000 A 2000 ANOS ANTES DO PRESENTE : 


(Com 5 figuras) 


MARIA CRISTINA TENÓRIO ? 
DIOGO DE CERQUEIRA PINTO º 
MARISA COUTINHO AFONSO * 


RESUMO: Colocam-se em discussão os resultados obtidos no desenvolvimento do projeto “Dinâmica de 
ocupação, contatos e trocas no litoral do Rio de Janeiro no período de 4000 a 2000 anos antes do presente”, 
em desenvolvimento no litoral sul (Ilha Grande) e sudeste (Arraial do Cabo) daquele estado. O foco do projeto 
é a delimitação das unidades culturais, a reconstituição da mobilidade, da dinâmica de ocupação e dos 
sistemas de trocas existentes no litoral. Os resultados obtidos permitiram que fosse proposto que os grupos 
que ocuparam a Ilha Grande eram exímios canoeiros e que mantiveram extensa rede de trocas. Nas pesquisas 
desenvolvidas posteriormente no município de Arraial do Cabo, a cerca de 280km pela linha da costa, foi 
possível identificar elementos na cultura material que permitiram propor a hipótese de contatos e trocas 
entre os grupos que ocuparam as áreas estudadas. 


Palavras-chave: Arqueologia. Sambaqui. Pescadores. Identidade. Trocas. 


ABSTRACT: Dynamics of occupation, contacts, and exchanges at the coast of the State of Rio de Janeiro from 
4.000 to 2.000 years before present. 


We discuss the results obtained through the project “Dynamics of occupation, contacts and exchanges at the 
coast of the State of Rio de Janeiro from 4.000 to 2.000 years before present”, held at the southern (Ilha 
Grande) and southeastern (Arraial do Cabo) coast of that state. The project aims the delimitation of cultural 
units and also to reconstitute the mobility, dynamics of occupation, and exchange systems that existed at 
the coast. The results allowed the interpretation that the groups that occupied Ilha Grande, besides being 
excellent canoeists, kept an extense network of exchanges. Further researches held at the Arraial do Cabo, 
280km away by the coastline, allowed the identification of elements in the material culture that provide 


support that contact and exchanges existed between the groups that occupied the studied areas. 


Key words: Archaeology. Shellmound. Fishermen. Idendity. Exchanges. 


INTRODUÇÃO 


Partindo dos resultados obtidos nos 15 anos de 
pesquisas desenvolvidas na Ilha Grande, litoral 
sul do Rio de Janeiro, foi possível propor a 
existência de intensa rede de trocas sendo 
desenvolvida no litoral a cerca de 3.000 anos 
antes do presente (TENÓRIO, 2003). Foi também 
possível propor a existência de locais onde 
ocorriam eventos que envolviam grande 
concentração de pessoas, onde provavelmente 
eram realizadas trocas e rituais. 


! Submetido em 17 de abril de 2006. Aceito em 28 de março de 2008. 


Como elemento da cultura material utilizado como 
instrumento estruturador da pesquisa, foram 
utilizados os amoladores polidores fixos 
encontrados no litoral brasileiro e com alta 
concentração na Ilha Grande. Embora ocorram em 
vários pontos do litoral brasileiro, estão 
concentrados no litoral sul do Estado do Rio de 
Janeiro e na Ilha de Florianópolis. As similaridades 
encontradas nesses conjuntos permitiram que se 
trabalhasse com a hipótese de que foram deixados 
por grupos que compartilhavam uma importante 
característica cultural (Tenório, 20083). 


? Museu Nacional/UFRJ. Cientista do Nosso Estado/FAPERJ. Departamento de Antropologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de 


Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: ctenorio(ydomain.com.br 


* Museu Nacional/UFR, Departamento de Antropologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: 


falecomdiogo(Dhotmail.com. 


* Museu de Arqueologia e Etnologia - MAE/USP. Av. Professor Almeida Prado, 1466, Cidade Universitária, 05508-900, São Paulo, SP, Brasil. E-mail: 


Marisa(Mbr2001.com.br. 


342 M.C.TENÓRIO, D.C.PINTO & M.C.AFONSO 


A presença de amoladores polidores fixos no 
município de Arraial do Cabo, no litoral sudoeste do 
Estado do Rio de Janeiro, próximos ao sítio Ponta 
da Cabeça (Tenório et al, 1992), que é contemporâneo 
ao sítio Ilhote do Leste, permite que seja levantada 
a hipótese da existência de intenso contato e 
transmissão cultural no litoral deste estado. 


(Os AMOLADORES POLIDORES FIXOS 


Os amoladores polidores fixos (Fig.1l) são 
testemunhos arqueológicos constituídos por 
conjuntos de rochas que apresentam sulcos 
resultantes da ação de polir peças líticas. São 
encontrados em ilhas, em antigas ilhas isoladas 
por períodos de transgressão marinha e em pontas; 
estão quase sempre localizados próximos a cursos 
d'água doce que desembocam nas praias. São 
encontrados no Estado de Santa Catarina, na Ilha 
de Florianópolis e em ilhas adjacentes, conforme 
referido por TiBurTIUS & BIGARELLA (1953), RoHR 
(1950/1959/1961/1977/1984), Beck (1971), 
FossarI et al. (1987/1988/1989), AmaraL (1995); 
na ponta das Laranjeiras, por RUTHSCHILLING & 
ScHmirz (1990). No Estado de São Paulo, na Ilha 


Comprida, por UcHôa (1978/79/80); em 
Picinguaba e na Ilha de Couves, por Amenomoni 
(com. pes.); no Estado do Rio de Janeiro, na Ilha 
Grande, por MacnaniInI (1982), Gaspar & TENÓRIO 
(1990) e Tenório (1992); na Ilha de Marambaia, 
por MENEZES et al. (1999) e KngiP & OLIVEIRA (2001); 
no promontório de Cabo Frio, por Dias Jr. (1959); 
na ponta de Arraial do Cabo, por Tenório (1999). 
No Estado da Bahia, foi registrado na Ilha de 
Cajaíba, por CaLDERON (1969/1974). 


A partir dos resultados obtidos em 
experimentações (Tenório, 2003), estima-se que, 
para a formação da totalidade dos sulcos que 
constituem os amoladores polidores fixos 
encontrados na Ilha Grande, seria necessária a 
elaboração de pelo menos 278.952 lâminas de 
machado. Este número foi alcançado após a 
realização de experimentações que tiveram por 
objetivo obter uma estimativa do desgaste 
provocado na rocha suporte na fabricação de uma 
lâmina de machado semelhante às encontradas 
no sítio Ilhote do Leste. Constatou-se que, após 
serem polidos e afiados os gumes de 11 lâminas 
elaboradas a partir de seixos, provocou-se um 
desgaste de apenas 0,155cm no bloco de rocha. 


Fig.1- Amoladores-polidores fixos. (Foto: Maria Cristina Tenório). Escala = 20cm. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008 


DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO 313 


Como a profundidade média dos 1.154 sulcos 
existentes na ilha, excluídos os que se encontram 
atualmente submersos ou enterrados na praia, é 
de 2,5cm, o resultado final foi o número de lâminas 
descrito anteriormente. A disparidade entre o 
número de sulcos e o de lâminas encontradas 
permitiu que fosse elaborada a hipótese de que 
poderiam ter sido trocadas por outros itens, o que 
teria permitido a existência de um sistema de trocas 
no litoral do Rio de Janeiro há pelo menos 3000 
anos antes do presente. 


Nas escavações do sítio Ilhote do Leste, também 
localizado na Ilha Grande, foi possível observar, 
através da reconstituição do processo de formação 
de suas camadas ocupacionais, uma 
diferenciação clara entre centro e periferia 
indicando que as camadas na parte central do 
sítio teriam se formado mais rapidamente, 
sugerindo ter havido, neste local, eventos que 
envolveram concentração de número muito maior 
de pessoas do que a população habitual estimada 
para o sítio. 


Sírio ILHOTE DO LESTE 


O sítio Ilhote do Leste está localizado à meia encosta 
de um morrote do mesmo nome, situado na parte 
meridional da Ilha Grande, na área delimitada pela 
Reserva Biológica Praia do Sul (Fig.2). Esse morrote 
divide as praias do Sul e do Leste. Sua ocupação se 
deu inicialmente sobre dois “platôs”, estando o mais 
baixo localizado a 13m e o mais alto a 20m de altura 
em relação ao nível do mar atual, e ambos situados 
na parte anterior do morrote. Sua área é de 440m?, 
tendo sido escavados 15% de sua área total. 


O sítio está localizado ao lado de um canal por 


onde escoam as águas de duas lagoas interligadas 
e no centro de cinco ecossistemas: restinga, 
manguezal, laguna, mata de encosta e o litoral 
rochoso. As datações e dados obtidos indicam que 
o início da formação do sítio deve ser 
contemporâneo ao da restinga externa e das lagoas 
do Sul e do Leste, formadas há cerca de 3.000 
anos (AmaDOR, 1987/88), devido a um movimento 
regressivo do mar. 


O sítio tem a forma de um semiciírculo. O material 
arqueológico ocorre predominantemente na área 
central, entre grandes blocos de pedra e na borda 
do morro. Suas camadas ocupacionais 
acompanham o declive do morro; são mais 
espessas nos bordos, sugerindo que o refugo foi 
empurrado morro abaixo. Na parte plana, as 
camadas malacológicas apresentam montículos, 
indicando que as valvas de moluscos, quando não 
eram empurradas, eram amontoadas. O material 
arqueológico está concentrado no meio do sítio; 
apenas o material lítico lascado predomina na 
área periférica. 

O centro do sítio, onde ocorre maior concentração 
de material, apresenta fogueiras cercadas por 
seixos que devem ter sido mantidas acesas por 
dezenas de anos. 


É à volta do Ilhote do Leste que está a maior 
concentração de amoladores-polidores fixos 
encontrada na Ilha Grande. Eles também estão no 
costão rochoso que o cerca, indicando que foram 
feitos numa época em que o mar estava mais baixo, 
quando a barra dos canais de drenagem ficava mais 
a frente. As lâminas de machado encontradas no 
sítio, sempre associadas aos enterramentos, 
comprovam a relação dos habitantes do sítio com 
os amoladores polidores fixos (Fig.3). 


Fig.2- Sítio Ilhote do Leste. (Foto: Turisrio). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008 


314 M.C.TENÓRIO, D.C.PINTO & M.C.AFONSO 


Fig.3- Enterramento com lâmina de machado. (Foto: Maria Dulce Gaspar). 


COMPARAÇÃO CENTRO E PERIFERIA 


Comparando-se os perfis com os setores, observa- 
se que as camadas malacológicas aparecem mais 
nitidamente na beira da encosta, dissipando-se à 
medida que se segue para dentro dos platôs, voltando 
a se concentrar em bolsões. Constata-se a existência 
de uma camada-matriz, caracterizada pela presença 
de material esparso, interrompida por camadas finas 
de osso triturado, por fogueiras de longa duração, 
por bolsões de material ósseo e malacológico, ou por 
concentrações de restos malacológicos. Isto permite 
supor que se trate de uma ocupação constante de 
toda a área do sítio, com a preocupação em manter, 
durante muito tempo, áreas limpas e fogueiras 
sempre acesas nos mesmos locais. 


As datações obtidas revelam que as camadas foram 
construídas muito rapidamente. A camada óssea 
teria se formado em cerca de 100 anos. A diferença 
de datas entre a amostra coletada debaixo do piso 
de argila e a retirada do meio da camada de conchas 
também é de cerca de 150 anos (Fig.4). 


A variação observada na morfologia das camadas 
sugere a ocupação diferenciada no centro e na 
periferia do sítio. No centro, as camadas são mais 
espessas e apresentam grandes fogueiras que 
permaneceram acesas por grandes períodos de 


tempo. Na periferia, as camadas são mais finas e 
apresentam pequenas fogueiras e montes de restos 
alimentares. A presença de refugos maiores no 
centro e pequenos na periferia dos montes sugere 
que estes resultaram da acumulação de dejetos 
varridos com a intenção de manter áreas limpas, 
provavelmente relacionadas a unidades domésticas. 
A presença de um piso com buracos de estaca 
também pode indicar a intenção da manutenção 
de áreas limpas ou de espaços especiais. 


Áreas estéreis contendo apenas objetos 
minúsculos, como dentes de cação ou outros 
adornos, foram interpretadas, segundo proposta 
de ScHirrER (1996), como fundos de cabana. Em 
uma dessas áreas foram encontrados dois 
enterramentos, que apresentaram o maior número 
de acompanhamento funerário. 


Foram encontrados 30 sepultamentos com 33 
esqueletos. Apenas dois são de crianças, mas 
chama a atenção o grande número de indivíduos 
com mais de 30 anos. 


Foi constatada grande variabilidade no padrão de 
enterramentos; no entanto, foi observada a repetição 
de alguns elementos, tais como: o sedimento limpo 
cercando os membros superiores, a posição fletida, 
a presença de restos de alimentos sobre eles, a 
associação com fogueiras, com lâminas de machado, 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008 


DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO 315 


2910 + 90 


2650 + 350 


3060 + 40 


Camada de ossos esparsos 
Camada malacológica 
Conchas fragmentadas 
Concreção 

Camada óssea 

Concha e osso 

Fogueiras 

Terra preta 


Fig.4- Morfologia das camadas no centro e na periferia do sítio e datações obtidas. 


com pedras próximas ao crânio, com as ossadas de 
mamíferos marinhos e a presença de adornos, como 
os colares de dentes perfurados de cação, felídeo, 
canídeo e golfinho. Uma hipótese para explicar a 
variedade no padrão de enterramento é que o sítio 
Hhote do Leste foi construído por indivíduos com 
laços de consangúinidade unidos por casamentos a 
outros indivíduos pertencentes a vários grupos. 


A cerca de 1500m de praia foi localizado um outro 
sítio denominado Ponta do Leste. 


Sírio PonTA DO LESTE 


O sítio Ponta do Leste está localizado sobre uma 
duna de três metros, ao lado de um leito seco de 
rio, no extremo sul da Praia do Leste. 


A única parte preservada do sítio é a parcela da duna 
cortada pela ação do mar que expôs um perfil, 
deixando à mostra um enterramento em ótimo estado 
de preservação. O indivíduo encontrado pertence ao 
sexo masculino, com mais de 35 anos de idade e 
1,60m de estatura. Sua estrutura é menos robusta 
do que a dos esqueletos encontrados no sítio Ilhote 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008 


do Leste e também apresenta patologias ósseas. 


As datações obtidas (2880+40 anos AP) e a 
localização dos amoladores-polidores fixos nos 
costões relacionados aos sítios Ilhote do Leste e Ponta 
do Leste indicam contemporaneidade. 


O enterramento do indivíduo fora do sítio reforça a 
hipótese de que a grande variabilidade encontrada 
nos acompanhamentos e na deposição do morto se 
deve à presença de indivíduos que carregavam 
consigo resquícios de diferentes rituais relacionados 
a sua identidade cultural, o que indica a existência 
de elementos de diferentes grupos compartilhando 
o mesmo espaço, provavelmente através de laços 
matrimoniais. A grande variabilidade de artefatos 
encontrados no Ilhote do Leste pode sugerir também 
intenso contato com outros grupos da costa. 


A alta incidência de guapuvuru, madeira utilizada 
para fazer canoas, na Ilha Grande, as lâminas de 
machado, adicionadas à presença de peixes de 
águas mais profundas, como os elasmobrânquios 
de grande porte, e também as inserções musculares 
apresentadas nos esqueletos encontrados reforçam 
a hipótese da existência de pequenas embarcações 


316 M.C.TENÓRIO, D.C.PINTO & M.C.AFONSO 


e de que esses grupos teriam predileção pela 
ocupação de ilhas, fato alicerçado na localização 
dos amoladores-polidores fixos. 


Apoiado no que foi apresentado, parte-se do 
princípio de que o sítio Ilhote do Leste foi construído 
por pescadores, caçadores, coletores, exímios 
canoeiros que tinham alta mobilidade na costa, com 
maior fixação na Ilha Grande; não constituíam um 
grupo grande, mas o fato de elaborarem lâminas 
de machado lhes oferecia um status especial, que, 
provavelmente, os incentivava a contatar e realizar 
trocas com outros grupos que habitavam o litoral 
do Estado do Rio de Janeiro. 


No Estado do Rio de Janeiro, os amoladores 
polidores fixos aparecem em dois pontos distantes 
cerca de 280km de litoral: na baía da Ilha Grande 
e em Arraial do Cabo. 


ARRAIAL DO CABO 


A região tem a forma de uma pequena peninsula e 
é cercada por um cordão de 30km de praias 
arenosas, tendo ao centro um complexo rochoso 
denominado Morro do Atalaia. Apresenta também 
formações lacustres, destacando-se a Lagoa de 
Araruama, onde predominam exuberantes dunas 
e vegetação própria das restingas (GurceL, 1992). 
Apresenta um conjunto arqueológico notável por 
sua concentração no espaço e pela diversidade dos 
locais escolhidos para os assentamentos. Foram 
identificados 21 sítios, sendo que: cinco estão 
localizados sobre dunas em praias de mar aberto: 
Sítios Ponta da Cabeça, Colônia de Pesca, 
Massambaba I, Massambaba II, Massambaba III; 
três estão em elevações superiores a 50m acima do 
nível do mar: Sítio do Condomínio da Atalaia, 
Boqueirão e Usiminas; dois em ilha, sendo que, um 
sobre dunas e um em elevação superior a 50m: Sítio 
da Ilha de Cabo Frio e Usiminas (já citado também 
como sítio localizado acima de 50m); quatro, em 
abrigos em alturas entre cinco e 20m: Abrigo do 
Boqueirão, Abrigo sob rocha do Atalaia, Abrigo da 
Praia dos Anjos, Abrigo da Praia do Forno; cinco 
localizados em pequenas enseadas: Praia dos Anjos, 
Praia do Forno Ie II, Praia do Pontal e Prainha; e 
três conjuntos de amoladores-polidores fixos: 
Amolador do Diogo, Praia Grande le II. 


Os sítios pesquisados apresentam datas que variam 
de 4200 a 1200 anos AP (ver Tab.1). Desses, apenas 
os sítios Usiminas e Ponta da Cabeça apresentam 
período de ocupação concomitante com a ocupação 
do Ihote do Leste; no entanto, apenas o sítio Ponta 


da Cabeça apresenta evidências tais como lâminas 
de machado e pontas ósseas elaboradas a partir de 
espinho de cocoroca (Haemulidae) que permitem 
propor que os construtores desse sítio seriam os 
responsáveis pelos amoladores polidores fixos 
encontrados na praia de Massambaba e que teriam 
tido contato com os habitantes da Ilha Grande. 


Sírio PONTA DA CABEÇA 


O sítio Ponta da Cabeça está localizado no canto 
esquerdo da Praia Grande (Massambaba), no topo 
do morro do Itirinho a 20m de altura, segundo as 
coordenadas UTM 23 k 0804434 Le 7456368 N. 
Atualmente, encontra-se totalmente destruído pela 
ação antrópica. O que restava do sítio foi pesquisado 
no ano de 1991 (Tenório et al., 1992), através de um 
trabalho de salvamento apoiado pelo Instituto do 
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). 


A ocupação do sítio se deu inicialmente no topo do 
morro, estendendo-se posteriormente sobre uma 
duna escalonar consolidada e colada ao complexo 
rochoso (Tenório et al, 2005). 


Segundo os resultados de pesquisas recentes 
coordenadas pelo Prof. João Wagner de Alencar 
Castro (com.pes., fev. 2006), a restinga externa 
ainda não havia fechado na época no início da 
ocupação do sítio, o que daria ao local uma 
configuração insular. 


O sítio, na sua parte mais densa apresenta três 
camadas de ocupação que totalizam 1,70m de 
camada arqueológica. A primeira camada é menos 
densa que as posteriores e é constituída por 
pequenas fogueiras acesas em reentrâncias do 
terreno, contendo lascas de quartzo, artefatos 
ósseos e restos de moluscos; está datada em 
3270+70 anos AP. 


Na segunda camada de ocupação, as fogueiras são 
maiores e formam uma continua camada escura 
de 40cm de espessura, contendo restos de peixes e 
moluscos, lascas de quartzo e pontas elaboradas 
em osso. Nessa camada também foi encontrado o 
enterramento de uma criança de seis anos, 
sepultada em decúbito lateral esquerdo. Se houve 
contato desses grupos com os construtores do Ilhote 
do Leste, este teria se dado nesse momento, do final 
da segunda para a terceira camada de ocupação, 
um momento de aumento da população do sítio. É 
também neste momento que ocorre maior atenção 
para o consumo de moluscos, pois até então os 
grupos responsáveis pela construção do sítio eram 
quase que essencialmente pescadores. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008 


DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO 317 


TABELA 1. Datações relativas aos sítios trabalhados. 


SÍTIO DATAÇÃO TRADICIONAL DATAÇÃO CALIBRADA NÍVEL Nº DO LABORATÓRIO 
Ponta da Cabeça 2080+40 AP 2107 a 1884 AP 70-80cm Gif-110441 
3270+70 AP 3610 a 3335 AP 160-170cm Beta-84332 
Condomínio do Atalaia 1690+90 AP 1815 a 1375 AP 40-50cm Beta - 84333 
4190+130 AP 5035 a 4405 AP 90-100cm Beta - 95597 
4120+110 AP 4865 a 4350 AP 80-90cm Beta - 95559 
Ilhote do Leste 2650+350 AP 3095 a 2320 AP 100-110cm Beta - 84808 
2830+50 AP 3070 a 2800 AP 80-100cm Beta - 147283 
2910+90 AP 3323 a 2852 AP 90-100cm GIF - 8991 
3060+40 AP 3360 a 3160 AP 130-140cm Beta - 147284 
Ponta do Leste 2880+40 AP 3140 a 2880 AP 150cm Beta - 148615 
Usiminas 1503431 AP 3470 a 3340 AP 40-50cm “14 CHONO Centre*2 
1533+31 AP 45-50cm “14 CHONO Centre* 
3180+40 AP 130-140cm Beta -205960 


Ilha de Cabo Frio 1630+100 AP 


2210432 AP 


Boqueirão 1623+32 AP 


1720 a 1300 AP 130-140cm 


Beta - 205960 
80-90cm “14 CHONO Centre* 


20-30cm “14 CHONO Centre* 


1 Datação fornecida por Rita Scheel-Ybert. 2 * Datações fornecidas por Rodolfo Ângulo. 


O início da terceira camada está datado em 2080+40 
anos AP (ScHEEL-YBERT, 1998), quando a ocupação 
teria sido mais intensa, resultando em adensamento 
da camada arqueológica. 


Os moluscos mais consumidos foram a Astraea sp., 
a Olivancillaria sp., o Thaumasthus sp., O 
Megalobulimus sp. e a Pinctata sp., que passa a 
predominar nos níveis superiores. Da pesca, 
destacam-se a enxova (Pomatomidae) e o sargo-de- 
dente (Sparidae), mas também foram encontrados 
muitos animais de grande porte, como cações 
(Lamidae, Carcharhinidae), raias (Dasyatidae) e 
mamíferos marinhos. O consumo de peixes também 
aumentou consideravelmente no início do terceiro 
momento de ocupação. Também foram consumidos 
ouriços (Echinodermata) e vegetais, estes 
representados por coquinhos calcinados. Como 
instrumentos, foram identificados seixos 
percutores, raspadores, lâminas de machado, além 
de lascas de quartzo hialino de excelente qualidade. 


A indústria óssea está representada por grande 
quantidade de pontas, dentes perfurados, vértebras 
trabalhadas e por espátulas. Como matéria-prima 
para a elaboração das pontas foram preferidos os 
mamíferos, seguidos das raias e finalmente das aves. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008 


São também encontradas valvas de moluscos 
apresentando desgaste por uso, trabalhadas e 
também carapaças perfuradas. 


A quarta camada indica um momento de declínio 
da ocupação; de coloração mais clara, apresenta 
bolsões de restos malacológicos e são encontrados 
cinco fragmentos cerâmicos sem decoração, não 
identificados. 


DISCUSSÃO 


O padrão de assentamento verificado na Ilha 
Grande e em Arraial do Cabo apresenta pontos em 
comum e também elementos divergentes. Como 
traços compartilhados, observam-se: a presença de 
sítios localizados em morros e morrotes associados 
a sítios sobre duna; a proximidade com lagunas e 
mar aberto; a ênfase na pesca; a introdução tardia 
da coleta de moluscos e a exploração intensa de 
espécies malacológicas que, nos sítios que 
apresentam espessas camadas malacológicas, são 
coletados apenas como segunda opção. 


O molusco mais coletado no sítio Ilhote do Leste foi 
a Lucina pectinata (Gmelin, 1791) (44%), bivalve que 
apresenta grande quantidade de carne e que, 


318 M.C.TENÓRIO, D.C.PINTO & M.C.AFONSO 


provavelmente, teria sido um dos alimentos de maior 
previsibilidade; no entanto, o consumo de moluscos 
teve de ser complementado por Iphigenia brasiliana 
(Lamarck, 1808) e Tagelus plebeius (Ligthfoot, 1788), 
bivalves de pequeno porte encontrados num canal 
que corre do lado do sítio. Já nos sítios de Arraial do 
Cabo, há o predomínio da Astraea sp., gastrópode 
coletado no costão que não apresenta grande 
quantidade de carne, seguido de Taumasthus sp. e 
Megalobulimus sp., gastrópodes terrestres pouco 
presentes em sítios litorâneos que apresentam 
espessas camadas malacológicas. 


Em relação aos rituais funerários, existem também 
pontos convergentes nas ocupações da Ilha Grande 
e de Arraial do Cabo, tais como a presença de 
enterramentos associados a grandes blocos de pedra, 
a diversidade das posições e das orientações em que 
o morto era depositado; a presença de grande variedade 
de acompanhamentos funerários; o gesto de acender 
fogueiras com alimentos em volta do morto; e, em 
relação às ocupações nas dunas, o ato de colocar 
grande quantidade de ocre a ponto de tingir de 
vermelho a areia que circunda os membros superiores 
do indivíduo e a deposição do morto em covas. 


Como pontos divergentes nos padrões de 
assentamentos das áreas estudadas, observa-se que 
na Ilha Grande as ocupações são mais compactas, 
enquanto em Arraial do Cabo são mais espalhadas; 
na Ilha Grande, a ocupação sobre morrote é mais 
intensa e nas dunas é muito menor, enquanto que 
em Arraial do Cabo ocorre o inverso, sendo mais 
intensa nas dunas; Arraial do Cabo apresenta sítios 
em grandes elevações, em locais acima de 50m, o 
que não ocorre na Ilha Grande. Arraial do Cabo 
apresenta clima seco com baixa precipitação anual, 
já a llha Grande apresenta alto índice pluviométrico. 
Na Ilha Grande, é muito alto o número de conjuntos 
de amoladores polidores fixos (42 conjuntos), 
enquanto que em Arraial do Cabo só existem três 
conjuntos. 


Em relação às divergências presentes nos rituais 
funerários, em Arraial do Cabo não foram 
encontradas lâminas de machados associadas a 
enterramentos, fato recorrente na Ilha Grande. 


No entanto, no tocante a pontos específicos, 
comparando-se a cultura material encontrada nos 
sítios Ilhote do Leste (Ilha Grande) e Ponta da 
Cabeça (Arraial do Cabo), cnama a atenção, além 
da proximidade dos amoladores polidores fixos, a 
presença dos artefatos mais característicos da Ilha 
Grande no sítio Ponta da Cabeça, tais como as 
lâminas de machado e as pontas elaboradas a partir 


de espinho de cocoroca. 

As pontas elaboradas a partir de espinhos de 
cocoroca constituem o artefato de maior visibilidade 
do sítio Ilhote do Leste, com cerca de 90% das 
pontas localizadas nesse sítio, onde foram 
encontrados 2480 exemplares divididos em 10 tipos 
(Tenório & PintO, 2006). Em Arraial do Cabo, apenas 
no sítio Ponta da Cabeça, foram encontrados quatro 
exemplares deste artefato (Tenório & Pinto, 2006). 


Outra observação importante é que, a partir de 
algum momento próximo a 2830+50 anos AP, 
espécies malacológicas predominantes no sítio Ponta 
da Cabeça tais como, Olivancilaria auricularia 
(Lamarck, 1810) e a Astraea sp. passam a aparecer 
em pouca quantidade no sítio Ilhote do Leste. Além 
dos moluscos, dois artefatos característicos do sítio 
Ponta da Cabeça também foram percebidos no sítio 
Hhote do Leste, como as quatro espátulas em osso 
que serviam com acompanhamento num 
enterramento e a presença de duas pontas 
elaboradas a partir de esporão de raia. 


Além das similaridades pontuais apontadas, 
constata-se que as formas dos amoladores polidores 
fixos encontrados em Arraial do Cabo não diferem 
das encontradas na Ilha Grande (Fig.5). 


CONCLUSÃO 


Na discussão apresentada pode-se observar que 
evidências de contatos e trocas são dificeis de serem 
identificadas no estudo da cultura material, mas 
podem ser percebidas nos elementos destoantes e 
de ocorrência sutil (Tenório, 2006a,b), os quais foram 
observados na abordagem dos pontos específicos. 


Elementos destoantes são itens que se destacam 
na cultura material de cada sítio, seja por uma 
grande distorção quantitativa, seja por sua 
associação a rituais que evidenciam uma 
importância simbólica para o grupo. Assim sendo, 
considerando a distribuição de elementos 
destoantes nas duas áreas estudadas pode-se 
concluir que o fato de que tivessem sido 
encontradas quatro pontas elaboradas a partir de 
espinhos de cocoroca no sítio Ponta da Cabeça, 
elemento destoante no sítio Ilhote do Leste, 
associado ao fato de que artefatos destoantes do 
sítio Ponta da Cabeça tivessem sido também 
encontrados em pequena quantidade, no mesmo 
momento, no sítio Ilhote do Leste, pode ser 
interpretado como evidência da presença de contato 
e de transmissão tecnológica. A introdução no Ilhote 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008 


DINÂMICA DE OCUPAÇÃO, CONTATOS E TROCAS NO LITORAL DO RIO DE JANEIRO 319 


do Leste do consumo de novas espécies 
malacológicas, consumidas no Ponta da Cabeça, e 
a presença dos amoladores polidores fixos nas duas 
áreas estudadas também corroboram a hipótese. 

Embora se leve em consideração a diferença da 
amostragem, pois só foi escavada uma área de 1% 


no sítio Ponta da Cabeça, enquanto foi escavada 
15% da área total do sítio Ilhote do Leste, os dados 
apresentados constituem fortes indicadores de 
contato entre os ocupantes da Ilha Grande e de 
Arraial do Cabo em determinado momento de sua 
ocupação pré-colonial. 


Fig.5- Sulcos encontrados na Praia de Massambaba (a) e em Lopes Mendes (b). (Fotos: Maria Cristina Tenório). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.311-321, abr./jun.2008 


320 M.C.TENÓRIO, D.C.PINTO & M.C.AFONSO 


As semelhanças e divergências verificadas em 
Arraial do Cabo e na Ilha Grande indicam que estas 
áreas foram ocupadas por grupos que 
compartilhavam muitos traços culturais, mas que 
também apresentavam elementos diferenciadores 
regionais, conforme modelo proposto por Tenório 
(2006b). Segundo este modelo, teria existido no 
litoral brasileiro uma cultura sambaquiana muito 
antiga formada por grupos marítimos, 
caracterizados por possuírem um profundo 
conhecimento de técnicas necessárias à exploração 
do meio aquático marinho. À essa cultura eram 
constantemente agregados novos costumes trazidos 
por grupos que alcançavam a costa, oriundos do 
interior. Apesar deste intenso contato, essa cultura 
não perdeu sua supremacia até a chegada dos 
ceramistas, pois detinha o conhecimento 
tecnológico necessário à exploração marítima e 
também porque possuía uma cosmologia bem 
estruturada, constantemente reforçada em rituais 
que envolviam contatos e trocas realizados em 
eventos com concentração de pessoas. 


AGRADECIMENTOS 


As pesquisas em Arraial do Cabo contaram com o 
apoio da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado 
do Rio de Janeiro (FAPERJ) e do Conselho Nacional 
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPg) 
e também fizeram parte das atividades de pós- 
doutorado desenvolvido no Museu de Arqueologia 
e Etnologia - MAE /USP. 


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Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 
ISSN 0365-4508 


EUPHORBIACEAE NATIVAS DE CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA 
DE SÃO JOSE, MINAS GERAIS, BRASIL: 
(Com 13 figuras) 


DEBORA MEDEIROS * 
LUCI DE SENNA VALLE º 
RUY JOSE VALKA ALVES º 


RESUMO: A Área de Proteção Ambiental Serra de São José (21º03-07'S, 44º06-13'W) tem como vegetação 
predominante os campos rupestres. O trabalho de campo no período de 2001/02 registrou a ocorrência 
de 10 espécies subordinadas a três gêneros de Euphorbiaceae: Chamaesyce caecorum (Mart. ex Boiss.) 
Croizat, Croton antisyphiliticus Mart., C. arlineae D.Medeiros, Senna & Alves, C. campestris A.St.-Hil., C. 
floribundus Spreng., €. gnidiaceus Baill., C. timandroides (Didr.) Múll. Arg., C. urucurana Baill., C. vestitus 
Spreng. e Euphorbia chrysophylla Klotzsch ex Boiss. O táxon Croton seção Medea (Klotzsch) Baill. sensu 
Webster foi o mais expressivo em número de espécies e espécimes: C. arlineae, C. gnidiaceus, C. 
timandroides e C. vestitus. Euphorbia chrysophylla mostrou-se escassa, restrita a afloramentos rochosos, 
geralmente associados a córregos temporários. A análise comparativa do indumento foliar de Croton L. 
através da microscopia eletrônica de varredura (MEV) mostrou que apenas C. urucurana e C. floribundus 
apresentam dois tipos morfologicamente diferentes de tricomas conforme a superfície adaxial ou abaxial. 
O tipo simples só ocorre adaxialmente, com nítidas gradações na redução dos raios distais, que 
provavelmente resultam da transição do tricoma estrelado para o tipo simples (estado derivado). As 
demais espécies apresentam apenas o tipo estrelado com pequenas variações morfológicas. Apresentam- 
se chave analítica para identificação, descrições, dados complementares de fenologia, distribuição 
geográfica, habitat e ilustrações de cada táxon, também classificados em Categorias de Conservação de 
acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN/2001). 


Palavras-chave: Campo rupestre. Euphorbiaceae. Florística. Taxonomia. 


ABSTRACT: Native Euphorbiaceae of “cerrado” and “campo rupestre” of the São José Range, Minas 
Gerais, Brazil. 


The São José Range (21º03-07'S; 44º06-13'W) is na Environmental Protection Area mostly composed 
by “campos rupestres”. A year of field work was done and ten species subordinated to three genera 
were found: Chamaesyce caecorum (Mart. ex Boiss.) Croizat, Croton antisyphiliticus Mart., C. arlineae 
D.Medeiros, Senna & Alves, C. campestris A.St.-Hil., C. floribundus Spreng., C. gnidiaceus Baill., C. 
timandroides (Didr.) Múll. Arg., C. urucurana Baill., C. vestitus Spreng. and Euphorbia chrysophylla 
Klotzsch ex Boiss. The taxon Croton section Medea (Klotzsch) Baill. sensu Webster was the richest 
group in number of species and specimens: C. arlineae, C. gnidiaceus, C. timandroides and C. vestitus, 
the later was the most spread taxon in the area. Euphorbia chrysophylla showed a sparse distribution, 
restricted to rocky outcrops, generally associated with temporary water courses. Analysis of foliar 
indument on both surfaces of Croton L. species through scanning electron microscopy (SEM) showed 
that only C. floribundus and C. urucurana present two distinct morphological types of trichomes 
depending on the surface. Simple type is restricted to adaxial surface of few species. Several development 
gradations of stellate type distal rays were observed, probably as a result of the transition from stellate 
trichome to simple one (derivated state). Identification key, morphological descriptions, illustrations, 
notes on habitat, geographic distribution, phenological, general comments and classification according 
to the Red List Categories of the International Union for Nature Conservation (IUCN/2001) of each 
taxon are provided. 


Key words: “Campo rupestre”. Euphorbiaceae. Floristic. Taxonomy. 


! Submetido em 26 de maio de 2006. Aceito em 28 de março de 2008. 
Parte da Dissertação de Mestrado de D.Medeiros, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Botânica), Museu Nacional/UFRJ. 
2? Museu Nacional/UFRJ, Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Botânica). Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, 
RJ, Brasil. E-mail: debora(Whemisferio.com.br. 
* Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Botânica. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 


324 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES 


INTRODUÇÃO 


Euphorbiaceae Juss. sensu stricto tem distribuição 
pantropical, principalmente na América e na África, 
com 334 gêneros (RapcLirre-SmrrH, 2001) e cerca de 
6300 espécies (GovaErRrTS et al., 2000), com todos os 
tipos de hábito (exceto epífitas) e em todos os tipos 
de vegetação. É uma das famílias mais expressivas 
na flora brasileira, tanto em nível genérico quanto 
específico. Apesar do recente incremento na 
pesquisa multidisciplinar sobre a família, Secco 
(2001) destacou a importância da resolução de 
problemas taxonômicos que ainda dificultam a 
compreensão de muitos gêneros. 


Euphorbia L. e Croton L. constituem os 
maiores gêneros da família, com cerca de 
2000 e 800 espécies respectivamente 
(RADCLIFFE-SMITH, 2001). Chamaesyce 
S.F Gray compreende-cerca de 250 
espécies cosmopolitas (GovaErTS et al., 2000) 
e sua história taxonômica esteve 
constantemente associada à delimitação do 
gênero Euphorbia. 


Croton possui uma classificação 
infragenérica controversa. Atualmente 
aceita-se a sinopse realizada por WEBSTER 
(1993), na qual o autor reconhece 40 seções 
para o gênero. Um dos caracteres 
considerados como relevantes para esta 
classificação é o tipo de indumento, uma 
vez que a variação morfológica do tricoma é 
útil na delimitação de seções e espécies. 

A Serra de São José é uma Área de 
Proteção Ambiental localizada no sul de 
Minas Gerais (21º03-07'S, 44º06-13'W), 
entre os municípios de São João del Rei e 
Tiradentes (Fig.1), numa região de 
transição entre os cerrados do Brasil 
Central e florestas semideciduas das 
regiões Sudeste e Sul do país, onde o 
relevo acidentado e grandes altitudes 
promovem grandes variações ambientais 
(OLIVEIRA FILHO & FLUMINGHAM FILHO, 1999). 
Os campos rupestres representam o 
principal tipo de vegetação, ocorrendo 
disjuntamente associados a afloramentos 
rochosos (ALves, 1992), predominando 
sobre matas de cerrado e de galeria. A 
Serra estende-se no sentido leste-oeste 
por cerca de 15km de extensão e 2km de so 
largura. As altitudes variam entre 900 e 
1430m. Os afloramentos rochosos na 


maioria são compostos por quartzito e o tipo de 
solo predominante é o cambissolo álico de 
textura arenosa (OLIVEIRA-FiLHO & MAcHADO, 1993). 
O clima regional é do tipo Cwa, clima continental 
com inverno seco (KórPrEN, 1948). A temperatura 
média anual é de 18ºC e as temperaturas 
absolutas oscilam muito. A ampla variação 
climática no ciclo de 24h constitui um fator de 
estresse para as espécies, mesmo para aquelas 
que se adaptaram à vida em superfícies rochosas 
expostas a altas temperaturas. As famílias mais 
numerosas no cerrado e nos campos rupestres 
da Serra de São José são nesta ordem: Orchidaceae, 
Asteraceae, Poaceae, Melastomataceae e 


Cyperaceae (ALves, 1992). 


as ao 


Fig.1- Mapa do Brasil indicando a área de estudo. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 325 


Como parte do projeto “Vegetação Rupestre e 
Montana Neotropical do Museu Nacional/UFRJ” 
(SID/UFRJ 370104P065-8), este trabalho teve 
por objetivos levantar qualitativamente as 
espécies nativas de Euphorbiaceae 
ocorrentes em cerrado e campo rupestre; 
ampliar o conhecimento morfológico e 
taxonômico da família; analisar a distribuição 
geográfica dos táxons e fornecer dados ecológicos 
complementares. 


MATERIAL E MÉTODOS 


Realizou-se um levantamento bibliográfico dos 
trabalhos existentes sobre a família 
Euphorbiaceae, principalmente sobre os gêneros 
Chamaesyce, Croton e Euphorbia. O material 
examinado foi coletado na Serra de São José no 
período de 2001-02, herborizado segundo as 
técnicas comuns utilizadas em trabalhos 
taxonômicos e depositado no Herbário do Museu 
Nacional (R). Examinaram-se fototipos 
pertencentes aos Herbários R e RB. 


A terminologia botânica está de acordo com Fonr 
Quer (1989) e WEBERLING (1989). A morfologia 
da folha seguiu Rizzini (1977) e o padrão de 
nervação, Hickey (1979). A abreviação dos 
nomes seguiu Brummir & PowEeL (1992); a das 
obras princeps, STAFLEU & Cowan (1973-1988) e 
a dos periódicos, LAWRENCE et al. (1968). 


As fotografias do indumento foliar das espécies 
de Croton foram obtidas através de microscopia 
eletrônica de varredura (MEV). As coletas foram 
particularmente preparadas visando ao 
tratamento específico para MEV: em campo, as 
lâminas foliares (submersas em água numa 
placa de Petri) foram cortadas em fragmentos 
com nervura central e margem. Foram então 
preservadas em álcool 70º GL, e gradualmente 
desidratadas em série etílica, sendo submetidas 
ao ponto crítico e metalização com ouro. 


Para a análise morfológica do indumento utilizou- 
se a classificação proposta por WEBSTER et al. 
(1996), em que são reconhecidos sete tipos 
básicos de tricomas: estrelado, com os raios 
compondo um único ciclo num mesmo plano; 
fasciculado, com raios em mais de um plano; 
rosulado ou multiradiado, que assemelha-se ao 
fasciculado, porém com um número maior de 
raios (mais de 8); dendrítico, com raios inseridos 
em diferentes níveis ao longo de um eixo principal 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


vertical; lepidoto, semelhante a uma escama 
devido à total fusão entre os raios; papilado 
e glandular. 


As descrições morfológicas e a chave de 
identificação foram elaboradas com os dados da 
análise taxonômica do material coletado. As 
espécies ruderais encontradas (Chamaesyce 
prostrata (Ait.) Small, C. hyssopifolia (L.) Small.; 
Croton glandulosus L., C. lundianus Múll. Arg. 
não foram tratadas neste trabalho. 


Os dados referentes aos nomes populares, à 
distribuição geográfica e ao habitat das 
espécies foram obtidos a partir das etiquetas 
do material dos herbários: BHCB, ESAL, FCAB, 
GUASTE; HXBHS GUPRA By RB, «SPpecSPE 
(HoLMGREN et al., 1990). 


RESULTADOS E DISCUSSÃO 
Euphorbiaceae Juss., Gen. Pl. 384. 1789. 


Árvores, arbustos, subarbustos, ervas ou 
lianas; monóicas ou dióicas, suculentas ou não, 
geralmente latescentes ou resinosas. Folhas 
simples ou compostas, alternas, raramente 
opostas ou verticiladas; limbo inteiro ou 
dividido em lobos ou segmentos, tri a 
quinquefolioladas. Estípulas livres, diminutas 
a bem desenvolvidas, glandulares ou não. 
Nectários extraflorais geralmente presentes nas 
folhas e nas brácteas. Indumento, simples, 
tricomas uni ou pluricelulares, unisseriados, 
ou ramificados (estrelados ou lepidotos); ou 
espécies totalmente glabras. Inflorescências em 
racemos, glomérulos, ciátios, tirsos, axilares ou 
terminais; ou flores solitárias; brácteas 
glandulares ou não. Flores unissexuadas, 
actinomorfas, com ou sem vestígio do sexo 
atrofiado, di ou monoclamídeas. Disco 
nectarifero geralmente presente, segmentado ou 
inteiro. Androceu com poucos a muitos estames: 
filetes curtos ou longos, livres ou concrescidos; 
anteras bitecas, rimosas, introrsas ou 
extrorsas; grãos de pólen na maioria 
tricolporados. Gineceu tricarpelar (1 a 
múltiplos): ovário livre; 3 estiletes livres ou 
parcialmente concrescidos, inteiros, bífidos, 
multipartidos, lobados ou laciniados no ápice. 
Frutos capsulares, tricocas, deiscentes ou não. 
Sementes globosas, ovóides a angulosas, 
carunculadas ou não. 


326 


D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES 


CHAVE PARA AS ESPÉCIES 


1. Inflorescências em racemos 
2. Hábito arbóreo 

3. Glândulas (2-5) na base do limbo; indumento rosulado; flores pistiladas junto às estaminadas ao 
ONO dE tGLESCENCIAL coeso trt ecalria Ser ea SE ndreeç a qa e pena E Dl ca go sele ado eta Croton urucurana 

3”. Glândulas ausentes na base do limbo; indumento estrelado-lepidoto; flores pistiladas na base e 
estaminadas na-parte-supérior da raque «e ms ecunenpr saga rqu ara Cocina acc dare regeneraas Croton floribundus 


2º. Hábito subarbustivo ou arbustivo 


+ Cuandulas Ausentes no mb cegencepar aqui aceMs ros Rana en acre gens e ais aeee teresa di Croton campestris 


4º. Glândulas presentes no limbo 


5. Glândulas na face abaxial, na base e margem do limbo ........................ Croton antisyphiliticus 


5”. Glândulas ausentes na face abaxial e presentes na margem do limbo 


6. Presença de pétalas bem desenvolvidas na flor pistilada .................cccicicsicits Croton gnidiaceus 


6”. Pétalas reduzidas na flor pistilada 


ER VSTO TALE TEECRELLE OS 422008 bater gls dl se enipçi d , d  D i  S D j Croton arlineae 


7º. Presença de indumento estrelado 


8. Limbo com margem revoluta; estípulas glanduloso-laciniadas alongadas (1,7-2mm) multipartidas 
de poa E ic EE a GRE SE oo a E UR CR 4 E OA pp E E pa a ira d Croton vestitus 

8”. Limbo com margem plana; estípulas glanduloso-laciniadas, 3-5 partidas (0,7-1,0mm) digitadas 
EPI SR RU CASA PONTA VU PO ELSA CONT ei PU E CNS AS CRIS RR PO ES eae Croton timandroides 
1º. Inflorescências em ciátios 

9. Folhas alternas, com base simétrica; apêndice petalóide notoriamente ungúiculado, coberto 
inteiramente por nectário extrafloral na superfície adaxial ................. Euphorbia chrysophylla 


9”. Folhas opostas junto à inflorescência, com base assimétrica; apêndice petalóide oval com nectário 


extrafloral na base da superficie adaxial ............. 


1. Chamaesyce S.F.Gray 


1.1 Chamaesyce caecorum (Mart. ex Boiss.) Croizat, 
J. of the Arnold Arbor. 24:187. 1943 (Fig.2). 


Ervas, 6,0-32cm alt., eretas, glabras, latescentes, com 
xilopódio. Caule filiforme vináceo-avermelhado, áfilo 
na porção basal. Folhas verticiladas (3-5), opostas 
junto à inflorescência, uninérveas, membranáceas, 
linear-lanceoladas, nervura mais proeminente na face 
abaxial; limbo 1,4 x 0,3cm, base aguda assimétrica, 
ápice agudo, apiculado, margem inteira, cartilaginosa; 
pecíolo 0,8-1,2mm compr.; estípulas 1,0Omm x 2,/0mm, 
triangulares, interpeciolares, fusionadas, fimbriadas 
no ápice, levemente rugosas. Inflorescências ciátios 
dispostos em dicásios de pleiocásios terminais em 


AS CAS à Se a a pa a Chamaesyce caecorum 


diferentes estágios de desenvolvimento, 2,8-3,0mm 
de diâmetro; pedúnculos 1.0-2,0mm compr.; 
invólucro campanulado-arredondado, ca. 3,5 x 
3,0mm, glabro na parte externa, brácteas involucrais 
modificadas palmado-divididas, translúcidas na parte 
interna; lobos triangulares, ciliados, tricomas longos; 
apêndices 4, petalóides, ovais, alvo-amarelados, 2,0 
x 1,0mm; nectários extra-florais pateliformes, na base 
do apêndice, 0,3 x 1,0mm; brácteas fimbriadas, 3- 
partidas, 0,5 x 0,3mm, em meio aos lobos do 
invólucro. Flores estaminadas ca. 15 por ciátio; 
pedicelo 0,7-1,0Omm compr.; filete 0,3-0,5mm compr.; 
antera globosa ca. 0,4 x 0,2mm. Flores pistiladas 
monoclamiídeas; pedicelo 1,8-2,0mm compr.; ovário 
1,0-2,0 x 1,0-2,0mm; estiletes bipartidos, curtos; 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 327 


estigmas globosos. Frutos cápsulas, 2,0 x 3,0mm, 
pedicelo ca. 3,)0mm compr. Sementes 83, 2,0 x 1,Omm, 
testa rugosa, envoltório mucilaginoso. 


Nomes populares — “Erva-de-andorinha” (MG, SP); 
“erva-de-santa-luzia”; “poainha”, “poaia-de-leite” 
(MT, GO) 


Distribuição geográfica e habitat — Na área estudada 
ocorre em campo rupestre, cerrado e zonas de 
transição entre estas fitofisionomias. Em outras 
localidades, há registros em campo rupestre (BA, 
DF, MG); cerrado e cerrado ralo (SP); campo sujo 
(GO); campo limpo (MT, GO, PR); campos altos 
queimados (GO, MG, SP) e locais alterados (DF). 


Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, 
Tiradentes, Caminho do Mangue, 14/X1/2000 (f), 
R. J. V. Alves 6954 & D. Medeiros 08 (R); topo leste 
da Calçada da Serra, 2'7/II1/2001 (fl), D. Medeiros 
16 (R); encosta voltada para nororeste da Calçada 
da Serra, 27/II1/2001 (fl), D.Medeiros 17 (R); 
encosta oeste da Calçada da Serra, 2'7 /II1/2001 (fl), 
D.Medeiros 19 (R); topo da Cachoeira do Bom 
Despacho, 01/1IX/2001 (fl), L.Bernardo & 
D.Medeiros 114 (R); subida da trilha da Cachoeira 
do Bom Despacho, 01/1X/2001 (fl), L.Bernardo & 
D.Medeiros 115 (R); Calçada da Serra, 24/X/2001 
(fl), D.Medeiros 128 (R); topo da Calçada da Serra, 
24/X/2001 (fl), D. Medeiros 135 (R); trilha Calçada 
da Serra-Cachoeira do Mangue, 24/X/2001 (fl), 
D.Medeiros 141 (R); margem esquerda da cachoeira 
na trilha Calçada da Serra-Cachoeira do Mangue, 
24/X/2001 (fl), D.Medeiros 142 (R); Águas Santas, 
subida da trilha em direção à Cachoeira do Mangue, 
25/X/2001 (fl), D.Medeiros 153 (R); margem da 
Cachoeira do Mangue, 25/X/2001 (fl, fr), 
D.Medeiros 155 (R); encosta norte de Águas Santas, 
25/X/2001 (fl), D.Medeiros 156 (R); trilha da 
Cachoeira do Bom Despacho, 21/X1I/2001 (fl), 
D.Medeiros 178 (R). 


Observou-se a floração de alguns indivíduos logo após 
a ação do fogo e as coletas ocorreram principalmente 
entre agosto e dezembro, período no qual os espécimes 
eram mais facilmente visualizados devido à cor 
amarela dos apêndices petalóides dos ciátios. 


Realizaram-se cortes à mão livre do mesofilo de 
indivíduos preservados em ácool 70ºGL para 
observação da bainha de clorênquima ao redor das 
nervuras (anatomia Kranz), o que foi nitidamente 
constatado. 


Esta espécie enquadra-se na categoria “Menor 
Preocupação” (“Least Concern — LC?) da Red List 
Categories (2001), elaborada segundo critérios 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


estabelecidos pela União Internacional para a 
Conservação da Natureza (IUCN). 


2. Croton L. 


2.1. Croton antisyphiliticus Mart., Reise Bras. 1:282. 
1823 (Fig.3; Fig.12-A, B). 


Subarbusto 10,0-30,0cm alt., ereto ou subereto, 
estrelado-pubescentes, base subterrânea lenhosa. 
Folhas alternas, subcoriáceas, oblongo- 
lanceoladas, base e ápice agudos, peninérveas, 2- 
o glândulas pateliformes na base do limbo e outras 
espalhadas acompanhando as margens, indumento 
estrelado, subglabras na face adaxial; limbo 3,0- 
10,0 x 1,5-3,0cm, margem irregularmente serreada; 
pecíolo 0,5-1,0cm compr.; estípulas lineares, 
0,3mm compr., tricomas estrelados externamente. 
Inflorescências em racemos densos, 5,2-11,0cm 
compr., brácteas florais lineares. Flores 
estaminadas mais de 20 por inflorescência; brácteas 
2,0mm compr.; pedicelo 1,0Omm compr.; sépalas 5, 
lanceoladas, 2,0 x 1,0mm, tricomas estrelados 
apenas externamente; pétalas 5, lanceoladas, 1,4 
x 0,7/mm, ciliadas; disco de 5 segmentos; estames 
10-13; filetes 1,0mm compr., glabros; anteras 
ovóides, 0,8mm compr. Flores pistiladas 4-16 na 
base da inflorescência; sésseis; brácteas 3,5mm 
compr., tricomas estrelados externamente; sépalas 
5, ciliadas, 4,0 x 1,0mm, tricomas estrelados 
apenas externos; disco de 5 segmentos achatados 
sobre 2/3 basais das sépalas; ovário estrigoso, 
2,0mm compr., tricomas 1,5mm compr.; estiletes 
2-partidos na base e no ápice. Frutos cápsulas 
globosas, ca. de 3,0 x 3,0mm, estrigosos. Sementes 
3, elípticas, 3,3 x 3,0mm, testa lisa, castanha. 


Nomes populares — “Pé-de-perdiz”, “canela-de- 
perdiz” (MG). 


Distribuição geográfica e habitat — Tocantins, Mato 
Grosso, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, São 
Paulo, Paraná e Santa Catarina. Há registros em 
campos rupestres (GO, SP, MG); cerrado (MT, GO, 
MG); cerrado queimado (MG, SP); cerrado-ralo (MG); 
campo sujo (MT, GO, DF). Na área estudada, é 
frequente em regiões de cerrado e campos rupestres, 
principalmente nas áreas da vertente norte, que 
são mais secas. 


Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, 
Tiradentes, Cachoeira do Mangue, 14/X1/2000 (fl), 
R.J.V.Alves 6942 & D.Medeiros 06 (R); Cachoeira 
do Mangue, 13/X1/2000 (fl, fr), R.J.V.Alves 6941 & 
D.Medeiros 07 (R); 22/VI/2001, D.Medeiros 683 (R); 


328 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES 


Cachoeira do Bom Despacho, lado esquerdo da 
represa, 31/VIII/2001 (fl), D.Medeiros 95, 96 (R); 
Calçada da Serra, 28/IX/2001 (fl), D.Medeiros 97, 
99, 100 (R); trilha Calçada da Serra-Cachoeira do 
Mangue, 24/X/2001 (fl), D.Medeiros 123 (R); 
Cachoeira do Bom Despacho, 25/X/2001 (fl, fr), 
D.Medeiros 147, 148, 150(R); Cachoeira do Mangue, 
20/X1/2001 (fl, fr), D. Medeiros 162 (R). 


Classifica-se na categoria “Menor Preocupação” 
(“Least Concern — LC?) da Red List Categories (2001) 
baseada nos critérios da União Internacional para 
a Conservação da Natureza (IUCN). 


2.2. Croton arlineae D.Medeiros, Senna & Alves, 
Bradea 8(44):299-302. 2002 (Fig.4; Fig.12-C, D). 


Subarbusto 0,40-1,0m alt., ereto, ramos paralelos, 
cilíndricos, dicotômicos, total e permanentemente 
glabro. Folhas subsésseis, densamente dispostas 
na parte terminal dos ramos, subcoriáceas, oval- 
lanceoladas, base aguda, ápice agudo a levemente 
acuminado, curtamente palmatinérveas, sem 
glândulas na base, glabérrimas, resinosas, viscosas 
em ambas as faces; lâmina 0,5-1,5 x 0,3-0,4cm, 
margem lisa com glândulas inclusas; pecíolo 0,3mm 
compr., praticamente nulo; estípulas digitadas, 0,5- 
0,7mm compr., glanduloso-laciniadas, 3-6 partidas. 
Inflorescências racemos curtos, com poucas flores, 
1,3-2,2ecm compr., com zona nua e estéril distinta 
entre as flores pistiladas na base e as estaminadas 
no ápice, glabras; brácteas glanduloso-laciniadas, 
linear-lanceoladas, unifloras. Flores estaminadas 
6-20 por inflorescência, pedicelo 1,0-2,0mm 
compr.; brácteas 3,0-3,5mm compr.; sépalas 5, 
oval-lanceoladas, 2,0-3,0 x 1,0-1,5mm, margem 
glandulosa, ciliada no ápice; pétalas 5, oval- 
lanceoladas, 1,5-2,1 x 0,7-1,0mm, membranáceas, 
translúcidas, margem ciliada; disco 5 segmentos 
truncados, pateliformes; estames 11; filetes 1,0- 
2,0mm compr., glabros, marrons; anteras ovóides, 
0,5-1,0 x 0,3-0,6mm. Flores pistiladas 1-3 na base 
da inflorescência, pedicelo 0,7-1,)0mm compr.; 
brácteas 4,0-4,2mm compr.; sépalas 5, oval- 
lanceoladas, 5,0-6,0 x 1,5-2,0mm, glândulas na 
margem e na face externa, dispostas em 3-4 linhas 
verticais, frequente uma menor que as outras, 
persistentes; pétalas 5, glanduliformes, alvas, 0,1- 
0,4mm compr.; disco 5 segmentos pateliformes 
opostos às sépalas; ovário globoso, 2,/0mm compr., 
glanduloso, glabro; estiletes 3-5 partidos, 1/3 basal 
comum em forma de coluna cilíndrica, persistentes. 
Frutos cápsulas globosas, 0,4 x 0,4mm. Sementes 
3, 2,3-2,5 x 1,8-2,0mm, testa lisa. 


Distibuição geográfica e habitat — Minas Gerais, 
Serra de São José (vertente norte), Cachoeira do 
Bom Despacho. Rupícola. 


Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, 
Tiradentes: Cachoeira do Bom Despacho, 27/III/ 
2001 (fl), D. Medeiros 31, 32, 33, 34 35 (R); 24/X/ 
2001 (fl, fr), D. Medeiros 124, 131 (R); 22/11/2002 
(fl), D. Medeiros 187, 188, 189, 190, 191, 192, 198, 
194, 195,0196, 197; 198, 199, 200, 201,202; 2058, 
204, 205 (R). 

Observou-se uma população por cerca de um ano 
e três meses, quando pôde-se constatar a ocorrência 
simultânea de indivíduos em diferentes estágios de 
desenvolvimento da inflorescência ou frutificação. 
Indivíduos estéreis restringiram-se aos jovens. 


Esta espécie apresenta viscosidade intensa e suas 
folhas são pegajosas, fazendo com que partículas 
do solo e vestígios de animais (ex.: penas) permaneçam 
aderidos à sua superficie. Quando recém-herborizados, 
é possível observar uma substância resinosa de 
coloração castanha entre ramos, estípulas, folhas e 
órgãos reprodutivos. Essa viscosidade pode estar 
associada a dois fatores principais: cutícula espessa e 
abundância de glândulas que se distribuem 
amplamente pelos ramos, estípulas, flores (ovário, 
sépalas, pétalas) e frutos. 


As glândulas na margem do limbo foliar são muito 
discretas e de difícil observação, assim como 
acontece em C. gnidiaceus e C. timandroides. Elas 
estão praticamente inclusas na margem, sendo 
mais facilmente identificadas pela suave depressão 
do limbo em seu ponto de localização e por 
pequenas manchas de coloração escura 
(provavelmente provocadas pela liberação das 
substâncias de excreção presentes nas glândulas). 


A espécie mais próxima de C. arlineae é C. 
gnidiaceus, da qual diferencia-se pela ausência de 
indumento, redução das pétalas femininas que são 
glanduliformes ao invés de flabeliformes, e 
presença de glândulas nos ramos, nas sépalas 
(região dorsal) e no ovário. As pétalas 
glanduliformes possuem uma pequena haste com 
uma glândula globosa no ápice. 


Croton arlineae só foi encontrada em uma parte da 
serra, na área da Cachoeira do Bom Despacho, 
situada na vertente norte, que é a mais seca. O 
posicionamento geográfico pode estar diretamente 
relacionado ao processo de especiação, pois esta área 
apresenta mais rochas e escarpas do que as áreas 
de ocorrência de C. timandroides, C. gnidiaceus e C. 
vestitus Spreng. É interessante observar que estes 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 329 


três táxons não foram encontrados nas proximidades 
da população estudada de C. arlineae. 


De acordo com os dados levantados e expostos 
anteriormente e os critérios da União Internacional 
para a Conservação da Natureza (IUCN), 
estabelecidos na Red List Categories (2001), esta 
espécie classifica-se como “Criticamente em Perigo” 
(“Critically Endangered — CR”). 


2.3. Croton campestris A.St.-Hil., Pl. Usuel. Bras. 
T.60. 1827 (Fig.5; Fig.12-E, F). 


Arbusto 1,0-1,5m alt., ereto, ramos cilíndricos, 
indumento denso estrelado. Folhas pecioladas, 
subcartáceas, oblongo-lanceoladas, base e ápice 
obtusos, peninérveas, sem glândulas na base, 
avermelhadas e caducas quando mais velhas, 
indumento denso estrelado, subglabra na face 
adaxial; lâmina 2,6-7,7 x 0,9-3,7cm, margem lisa; 
pecíolo 0,7-1,5cm compr.; estípulas arredondadas, 
1,5 x 1,0mm, tomentosas. Inflorescências em 
racemos, 1,5-8,0cm compr.; brácteas lanceoladas, 
tricomas estrelados alvos. Flores estaminadas 20- 
30 por inflorescência, pedicelo 0,7mm compr.; 2- 
3 flores por bráctea de 1,0 x O,ômm, tricomas 
estrelados só no ápice internamente; sépalas 5, 
lanceoladas, 2,0 x 1,0mm, tricomas estrelados 
externos; pétalas 5, lanceoladas, 1,8 x 0,/mm, 
ungúiculadas, tricomas estrelados no ápice; disco 
de 5-segmentado; estames 14-17; filetes 1,2mm 
compr.; anteras 0,ô5mm compr., ovóides. Flores 
pistiladas sésseis, poucas ou apenas uma na base 
da inflorescência; brácteas 2,5 x 1,0mm; sépalas 
5-6, lanceoladas, 3,0 x 1,0mm, tricomas estrelados 
externos; pétalas 5, glanduliformes, reduzidas; 
disco inteiro, coloração alaranjada vistosa; ovário 
globoso, 2,0 x 2,0mm, tricomas estrelados; 
estiletes 2-partidos desde a base, 2-3 vezes mais 
longos que o ovário, ca. 5,2mm compr. cada. 
Frutos cápsulas globosas, 6,0 x 4,0mm, pilosos. 
Sementes elípticas, 3-3,5mm X 1,ô5mm, testa 
escura com manchas claras. 


2” [44 


Nomes populares — “Velame”, “velame-do-campo” 
(BA, MG); “velame-de-bode” (BA) 


Distribuição geográfica e habitat —- Bahia, Mato 
Grosso, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, 
Minas Gerais e São Paulo. Há registros em campos 
rupestres (BA, MG), zona de transição campo 
rupestre-cerrado (GO, MG), zona de transição campo 
rupestre-caatinga (BA), cerrado (MT, GO, MG), cerrado 
degradado (SP, MG), transição cerrado-floresta semi- 
decidual (BA), cerrado-ralo (GO), cerradão (SP), campo 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


sujo (MT, MG), campo recém-queimado (DF, MG) e 
caatinga (BA). Na área estudada ocorre em campos 
rupestres, em solos areno-pedregosos e afloramentos 
de rochas quartzíticas. 


Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, 
Tiradentes, Cachoeira do Mangue, 13/X1/2000 (fl), 
R.J.V.Alves 6936 & D.Medeiros 01 (R); idem, 13/XI/ 
2000 (fl), R.J.V.Alves 6939 & D.Medeiros 04 (R); idem, 
13/X1/2000 (fl, fr), R.J.V. Alves & D.Medeiros 05 (R); 
Cachoeira do Mangue, 24/X/2001 (fl), D.Medeiros 
138, 144 (R) topo da formação principal da Serra, 
extremidade oeste, 277 /II1/2001 (fl), D. Medeiros 11 (R); 
alto da Cachoeira do Mangue, 27/II1/2001 (fl), 
D.Medeiros 21 (R); alto da Cachoeira do Mangue, 31/ 
VIII/2001 (fl), D.Medeiros 105 (R); alto da Cacheira 
do Mangue, trilha Calçada de Serra-Cachoeira do 
Mangue, 24/X/2001 (fl, fr), D.Medeiros 119, 120, 
121 (R); Calçada da Serra, 24/X/2001 (fl), 
D.Medeiros 125, 126, 127, 128, 129, 130, 1582 (R). 


No levantamento de herbário pôde-se observar 
ampla variação morfológica do limbo foliar e 
indumento. As folhas variaram de largo-obovadas 
(MT, GO, MS, SP) a agudo-lanceoladas (MT, GO, 
DF, BA, MG), com ápice foliar agudo, levemente 
acuminado (PE, BA, MG) a obtuso (GO). A margem 
do limbo apresentou-se inteira (MG) e serrilhado- 
pontuada (GO, MG, SP). O indumento apresenta- 
se menos áspero (MT) e mais denso, com pêlos 
espessos (DF). Lima & Pirani (2003) ressaltaram “a 
necessidade de estudos deste grupo, uma vez que 
a existência de indivíduos com caracteres 
intermediários e a falta de descontinuidades 
morfológicas impossibilitam a correta determinação 
da espécie”. Na área estudada, os indivíduos 
coletados apresentaram caracteres constantes 
dentro de um mesmo padrão morfológico, não 
ocorrendo a variabilidade observada nas exsicatas 
e coletas de outras localidades. Observou-se que 
este padrão constante das espécies da Serra de São 
José é idêntico ao representado na estampa que 
acompanha o protólogo de Saint-Hilaire (1827). As 
quatro variedades estabelecidas inicialmente por 
Baillon (1864) foram organizadas em seis, e mais 
tarde em cinco por Múller-Argoviensis (1866, 1873). 
Em todos estes tratamentos recebidos, os principais 
critérios utilizados na distinção entre as variedades 
foram o limbo foliar (dimensão e a forma) e o 
indumento (tipo e coloração). Na última 
classificação infraespecífica realizada, a de Múller- 
Argoviensis (1873), os indivíduos aqui estudados 
se enquadram na variedade C. campestris genuinus 
Múll. Arg., ou seja, são representantes da espécie 


330 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES 


propriamente dita. Atualmente, a denominação mais 
adequada é C. campestris A.St.-Hil. var. campestris. 


Entre as espécies de Croton arbustivas da Serra, 
C. campestris é a que apresenta as inflorescências 
mais vistosas, perfumadas, com estiletes mais 
longos que os das demais, e a que desenvolve maior 
estatura (até 1,80m). As flores pistiladas possuem 
pétalas diminutas, globosas, glanduliformes, 
glabras e alvas, quase imperceptíveis, junto ao disco 
na base do ovário. Porém, observou-se um indivíduo 
com uma das pétalas desenvolvida, alongada, com 
cerca de metade do comprimento da sépala, o que 
provavelmente representa um estágio intermediário 
no processo de redução das pétalas. Constatou-se 
a presença de látex incolor durante o corte de 
ramos. Há registro de presença de xilopódio em 
indivíduo coletado em Mato Grosso. 


Apesar de amplamente distribuída no Brasil, 
principalmente em Minas Gerais, não foram 
encontradas grandes populações de Croton 
campestris na Serra de São José. Foram coletados 
indivíduos isolados ou em pequenos grupos, 
esparsos, ao longo dos percursos de coleta. 


Este táxon classifica-se como “Vulnerável” 
(“Vulnerable — VU?, de acordo com a Red List 
Categories (2001), da União Internacional para a 
Conservação da Natureza (IUCN). 


2.4. Croton floribundus Spreng., Syst. Veg. 3:873. 
1826 (Fig.6; Fig.12-G, H). 


Árvore até 10,0m alt., caule estrigoso, indumento 
estrelado-lepidoto. Folhas pecioladas, limbo 11,0- 
15,0 x 5,0-7,0cm, cartáceas, elípticas a oblongo- 
elípticas, base aguda sem glândulas, ápice 
acuminado, peninérveas, indumento estrelado- 
lepidoto denso, subglabra (tricomas simples) na face 
adaxial margem inteira; pecíolo 3,5-6,0cm compr.; 
estípulas caducas, lanceoladas, foliáceas 1,0 x 
0,3cm, tricomas lepidotos. Inflorescências racemos 
terminais, ca. 22,0cm compr.; brácteas lanceoladas, 
ápice agudo. Flores estaminadas mais de 50 ao longo 
do eixo da inflorescência; pedicelo 4,0mm compr.; 
brácteas 6,0mm x 1,0mm; sépalas 5, ovadas, 4,0 x 
2,omm, pilosas; pétalas 5, lanceoladas, 3,0 x 1,0mm, 
pilosas, delgadas; disco com 5 segmentos 
pateliformes; estames ca. 16; filetes 3,)0mm compr., 
pilosos na base; anteras 1,5mm compr., rimosas. 
Flores pistiladas, mais de 20 na base da 
inflorescência; brácteas 6,0 x 1,0mm; pedicelo 
5,0mm compr., tricomas lepidotos; sépalas 5, 
lanceoladas, 6,0 x 3,ômm, tricomas lepidotos 


externos e estrelados internos; pétalas linear- 
lanceoladas, 2,5-3,0 x 0,2-0,3mm, tricomas 
estrelados externos; disco 5 segmentos pateliformes; 
ovário globoso, 3,0 x 3,0mm, tricomas lepidotos 
alvos; estilete multipartido, 5,0mm compr., tricomas 
lepidotos. Frutos cápsulas, ca. de 8,0 x 5,0mm. 
Sementes 3, elípticas, 5,0 x 4,0mm. 


Nomes populares — “Capixingui” (MG, ES, SP), 
“cambará de lixa” (MG); “marmeleiro” (PA); “sangue- 


de-dragão”, “cambraia” (SP). 


Distribuição geográfica e habitat — Pará, Ceará, 
Pernambuco, Bahia, Mato Grosso do Sul, Minas 
Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro e 
Paraná. Na área estudada ocorre em floresta 
semidecídua montana, em áreas de transição entre 
matas de galeria, cerrado e campo rupestre. 


Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, 
Tiradentes, Calçada da Serra, próximo ao ínicio do 
calçamento da trilha, 24/X/2001 (fl), V.C.Maia & 
D.Medeiros 134 (R); idem, 21/XI/2001 (fl) V.C.Maia 
& D.Medeiros 175 (R). 


Croton floribundus é árvore pioneira muito frequente 
na floresta estacional semidecidual, ocorrendo 
eventualmente em cerradões. É muito abundante 
em formações secundárias. 


Este táxon pode ser facilmente reconhecido no 
campo, mesmo estando estéril, pois suas folhas são 
acentuadamente discolores, cartáceas, com 
indumento amarelado muito áspero ao toque e não 
apresentam glândulas na base. As estípulas são 
bem desenvolvidas, foliáceas, porém decíduas, o 
que muitas vezes impossibilita sua observação em 
material seco. Os estames são cerca de 16, pilosos 
na metade inferior. 


Os espécimes aqui estudados diferenciam-se da 
variedade C. floribundus var. piauhyensis, 
estabelecida por Rizzini (1976), quanto à forma, 
tamanho e cor do indumento foliar. Representam a 
variedade C. floribundus Spreng. var. floribundus. 


Os racemos jovens são compostos exclusivamente 
por botões estaminados congestos. As flores 
pistiladas desenvolvem-se mais tarde, só sendo 
observadas na base do racemo após seu total 
crescimento, cerca de um mês depois. Estes dados 
estão de acordo com os de Passos & Sazima (1995), 
que relataram uma marcada dicogamia para esta 
espécie no estado de São Paulo, “sendo o indivíduo 
ora funcionalmente masculino, ora feminino”. 
Observaram que as flores pistiladas permanecem 
receptivas por cerca de dois dias e as estaminadas 
por apenas um dia. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL ERA 


Este táxon enquadra-se na categoria “Menor 
Preocupação” (“Least Concern — LC?) da Red List 
Categories (2001), de acordo com os critérios 
estabelecidos pela União Internacional para a 
Conservação da Natureza (IUCN). 


2.9. Croton gnidiaceus Baill., Adansonia 4:854. 
1863-64 (Fig.7; Fig. 13-A, B). 


Subarbusto 40-60cm alt., ereto, ramos paralelos, 
delgados, ciliíndricos, glabros nos 2/3 basais, 
pubérulos quando jovens. Folhas concentradas no 
ápice do ramo, subsésseis; limbo 0,6-1,3 x 0,3-07cm, 
subcoriáceas, oval-lanceoladas, base aguda, ápice 
arredondado-obtuso curtamente acuminado, 
curtamente palmatinérvea, sem glândulas na base, 
glabras à primeira vista, porém com indumento 
estrelado translúcido esbranquiçado em ambas as 
faces, subglabra adaxialmente; margem 
moderadamente crenada, diminuto glandulosa; 
pecíolo praticamente nulo; estípulas alongadas, 0,6- 
0,9cm compr., glanduloso-laciniadas. 
Inflorescências racemos no ápice dos ramos, 
escondidos entre as folhas, 1,0-1,5ecm compr., 
tricomas estrelados; brácteas linear-lanceoladas, 
glanduloso-laciniadas, tricomas estrelados externos. 
Flores estaminadas 10-18 por inflorescência; 
brácteas 2,5 x 1,0mm, unifloras; pedicelo 2,0mm 
compr.; sépalas 5, obovadas, 2,0 x 0,8mm, margem 
fimbriada, tricomas estrelados em ambas as faces; 
pétalas 5, obovadas, ápice fimbriado, tricomas 
simples externos, glabras internamente; disco 5 
segmentos pateliformes; estames 10; filetes 1,2mm 
compr., viloso; anteras mais longas que largas, 1,0 
x O,omm, glabras. Flores pistiladas 1-2 na base da 
inflorescência; subsésseis; brácteas 3,0 x 0,6mm, 
sépalas 5, triangular-lanceoladas, 7,0 x 2,8mm, 
tricomas estrelados externamente, simples 
internamente; pétalas 5, subflabeliformes, 3,0 x 
0,6mm, membranáceas, margem ciliada, tricomas 
esparsos, coloração castanha; disco 5 segmentos, 
lobados; ovário ovóide, 2,8mm compr., tricomas 
estrelados; estiletes multipartidos na base (14-17). 
Frutos cápsulas globosas, 3,5 x 4,0mm. Sementes 
elípticas a obovais, 2,5 x 2,0mm, testa lisa. 


Distribuição geográfica e habitat — Minas Gerais, 
Serra de São José, Cachoeira do Mangue. Ocorre 
nos campos rupestres em solo argiloso-pedregoso 
e de quartzitos areníticos da vertente norte da Serra. 


Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, 
Tiradentes, Cachoeira do Mangue, VI/2001 (fl), 
D.Medeiros 36 (R). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


Croton gnidiaceus é muito semelhante a C. 
timandroides, pois ambos são subarbustos com 
ramos cilíndricos, dicotômicos, folhas subsésseis 
de pequenas dimensões e inflorescências compactas 
escondidas entre as folhas. Em campo, a 
diferenciação de C. gnidiaceus pode ser difícil à 
primeira vista, mas este táxon exibe indumento 
claro, não aveludado. 


Os caracteres diferenciais de Croton gnidiaceus em 
relação a C. timandroides são: presença de pétalas 
flabeliformes alvas na flor pistilada (ausentes nas 
demais espécies do gênero ocorrentes em campo 
rupestre estudadas); indumento estrelado denso- 
lanoso e número de estames que pode variar de 10 
a 14, sendo cerca de 10-11 também nas demais 
espécies próximas. 

Espécie menos frequente na área de estudo do que 
as espécies que lhe são próximas: Croton 
timandroides, C. vestitus e C. arlineae. Realizaram- 
se buscas intensivas de coleta e apenas um 
espécime foi encontrado. Uma espécie até pode ser 
erroneamente definida como rara, devido à falta de 
esforço em coleta nas demais regiões, o que 
acreditamos não ser o caso. Comparando-se sua 
taxa de ocorrência com a de outras espécies nesta 
área de estudo, pode-se levantar a hipótese de que 
este táxon deve estar em extinção, ou que talvez 
devido a mutações ao longo do tempo, ou a 
hibridizações, tenha sofrido um processo de 
especiação, levando à formação de outra espécies, 
no caso, a nova espécie encontrada. 


O fato é que se coletou C. arlineae na forma de 
população, e C. gnidiaceus apenas isoladamente. A 
população de C. arlineae foi acompanhada e 
amostrada por um ano e dois meses, tanto 
aleatoriamente nos seus limites geográficos de 
distribuição quanto com espécimes marcados. 
Encontraram-se alguns indivíduos representando 
formas de transição entre estas duas espécies, 
caracterizados por apresentar os dois tipos de 
pétalas na mesma flor, sendo a pétala típica de C. 
gnidiaceus sempre em minoria (uma normal ou no 
máximo duas, com uma normal e outra já reduzida 
e as restantes glanduliformes, extremamente 
reduzidas), como se fosse um vestígio de caráter, 
num processo de redução ou involução das pétalas. 
Alguns indivíduos apresentaram quatro pétalas 
reduzidas e apenas uma petalóide, com uma 
glândula globosa no ápice. 


Não existem coletas de C. gnidiaceus depositadas 
nos herbários visitados. Trata-se, a princípio, de 
uma espécie endêmica da área de estudo. A 


332 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES 


continuidade do trabalho de pesquisa de campo e 
de herbário faz-se fundamental para a consolidação 
destes dados. O levantamento florístico de serras 
vizinhas, tais como o da Serra do Lenheiro e o da 
Serra do Caraça, possibilitaria definir um padrão 
de distribuição geográfica mais conciso e definitivo. 


O levantamento bibliográfico realizado sobre esta 
espécie indicou a total ausência de trabalhos desde 
o tratamento de MULLER ARGOVIENSIS (1873) na Flora 
Brasiliensis. 


De acordo com os dados discutidos acima e com 
os critérios da União Internacional para a 
Conservação da Natureza (IUCN), estabelecidos na 
Red lást Catevories. (2001) esta espécie--é 
considerada “Criticamente Em Perigo” (“Critically 
Endangered — CE”). 


2.6. Croton timandroides (Didr.) Múll. Arg., Linnaea 
34:132. 1865 (Fig.8; Fig.13-C, D). 


Subarbusto 20,0-60,0cm alt., ereto, ramificado 
dicotomicamente, ramos cilíndricos, estrelado- 
pubescentes, marrons a avermelhados. Folhas 
densas no ápice dos ramos, subsésseis, limbo 1,4- 
3,4 x 0,3-0,7/cm, margem inteira, plana, 
subcoriáceas, oval-lanceoladas, base obtusa, ápice 
agudo, peninérveas, avermelhadas e caducas 
quando velhas, indumento estrelado em ambas as 
faces, concentrados nas nervuras e margem; pecíolo 
1,0mm compr.; estípulas diminutas, 0.7mm 
compr., glanduloso-laciniadas, 3-5 partidas, 
caducas.  Inflorescências em racemos, 
glomeruliformes, 1,0-4,3cm compr., poucas flores, 
escondidas entre as folhas; brácteas lanceoladas, 
margem glandulosa e tricomas estrelados externos. 
Flores estaminadas ca. 15 por inflorescência; 
pedicelo 1,5mm compr.; brácteas 2,4 x 1,0ômm 
compr.; sépalas 5, oval-lanceoladas, 1,4 x 1,Omm, 
ciliadas nas margens, tricomas estrelados externos 
e esparsos internos no ápice dos lobos; pétalas 5, 
obovais, 1,9 x 0,6mm, ciliadas, translúcidas; disco 
de 5 segmentos pateliformes; estames ca. 11; filetes 
0,8mm compr., pilosos nos 2/3 basais; anteras 
0,5mm compr., ovóides. Flores pistiladas 1-2 na 
base da inflorescência, sésseis; brácteas 5,0mm 
compr.; sépalas 5, 4,8-6,0 x 1,0-1,3mm, tricomas 
estrelados externos; disco de 5 segmentos lobados; 
ovário hirsuto, 0,5mm compr., tricomas estrelados 
externamente; estiletes 4-partidos (raramente 5-6- 
partidos). Frutos cápsulas globosas, 4,0 x 
4,0mm., indumento estrelado. Sementes 3, 
elípticas, ca. 3,0 x 2,0mm, testa pontuada. 


Distribuição geográfica e habitat — Bahia e Minas 
Gerais. Na área estudada, ocorre em campos 
rupestres, em solos entre fendas de afloramentos 
rochosos e solos quartzíticos e em áreas de 
cerrado. 


Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, 
Tiradentes, Cachoeira do Mangue, 13/X1/2000 
(1), R.J.V.Alves & D.Medeiros 03 (R); arredores 
da Cachoeira do Mangue, 27/II1/2001 (fl, fr), 
D.Medeiros 10, S0(R); trilha para a Cachoeira do 
Mangue, 28/11/2001 (fl), D.Medeiros 42, 43, 44, 
45, 46, 48, 49, 50, 51, 52, 53 (R); idem, 01/1X/ 
2001 (fl), D.Medeiros 118 (R); arredores da 
Cachoeira do Mangue, 25/X/2001 (fl), D. Medeiros 
149, 151, 154, 159 (R); Cachoeira do Mangue, 
20/X1I/2001 (fl), D.Medeiros 161 (R); início do 
calçamento da trilha Cachoeira do Mangue-Águas 
Santas, 22/11/2002 (fl), D.Medeiros 178, 179, 
180, 181 (R). 


Croton timandroides caracteriza-se pelas folhas oval- 
lanceoladas, dispostas no ápice dos ramos 
cilindricos, pubérulos quando jovens e 
posteriormente glabros; por suas estípulas 
inconspícuas, glabras, digitadas e ocultas no 
indumento, e flores pistiladas sésseis. O indumento 
foliar possui uma distribuição peculiar, 
concentrando-se na margem e na nervura principal 
do limbo, sendo esparso ao longo da superfície da 
lâmina. O número de estames é 10, sendo comum 
variar entre 10-11. 


As estípulas são facilmente diferenciadas das de €C. 
vestitus, pois são três a quatro vezes mais curtas, 
digitadas e tri-partidas. Assemelham-se às 
estípulas de C. gnidiaceus e de C. arlineae por serem 
glanduloso-laciniadas, mas observou-se que em C. 
timandroides elas são quase que invarivelmente 
digitadas. 


No exame de exsicatas, as folhas podem parecer 
glabras à primeira vista, mas uma observação 
mais acurada em estereomicroscopia evidencia a 
presença de diminutos pontos referentes ao local 
de inserção de tricomas estrelados que caíram. 


Este táxon é facilmente encontrado nos herbários. 
Porém foram encontradas algumas espécies 
morfologicamente semelhantes, determinadas como 
C. timandroides, entre as quais C. vestitus. 


Classifica-se como espécie “Em Perigo” 
(“Endangered — EN”), de acordo com a Red List 
Categories (2001), baseada nos critérios da União 
Internacional para a Conservação da Natureza 
(IUCN). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 333 


2.7. Croton urucurana Baill., Adansonia 4:335. 1864 
(Fig.9; Fig. 13-E, F). 


Árvore 4,0-10,0m alt., ramos estrelado- 
pubescentes, tomentosos quando jovens; estípulas 
foliáceas, partidas no ápice na forma de um gancho 
lateral, bem desenvolvidas, 0,8-1,5ecm compr. 
Folhas pecioladas, indumento rosulado, subglabra 
(tricomas simples) na face adaxial; limbo cartáceo, 
cordiforme, base cordada, auriculada, ápice 
acuminado, palmatinérveas, 2-5 glândulas 
pateliformes na base do limbo e/ou ápice do pecíolo, 
6,5-16,0 x 4,5-11,0cm, margem inteira; pecíolo 4,5- 
10,5em compr. Inflorescências em racemos longos, 
eretos, 15,0-29,0cm compr., flores estaminadas na 
porção superior e pistiladas na base ou ambas, 
distribuídas conjuntamente ao longo da raque; 
brácteas lineares. Flores estaminadas mais de 80 
por inflorescência; pedicelo 4,0mm compr., 
tricomas estrelados; brácteas 1,0-4,0 x 1,0mm, 
tricomas estrelados; sépalas 5, lanceoladas, 2,0 x 
1,2mm, tricomas estrelados externamente; pétalas 
5, lanceoladas, 2,0 x 1,0mm, tricomas estrelados; 
disco de 5 segmentos pateliformes; estames 17; 
filetes 0,/mm compr., pilosos na base; anteras 
ovóides, 0,ômm compr. Flores pistiladas mais de 
40 por inflorescência; pedicelo 2,0mm compr.; 
brácteas 3,0 x 1,0mm, tricomas estrelados externos; 
sépalas 5, espatuladas 3,0 x 1,3mm, tricomas 
estrelados externos; pétalas filiformes, 3,0 x 0,3mm; 
disco 5-segmentado; ovário tricoca, 2,3 x 2,5 mm, 
tricomas estrelados; estiletes 2-partidos na base. 
Frutos cápsulas tricocas, 5,0 x 6,0mm, muricados, 
deiscência explosiva. Sementes 3, elípticas, 3,9 x 
3,0mm, testa rugosa, castanha. 


Nomes populares — Brasil: “sangue-de-drago” (DF, 
MG, SP, RJ); “sangue-de-dragão” (MG, SP); “sangra- 
d'água” (DF, MS, MG); “sangria-d'água” (SP); 
“adraga” (MG); “adrago” (DF); “adrago-branco” (MG); 
“urucurana” (MT, SP); “casutinga” (MG); “mangue” 
(MG); “pau-de-sangue” (SP); “cambraia” (SP); 
“cuitelão” (SP); “coração-de-cristo”, “algodoeiro-do- 
rio”, “algodoeiro-do-mato” (RJ); “sangreado” 
(Paraguai), “quichua” (Equador). 


Distribuição geográfica e habitat — Brasil: 
Maranhão, Tocantins, Bahia, Mato Grosso, Goiás, 
Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, 
São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraná 
e Rio Grande do Sul. Na área estudada é muito 
frequente em matas ciliares e em áreas de vegetação 
secundária ao longo dos rios. Ocorre também, de 
forma menos significativa, em zonas de transição 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


de floresta estacional semidecidual submontana 
para cerrado, localizadas na vertente sul da Serra. 


Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, 
Prados, Serra de São José, margem do Córrego Baú, 
Gruta do Ouro, 14/X1/2000 (f), R.J.V.Alves 6953 
(R). BRASIL, MINAS GERAIS, Santa Cruz de Minas, 
beira da estrada velha São João del Rei-Tiradentes, 
VIII/2001 (fl, fr), D.Medeiros 113 (R). BRASIL, 
MINAS GERAIS, Tiradentes, Serra de São José, 
Caminho do Mangue, 27/11/2001 (fl), D.Medeiros 
15 (Rj: “Calçada” da- Serra, 27/11/20001 (fl), 
D.Medeiros 29 (R); Calçada da Serra, 28/11/2001 
(fl), D.Medeiros 47 (R); início da trilha da Cachoeira 
do Bom Despacho, VI/2001 (fl), D.Medeiros 71 (R); 
Calçada da Serra, próximo a brejo, 31/VIII/2001 
(fl), D.Medeiros 82 (R); beira da estrada São João 
del Rei-Tiradentes, 31/VIII/2001 (fl), D.Medeiros 
89; início da subida na trilha Calçada da Serra, 
31/VIII/2001 (FL), D.Medeiros 90 (R); Calçada da 
Serra, 31/VIII/2001 (fl, fr), D.Medeiros 91 (R); 
Calçada da Serra, 21/XI/2001 (fl), V.C.Maia & 
D.Medeiros 167 (R); Caminho do Mangue, 21/XI/ 
2001 (fl), V.C.Maia & D.Medeiros 176 (R). 


Croton urucurana é uma espécie pioneira aluvial, 
preferindo locais pouco sombreados, ou formações 
vegetais em processo inicial de regeneração 
natural. 


Vegetativamente, destaca-se visualmente no campo 
por apresentar as folhas mais velhas fortemente 
laranja-avermelhadas. Porém, como foi observado 
nas coleções de diversos herbários, este táxon pode 
ser facilmente confundido com C. lagoensis Múll. 
Arg., C. hemiargyreus Múll. Arg. e C. celtidifolius 
Baill. Estas espécies são muito parecidas, 
diferenciando-se pelo número de glândulas na base 
do limbo e seu respectivo posicionamento em 
relação ao mesmo, modo de inserção destas 
glândulas (sésseis ou estipitadas); pelo 
comprimento do pedicelo das flores pistiladas e pelo 
número de estames. 


MULLER-ARGOVIENSIS (1873) reconheceu três 
variedades para este táxon na Flora Brasiliensis, 
utilizando como caracteres diferenciais a cor e a 
densidade do indumento foliar. Os indivíduos aqui 
estudados enquadram-se na variedade C. urucurana 
Baill. var. urucurana. 


Durante as coletas da espécie, não houve 
exsudação de látex ou resina avermelhada, tão 
comumente citada na bibliografia e que 
provavelmente deu origem ao nome popular 
“sangue-de-drago”. O levantamento de herbário 


334 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES 


forneceu registros de ocorrência de látex branco 
em material coletado em Agudos (SP) e látex 
vermelho em material de Alfenas (MG). 
Observamos que este material parece se tratar 
realmente da mesma espécie, e talvez possa se 
estabelecer uma relação entre os meses de 
coleta e a presença de látex. De qualquer 
forma, registrou-se uma diferença na coloração 
do mesmo. 


De acordo com os critérios da União Internacional 
para a Conservação da Natureza (IUCN), 
estabelecidos na Red List Categories (2001), este 
táxon enquadra-se na categoria “Menor 
Preocupação” (“Least Concern — LC”). 


2.8. Croton vestitus Spreng., Syst. Veg. 3:875. 1826 
(Figs.10, 13G-H). 


Subarbusto 0,40-1,0m alt., ereto, ramos 
paralelos, cilíndricos, glabros, pubérulos quando 
jovens. Folhas subsésseis; limbo 1,5-4,2 x 0,2- 
0,6cm, margem  glandulosa-laciniada, 
adaxialmente revoluta; subcoriáceas, agudo- 
lanceoladas, base angulosa, ápice arredondado- 
obtuso, palmatinérveas, mais concentradas no 
ápice do ramo, avermelhadas e caducas quando 
mais velhas, sem glândulas na base, indumento 
estrelado denso em ambas as faces, aspecto 
lanescente de tom esbranquiçado; pecíolo 1,0- 
2,0mm compr.; estípulas alongadas, 1,7-2,0 x 
O,Imm, multipartidas, glanduloso-laciniadas, 
caducas e vermelho-alaranjadas quando mais 
velhas. Inflorescências em racemos curtos, 
glomeruliformes, 1,5-3,0cm compr., paucifloras; 
flores escondidas entre folhas, brácteas linear- 
lanceoladas, tricomas estrelados externamente. 
Flores estaminadas 20-30 por inflorescência; 
pedicelo-ca. 0,2mm compr.: brácteas 3,0-x 
0,3mm, unifloras; sépalas 5, lanceoladas, 2,0 x 
1,0mm, tricomas estrelados externos e 
internamente no ápice dos lobos; pétalas 5, 
obovadas, 1,0 x 0,4mm, membranáceas, ciliadas; 
disco 5-segmentado, lobado, pateliforme; 
estames ca. 10-14; filetes 1,0mm compr., 
tricomas simples na base; anteras ovóides, 0,7 
x 0,4mm. Flores pistiladas ca. 2 na base da 
inflorescência; sésseis; brácteas 6,0 x 0,7mm 
acompanhadas de 2 laterais menores, ca. de 
1,0mm compr. cada; sépalas 5, triangular- 
lanceoladas, 6,0 x 2,0mm, laciniado- 
glandulosas, tricomas estrelados externos; disco 
o-segmentado, lobado; ovário ovóide, 3,0 x 
2,omm, tricomas estrelados; estiletes 2-partidos 


na base e no ápice. Frutos cápsulas globosas, 
4,8mm compr., pilosos. Sementes 3, elípticas, 
3,0-4,0 x 2,0mm, testa pontuada, brilhante. 


Distribuição geográfica e habitat — Minas Gerais 
(Serra de São José, Itabira do Campo e Serra de 
Ouro Branco). Na área estudada ocorre em 
campos rupestres em solo argiloso-pedregoso e 
de quartzitos areníticos da vertente norte da 
serra e áreas de transição de cerrado-campo 
rupestre. 


Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, 
Tiradentes, borda da trilha para Cachoeira do 
Mangue, 13/XI/2001 (fl), R.J.V.Alves 6937 & 
D.Medeiros 02 (R); topo da formação principal da 
Serra extremidade oeste, 27 MI /L2001 (tj; 
D.Medeiros 12, 15 (R); alto da Calçada da Serra, 
27/11/2001 (fl, fr), D.Medeiros 22, 283, 24, 27, 
35, 38, 39, 40, 41 (R); topo da Calçada da Serra, 
logo após o término do calçamento da trilha, VI/ 
2001 (fl), D.Medeiros 73, 74, 75, 76, TT, T8 (RB); 
topo da Calçada da Serra, 31/VIII/2001 (fl), 
D.Medeiros 107, 109 (R); topo da Calçada da 
Serra, 24/X/2001 (fl), D.Medeiros 139 (R); 
Cachoeira do Mangue, 25/X/2001 (fl), D. Medeiros 
157, 160 (R); Calçada da Serra, 21/XI/2001 (fl), 
D.Medeiros 168 (R). 


À primeira vista, Croton vestitus assemelha-se a 
C. timandroides e C. gnidiaceus. Estas espécies 
são subarbustos ou arbustos com ramos 
cilíndricos, dicotômicos, com folhas subsésseis 
de pequenas dimensões e inflorescências 
compactas escondidas entre as folhas. Em campo, 
a diferenciação de C. vestitus pode ser difícil à 
primeira vista, porém este táxon possui folhas 
mais longas e estreitas, com margem recurvada 
para cima, apresentando numerosas glândulas 
(estipitadas nas folhas jovens) e indumento de 
aspecto lanoso, denso, esbranquiçado, 
contrastando com as folhas oval-lanceoladas, de 
margem plana e indumento esparso, decíduo, de 
C. timandroides e C. gnidiaceus. 


O indumento e as glândulas na margem do limbo 
sofrem nítida variação ao longo do desenvolvimento 
dos indivíduos em C. vestitus. Os jovens 
apresentam glândulas estipitadas e denso 
indumento, enquanto nos adultos as glândulas são 
discretas, de difícil visualização no campo, e o 
indumento subadpresso torna-se bem menos 
lanescente. Além disso, as folhas jovens, são 
praticamente dobradas adaxialmente, tanto em 
indivíduos jovens como em adultos. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 335 


SPRENGEL (1826) e MULLER-ARGOVIENSIS (1873) não 
citaram a presença de pétalas nesta espécie. 
Porém observamos pétalas muito reduzidas, bem 
menores que os segmentos do disco, 
glanduliformes, semelhantes às encontradas em 
C. arlineae. 


Taxonomicamente, segundo MUÚLLER-VERSALETE 
(1873), C. vestitus é próximo de C. josephinus 
Múll. Arg., diferenciando-se deste pela margem 
do limbo estipitado-glandulosa e pela distribuição 
do indumento nos filetes e anteras. Outra espécie 
citada como próxima a C. vestitus nesta mesma 
obra, porém com menor similaridade, é C. 
nitrariaefolio (Baill.) Múll. Arg. que se diferencia 
pelo indumento, pela pilosidade nas anteras e por 
ser dióica. 

Croton vestitus é muito abundante na vertente sul 
da Serra, e ocorre em densas populações, muitas 
vezes em conjunto com Croton timandroides. É 
mais frequente em solo arenoso, muito exposto e 
em rochas que compõem os campos rupestres. 


Existem pouquíssimas coletas deste táxon 
depositadas nos herbários brasileiros, e todas 
estas são de campos rupestres de serras de Minas 
Gerais; e o levantamento bibliográfico realizado 
sobre esta espécie indicou a total ausência de 
trabalhos desde o tratamento de MULLER 
ARGOVIENSIS (1873) na Flora Brasiliensis. 


De Acordo Com os critérios: da União 
Internacional para a Conservação da Natureza 
(IUCN), estabelecidos na Red List Categories 
(2001), esta espécie é considerada “Em Perigo” 
(“Endangered — EN?). 


3. Euphorbia L. 


3.1. Euphorbia chrysophylla Klotzsch ex Boiss., DC. 
Prodr. 15(2):194. 1866 (Fig.11). 


Ervas, 20,0-80,0cm alt., eretas, ramos simples 
ou ramificados, avermelhados na porção basal, 
glabros, latescentes, parte basal subterrânea, 
espessada. Folhas, alternas, verticiladas 
tornando-se opostas perto da inflorescência, 
limbo 2,8-3,0 x 0,4-0,7cm, base simétrica, 
obtusa, ápice agudo, margem inteira, espessada, 
linear-lanceoladas, crasso-membranáceas, verde- 
acinzentadas, peninérveas; pecíolo ca. de 1.0mm 
compr.; estípulas foliáceas, interpeciolares, 1,5 
x 0,7mm compr. Inflorescências em ciátios, 
dispostos em dicásios, geralmente terminais em 
diferentes estágios de desenvolvimento; 
pedúnculos dos ciátios 1,0-6,0mm compr.; 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


invólucro ca. 2,0 x 2,0mm, glabro na parte 
externa, viloso internamente; lobos triangulares 
na parte superior, tricomas simples 
esparsamente distribuídos; apêndices 5, 
petalóides, ungúiculados, 1,3-2,0 x 1,0mm; 
nectários glanduliformes, pateliformes, adnados 
à base do apêndice, 2,0 x 1,0mm; brácteas 3- 
partidas, fimbriadas 1,5 x 0,5mm, em meio aos 
lobos do invólucro. Flores estaminadas ca. de 
16 por ciátio, em meio à numerosas bractéolas 
modificadas; pedicelo ca. de O,3mm compr.; filete 
0,6-1,0mm compr.; antera 0,3-0,4mm larg. 
Flores pistiladas monoclamídeas; pedicelo 
3,0mm compr.; sépalas triangulares, 0,6-1,0mm 
x O,5mm; ovário 1,3-2,0 x 1,5-3,0mm; estiletes 
3, bipartidos no ápice, ca. 1,ô5mm compr.; 
estigmas globosos. Frutos cápsulas, 4,0 x 4,0mm. 
Sementes 3, 2,0 x 2,0mm, testa rugosa, envoltório 
mucilaginoso. 


Distribuição geográfica e habitat — Minas Gerais. 
Há registros em formação rupestre, entre rochas 
de quartzito e itacolomito; campo pedregoso e zona 
de transição cerrado-campo rupestre. Na área 
estudada ocorre em campos rupestres. 


Material examinado — BRASIL, MINAS GERAIS, 
Tiradentes, trilha de acesso pela Cachoeira do 
Bom Despacho, 24/X/2001 (fl, fr), D. Medeiros 
146 (R); Cachoeira do Mangue, encosta sul do 
córrego, 25/X/2001 (fl, fr), D. Medeiros 152 (R). 


O látex de Euphorbia chrysophylla é abundante e 
extremamente viscoso e pegajoso, podendo ser 
observado em todos os órgãos da planta. 


Os indivíduos coletados habitavam solos 
formados sobre rochas de quartzito, entre 
fendas, próximos a fontes de água permanentes 
e temporárias. Observamos que nas populações 
vizinhas encontravam-se, quase que 
invariavelmente, Phyllantus nirurie Chamaesyce 
caecorum. Porém, sua distribuição geográfica e 
frequência mostraram-se muito mais restritas 
que esta última. 


Acreditamos que o baixo número de exsicatas 
depositado nos herbários visitados seja 
proporcional ao esforço de coleta e não uma 
consequência de uma possível redução 
populacional. Entretanto, de acordo com os dados 
obtidos até o momento e os critérios estabelecidos 
pela União Internacional para a Conservação da 
Natureza (IUCN), na Red List Categories (2001), 
Euphorbia chrysophylla é considerada “Vulnerável” 
(“Vulnerable — VU?). 


336 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES 


A 


Fig.2- Chamaesyce caecorum (Mart. ex Boiss.) Croizat. (A) hábito; (B) inflorescências; (C) ciátio, flor pistilada ao centro; (D) 
parte interna do ciátio; (E) flor estaminada; (F) fruto; (G) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) mm, (C) Imm, (D) 
Imm, (E) Imm, (F) 2mm, (G) Imm; (D.Medeiros 153-R). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 337 


Fig.3- Croton antisyphiliticus Mart. (A) ramo; (B) estípula; (C) detalhe da superfície foliar abaxial, (C” glândula; (D) detalhe 
da base da folha com glândulas; (E) flor estaminada; (F) flor pistilada; (G) fruto; (H) semente (vista ventral). Escalas: (A) 
2cm, (B) Imm, (C) 0,5mm, (C? 0,5mm, (D) 0,5mm, (E) 2mm, (F) Imm, (G) 2mm, (H) 2mm; (D.Medeiros 123-R). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


338 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES 


Fig.4- Croton arlineae D.Medeiros, Senna & Alves. (A) ramo; (B) detalhe do ramo com glândulas e estípula ao centro; (C) 
inflorescência, (D) flor estaminada: (E) sépala (vista ventral), (F) pétala (vista ventral); (G) flor pistilada; (G” pétala; (H) 
fruto; (I) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) 0,5mm, (C) 5mm, (D) 2mm, (E) Imm, (F) Imm, (G)2mm, (G? 0,5mm, 
(H) 2mm, (1) 2mm; (D.Medeiros 33-R). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL Sao 


Fig.5- Croton campestris A.St-Hil.. (A) ramo; (B) inflorescência; (C) flor estaminada: (D) pétala (vista ventral); (E) flor pistilada: 
(F]) sépala (vista ventral), (G) detalhe do disco com pétalas globosas reduzidas (seta) entre os segmentos; (H) fruto; (1) 


semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) mm, (C) Imm, (D) Imm, (E) Imm, (F) Imm, (G) Imm, (H) 2mm, (1) 2mm; 
(D.Medeiros 132-R). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


340 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES 


Fig.6- Croton floribundus Spreng. (A) ramo; (B) estípula; (C) flor estaminada em botão: (D) sépala (vista dorsal), (E) pétala 
(vista dorsal); (F) flor pistilada: (G) sépala (vista dorsal), (H) pétala (vista dorsal). Escalas: (A) 2cm, (B) mm, (C) 2mm, (D) 
Imm, (E) Imm, (F) 2mm, (G) 2mm, (H) Imm; (D.Medeiros 175-R). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 341 


Fig.7- Croton gnidiaceus Baill. (A) ramo; (B) estípula; (C) inflorescência; (D) flor estaminada: (E) sépala (vista dorsal), (F) 
sépala (vista ventral), (G) pétala (vista dorsal); (H) flor pistilada: (I) sépala (vista dorsal), (J) pétala (vista ventral); (L) fruto; 
(M) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) Imm, (C) 5mm, (D) Imm, (E) Imm, (F) Imm, (G) Imm, (H) 2mm, (1) 2mm, 
(J) 2mm (L) 2mm, (M) 2mm; (D.Medeiros 36-R). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


342 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES 


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ES 


A 


Fig.8- Croton timandroides (Didr.) Múll. Arg. (A) ramo; (B) estípula; (C) flor estaminada: (D) pétala (vista ventral), (E) pétala 
(vista dorsal); (F) flor pistilada: (G) sépala (vista dorsal); (H) fruto; (1) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) Imm, (C) 
Imm, (D) Imm, (E) Imm, (F) 2mm, (G) 2mm, (H) 2mm, (1) 2mm; (D.Medeiros 159-R). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 343 


; um a 
))) a 


Fig.9- Croton urucurana Baill. (A) ramo; (B) estípula; (C) detalhe da base da folha, (C” glândula; (D) flor estaminada; (E) flor 
pistilada: (F) disco com pétalas filiformes reduzidas; (G) fruto; (H) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) Imm, (C) 
Imm, (C?) Imm, (D) 2mm, (E) 2mm, (F) Imm (G) 2mm, (H) 2mm; (D.Medeiros 71-R). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


344 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES 


Fig.10- Croton vestitus Spreng. (A) ramo; (B) estípula; (C) inflorescência; (D) flor estaminada: (E) sépala (vista ventral), (F) 
estame; (G) flor pistilada; (H) fruto; (1) semente (vista ventral). Escalas: (A) 2cm, (B) 2mm, (C) mm, (D) 2mm, (E) Imm, (F) 
Imm, (G) 2mm, (H) 2mm, (1) 2mm; (D. Medeiros 38-R). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 345 


: D 


Fig.11- Euphorbia chrysophylla Boiss. ex Klotzsch. (A) ramo; (B) inflorescência; (C) flor pistilada (ao centro) e flores 
estaminadas no ciátio; (D) flor estaminada; (E) fruto jovem. Escalas: (A) lcm, (B) ô5mm, (C) 2mm, (D) Imm, (E) 2mm; 
(D.Medeiros 146-R). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


346 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES 


EZRA TA A 


Vi, Pora dy 


Fig.12- Fotomicrografias (MEV) do indumento foliar em Croton (MEV): superficie abaxial (à esquerda) e adaxial (à direita). (A), 
(B): C. antisyphiliticus; (C), (D): C. arlineae; (E), (F): C. campestris; (G), (H): C. floribundus. Escalas: (A-B, D-H) 100um, (C) 50um. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


EUPHORBIACEAE NATIVAS DO CERRADO E CAMPO RUPESTRE DA SERRA DE SÃO JOSÉ, MG, BRASIL 347 


- La SÁ ' | 
Ap TO 


Fig.13- Fotomicrografias (MEV) do indumento foliar em Croton (MEV): superficie abaxial (à esquerda) e adaxial (à direita). 
(A), (B): C. gnidiaceus; (C), (D): C. timandroides; (E), (F): C. urucurana; (G), (H): C. vestitus. Escalas: 100um. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.323-349, abr./jun.2008 


348 D.MEDEIROS, L.S.VALLE & RJ.V.ALVES 


CONCLUSÕES 


A Serra de São José possui sua maior parte coberta 
por vegetação típica de campo rupestre, e 
provavelmente o número de espécies encontradas 
não representa o total real, pois é notável a riqueza 
de endemismos neste tipo de ambiente. Apesar de 
não estar entre as cinco famílias dominantes em 
número de espécies, Euphorbiaceae está muito bem 
representada em número de indivíduos de alguns 
táxons, como Chamaesyce caecorum, Croton 
antisyphuliticus, C. timandroides e C. vestitus. 


Croton seção Medea, sensu Webster (1994), é o 
grupo mais expressivo tanto em número de espécies 
(C. arlineae, C. gnidiaceus, C. timandroides e C. 
vestitus) como em número de indivíduos. As 
espécies de Croton ocupam diferentes áreas da 
serra, de acordo com as vertentes norte e sul. 
Apenas C. timandroides e C. vestitus foram 
observados em áreas de contato num mesmo ponto 
de coleta. O trabalho de herbário e a análise 
taxonômica mostraram que o material depositado 
nas instituições é escasso, e que na maioria das 
vezes espécies taxonomicamente próximas são 
igualmente identificadas como C. timandroides. 


Entre as contribuições taxonômicas e morfológicas, 
destacam-se a descrição de uma espécie nova para 
a Ciência (Croton arlineae) e o primeiro registro de 
recoleta de C. gnidiaceus desde o material-tipo 
descrito por Baillon. A observação e a 
esquematização das pétalas (reduzidas em C. 
urucurana e em C. floribundus; extremamente 
reduzidas em C. campestris e flabeliformes em C. 
gnidiaceus) complementaram as descrições 
originais e outras subsequentes. 


A variação morfológica dos tricomas foliares 
associada a outros caracteres constitui importante 
caráter taxonômico em Croton, o que justifica a 
realização de estudos morfológicos e anatômicos. 
Os tricomas simples apresentaram-se como 
exceções, tendo ocorrência restrita à superficie 
adaxial de C. urucurana, como também em C. 
antisyphiliticus e C. floribundus se considerarmos a 
significativa redução dos raios distais, muitas vezes 
ausentes de todo. As espécies arbustivas de campo 
rupestre só apresentaram tricomas simples nas 
estruturas florais, como filetes, anteras e face(s) das 
pétalas. Os tricomas do tipo estrelado-lepidoto, 
considerados uma categoria do tipo lepidoto, 
restringiram-se a C. floribundus; e os do tipo 
rosulado a C. urucurana. 


Pôde-se caracterizar a distribuição geográfica dos 


táxons em: ampla (América do Sul e Brasil), nos 
casos de Chamaesyce caecorum, C. urucurana e €. 
floribundus; moderada (cerrados do Brasil Central), 
para C. antisyphiliticus e C. campestris; restrita 
(campos rupestres de Minas Gerais e Bahia), para 
C. timandroides, C. vestitus e Euphorbia 
chrysophylla; e muito restrita, para C. gnidiaceus 
e C. arlineae. 


AGRADECIMENTOS 


A Dra. Valéria Maia (Museu Nacional - Rio de 
Janeiro), pela parceria no trabalho de campo; à 
Direção da Floresta Nacional (FLONA) de Ritápolis/ 
MG e a Pedro Sérgio Fernandes (Tiradentes, MG), 
pelo apoio logístico. Ao Conselho Nacional de 
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), 
pela bolsa concedida a D.Medeiros; à Coordenação 
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior 
(CAPES), pela verba Pró-Reitoria de Administração 
e Planejamento (PROAP) concedida ao Programa de 
Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Botânica) 
do Museu Nacional. 


REFERÊNCIAS 


ALVES, R.J.V., 1992. The flora and vegetation of the 
Serra de São José in Minas Gerais, Brazil. Prague: 
Tropicaleaf Nature Publishers. 254p. 


BAILLON, H., 1864. Croton. In: Recueil périodique 
dóbservations botaniques. Adansonia, 4:289-367. 


BRUMMIT, R.K. & POWELL, C.E., 1992. Authors of 
Plant Names. Kew: Royal Botanical Gardens.732p. 


FONT QUER, P.F., 1989. Diccionario de Botânica. 
Barcelona: Ed. Labor. 1244». 


GOVAERTS, R.; FRODIN, D.G. & RADCLIFFE-SMITH, 
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Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.351-353, abr./jun.2008 


DESCRIÇÃO DE UMA NOVA ESPÉCIE DE CYRTONEUROPSIS MALLOCH, 
1925 (DIPTERA, MUSCIDAE) E PRIMEIRO REGISTRO DO GÊNERO 
NO ESTADO DO MARANHÃO, BRASIL: 


(Com 6 figuras) 


MÁRCIA S. COURI 23 
GABRIEL P. DA S. BARROS *? 
MARCELO P. ORSINI 255 


RESUMO: Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. do Estado do Maranhão, Brasil, é descrita com ilustrações da 
terminália do macho e da fêmea. O gênero é assinalado pela primeira vez no Estado do Maranhão, Brasil. 


Palavras-chave: Diptera. Muscidae. Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. Taxonomia. Novo registro. 


ABSTRACT: Description of a new species of Cyrtoneuropsis Malloch, 1925 (Diptera, Muscidae) and first 


record of the genus for the state of Maranhão, Brazil. 


Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. from the State of Maranhão, Brazil, is described with illustrations of 
male and female terminalia. The genus is recorded for the first time from the State of Maranhão, Brazil. 


Key words: Diptera. Muscidae. Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. Taxonomy. New record. 


INTRODUÇÃO 


Cyrtoneuropsis Malloch, 1925 é um múscida de 
distribuição neotropical com 33 espécies válidas 
(CarvaLHO et al., 2005). Este gênero foi durante 
muitos anos considerado sinônimo de Cyrtoneurina 
Giglio-Tos, 1893, porém foi recentemente revalidado 
(PamPLONA, 1999 e Pont & PampLONA, 2000). 


Cyrtoneuropsis pode ser facilmente separado dos 
demais múscidas na chave de CarvaLHO & CoURI 
(2002) tendo como diagnose o seguinte conjunto 
de caracteres: cerdas dorsocentrais 2:4, cerdas 
caterpisternais 1:2, anepímero setuloso, parede 
pós-alar nua, arista com longos cílios, podendo em 
algumas espécies ter cílios secundários, nervura 
R, setulosa na superfície ventral, nervura M 
levemente curvada apicalmente. 


O material referente à espécie aqui descrita foi 
coletado em uma expedição na região de Igarapé 
Paraqueú, Rosário, Maranhão no ano de 1970 pelo 
ornitólogo e acarologista do Museu Nacional, 
Universidade Federal do Rio de Janeiro Herbert 
Franzoni Berla (1912-1985). 


! Submetido em 06 de julho de 2007. Aceito em 14 de abril de 2008. 


O material examinado encontra-se depositado na 
coleção do Museu Nacional, Rio de Janeiro (MNRJ). 


Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. 
(Figs.1-6) 


Coloração geral — Castanha com pouca polinosidade 
cinza; parafaciália, faciália e lânula castanha com 
polinosidade prateada; gena castanha com 
polinosidade cinza; antena e palpo amarelos. Pós- 
pronoto e ápice do escutelo amarelo escuro. Asas 
hialinas com ápice da nervura subcostal e nervuras 
transversais r-m e dm-cu com manchas castanhas. 
Caliptra hialina, alguns exemplares com a borda 
da caliptra inferior castanha; halteres amarelos; 
espiráculos brancos, o posterior com a borda 
castanha. Pernas castanhas. Abdome castanho com 
tergito 1 e metade basal do tergito 2 amarelos, 
tergito 2 com duas manchas triangulares castanhas 
na metade basal. 


E > Comprimento: corpo: 5,0-6,0mm; asa: 5,0- 
S,omm. 


Cabeça — Olhos nus; antena inserida na altura 


? Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Entomologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 
* Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq). 


E-mail: mcouri(aterra.com.br 
* Bolsista UFRJ/PIBIC. 
* Bolsista CNPq/PIBIC. 


352 


M.S.COURL G.P.S.BARROS & M.PORSINI 


da metade dos olhos, flagelo cerca de 2,5-3 vezes  cerda mediana nas faces ântero-ventral, ântero- 
mais longo que o pedicelo; arista longamente dorsal e póstero-dorsal e uma cerda apical nas faces 
ciliada com 20-24 cílios e com cílios secundários  ântero-dorsal e ventral. 


curtos. Vibrissa forte, com 
comprimento semelhante ao da 
arista. Palpo com cílios longos 
ventrais e curtos dorsais. 


Tórax — Cerdas acrosticais O:l; 
dorsocentrais 2:4; pré-alar 
presente; intralares 0:2; 
supralares 2; prosterno com 
cerdas na margem e propleura 
nua. Escutelo com um par de 
cerdas basais e um par de 
cerdas apicais, ambos longos; 
anepisterno com uma série de 
quatro cerdas longas; cerdas 
catepisternais 1:2; anepímero com 
cílios longos e retos no disco; 
catepimero com grupo de cílios 
nos 2/3 anteriores. Asas com 
nervura R, com cílios dorsais em 
toda sua extensão e cerca de três 
cílios ventrais; R,,, com cílios 
dorsais, mais espaçados depois da 
transversal r-m e com cílios 
ventrais em toda sua extensão. 
Fêmur anterior com uma fileira de 
cerdas fortes nas superfícies 
dorsal, póstero-dorsal e póstero- 
ventral. Tíbia anterior com uma 
cerda apical nas superfícies 
dorsal, posterior, ventral e 
póstero-dorsal. Fêmur médio com 
uma fileira de cerdas anteriores no 
terço basal; uma fileira de cerdas 
ântero-ventrais no terço basal; 
uma fileira de cerdas póstero- 
ventrais nos dois terços apicais, 
duas cerdas apicais póstero- 
dorsais fortes; uma cerda apical 
posterior forte. Tíbia média com 
duas cerdas posteriores fortes 
inseridas no limite dos terços, uma 
cerda apical nas faces ântero- 
ventral, póstero-dorsal, póstero- 
ventral e ventral, a última mais 
forte. Fêmur posterior com uma 
fileira completa de cerdas na face 
ântero-dorsal; face ântero-ventral 
com cerca de 2-3 cerdas no terço 
apical e face dorsal com uma cerda 
apical. Tíbia posterior com uma 


Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov.: fig.1- esternito 5, O ; fig.2- placa cercal, vista 
frontal, O; fig.3- complexo fálico, vista dorsal; fig.4- complexo fálico, vista lateral; 
fig.5- ovipositor, vista dorsal; fig.6- ovipositor, vista ventral. Escalas = 0,2mm. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.351-353, abr./jun.2008 


DESCRIÇÃO DE UMA NOVA ESPÉCIE DE CYRTONEUROPBSIS E 1º REGISTRO DO GÊNERO NO MARANHÃO, BRASIL 353 


Abdome — Tergito 5 com uma fileira discal e uma 
apical de cerdas finas. Esternito 5 com cerdas mais 
concentradas no terço apical, mais longas 
lateralmente (Fig.1). 


Terminália — Sustilo longo ultrapassando a margem 
da placa cercal; edeago arredondado no ápice 
(Figs.2-4). 

Pa comprimento: corpo; 5,0-6,0mm; asa: 5,0-5,0mm. 
Semelhante ao macho, porém com olhos afastados 
cerca de um terço da largura da cabeça; seis cerdas 
frontais; cerdas verticais internas e externas mais 


longas e fortes que as do macho; cerdas 
interfrontais cruzadas presentes. 


Ovipositor — Tamanho médio; tergitos e esternitos 
estreitos e longos; membrana do segmento 8 com 
curtos espinhos ventrais (Figs.5-6). 


Variação cromática — A série examinada apresenta 
variação cromática especialmente nos tergitos 
abdominais que podem variar de amarelo a 
castanho; nas manchas castanhas triangulares na 
base do tergito abdominal 2 que podem ser pouco 
nítidas; nas manchas das asas que podem variar 
de castanho bem claro a castanho escuro e na 
coloração dos palpos, de amarelo a castanho. 


Material examinado - Holótipo G : BRASIL: 
Maranhão, Igarapé Paraqueú, Rosário, 20-22/XI/ 
1970; Berla col. Parátipos : 89 e 409, mesmos 
dados de coleta do holótipo (MNRJ). 


Etimologia — O nome da espécie refere-se à 
procedência do material (Estado do Maranhão, Brasil). 


DISCUSSÃO 


Na chave de CarvaLHO & Court! (2002), Cyrtoneuropsis 
maranhensis sp.nov. aproxima-se de C. dubia 
(Snyder, 1954), sendo morfologicamente bastante 
semelhante a ela, porém diferindo pela presença 
de mancha castanha clara na dm-cu e 
principalmente pela morfologia bastante distinta 
das terminálias masculina e feminina. SnyDER (1954) 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.351-353, abr./jun.2008 


comentou sobre a existência de espécies deste 
gênero tanto com quetotaxia muito diferente e 
terminálias muito semelhantes, quanto outras 
distintas apenas pela morfologia das terminálias. 
Couri (1995) descreveu C. pararescita e discutiu a 
sua semelhança morfológica com C. rescita Walker, 
1861 porém com terminálias distintas. 
Cyrtoneuropsis maranhensis sp.nov. corresponde ao 
primeiro registro deste gênero no Estado do 
Maranhão, Brasil. 


AGRADECIMENTO 


Ao MsC André Mallemont Cunha (MMNR), pela 
ajuda na confecção da prancha. 


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ISSN 0365-4508 


Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.355-358, abr./jun.2008 


A NEW SPECIES OF GALL MIDGE (DIPTERA, CECIDOMYINDAE) 
ASSOCIATED WITH SEBASTIANIA GLANDULOSA (EUPHORBIACEAE) ! 
(With 14 figures) 


UELLINTON PEREIRA DE OLIVEIRA 2º 
VALÉRIA CID MAIA 2 * 


ABSTRACT: Clinodiplosis conica sp.nov., a new cecidomyiid that induces conical bud galis on Sebastiania 
glandulosa (Mart.) Pax (Euphorbiaceae) is described (larva, pupa, adults male and female) based on material 
from restinga areas of the State of Rio de Janeiro (Brazil). 


Key words: Diptera. Cecidomyiidae. Clinodiplosis conica sp.nov. Gall. Taxonomy. 


RESUMO: Uma nova espécie de mosquito galhador (Diptera, Cecidomyiidae) associado com Sebastiania 


glandulosa (Euphorbiaceae). 


Clinodiplosis conica sp.nov., um novo cecidomiídeo que induz galhas cônicas nas gemas de Sebastiania 
glandulosa (Mart.) Pax (Euphorbiaceae) é descrito (larva, pupa, adultos macho e fêmea) com base em material 
coletado em áreas de restinga do Estado do Rio de Janeiro (Brasil). 


Palavras-chave: Diptera. Cecidomyiidae. Clinodiplosis conica sp.nov. Galha. Taxonomia. 


INTRODUCTION 


Three kinds of insect galls have been recorded on 
Sebastiania glandulosa (Mart.) Pax (Euphorbiaceae): 
conical bud gall, spherical bud gall, and marginal 
leaf roll (Figs.35-37, respectively, in Maia, 2001). 
All of them are induced by not determined species 
of gall midges (Diptera, Cecidomyiidae). In this 
paper, the inducer of conical bud gall is identified 
and described based on material from the restinga 
areas of the State of Rio de Janeiro. 


MATERIAL AND METHODS 


Part of the examined specimens was previously 
incorporated into the Diptera collection of Museu 
Nacional, Rio de Janeiro (MNRJ) by V.C.Maia as 
voucher material of previous ecological investigations. 
As few specimens were deposited, field works were 
done in order to obtain more material. 


Samples of conical galls on Sebastiania glandulosa 
were collected in June and July 2000, August 2002, 
and July 2008 at the restinga of Barra de Maricá 
(Maricá, Rio de Janeiro). The samples were carried 
to the laboratory in plastic bags, where they were 


'! Submitted on September 27, 2005. Accepted on March 28, 2008. 


transfered to plastic pots in order to obtain adults 
and pupal exuviae. These pots were checked daily. 
The material obtained were first preserved in 70% 
ethanol and then mounted on slides following the 
methodology of Gaank (1994). All specimens 
(including the types) are deposited in the Diptera 
collection of Museu Nacional, Rio de Janeiro 
(MNRJ). Terminology for adult and immature 
morphology follows Gacné (1994). 


Clinodiplosis conica sp.nov. 
(Figs.1-14) 


Diagnosis — Spatula with two divergent anterior 
teeth; prothoracic spiracle digitiform and long 
(larva); abdominal segments 2-7 with dorsal spines 
restricted at basal 1/3 and integument sculptured 
beyond midlength; abdominal segments 8 and 9 
without spines (pupa); tarsal claws simple, curved 
beyond midlength, empodium rudimentary; female 
tergites 1-7 rectangular with a row of caudal and 
mesal setae (adult). 


DESCRIPTION 


Adult - Body length: 2.0-2.3mm (n=4). Head 
(Fig.1): Eye facets circular, closely approximated. 


2? Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Entomologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 


* E-mail: vellintonoliveira(dyyahoo.com.br. 
* E-mail: maiavcid(macd.ufr;.br. 


356 U.POLIVEIRA & V.C.MAIA 


Antenna with hemispherical and setose scape, 
globose and setose pedicel, binodal and 
tricircumfilar male flagellomeres (circumfila with 
loops regular in length) (Fig.2), bare necks in both 
sexes; female with cylindrical and mesally 
constricted flagellomeres, female circumfila as 
two interconnected rings (Fig.3). Flagellomere 12 
with a setulose apical process in both sexes. 
Frontoclypeus with 10 setae (n=4). Labrum long- 
attenuate with three pairs of ventral sensory 
setae. Hypopharynx of the same shape as labrum, 
with long, anteriorly directed lateral setulae. 
Labellae elongate-convex, each with several 
lateral setae and a pair of short mesal sensory 
setae. Palpus with four setose crescent cylindrical 
segments. 


Thorax. Anepimeron with 5-10 setae (n=3), other 
pleural sclerites asetose. Wing (Fig.4) length: 1.75- 
1.9mm (n=4). Tarsal claws simple, curved beyond 
midlength; empodium not reaching to the bend of 
the claw (Fig.5). 


Abdomen. G (Fig.6): tergites 1-7 rectangular with 
a complete row of caudal setae, several lateral 
setae, two basal trichoid sensilla and elsewhere 
with scattered scales. Tergite 8 not sclerotized, 
with two trichoid sensilla. Sternites 2-7 
rectangular with setae more abundant mesally, a 
complete row of caudal setae, several lateral 
setae and two basal trichoid sensilla; sternite 
8 rectangular with a complete row of caudal 
setae, scattered mesal setae, lateral setae and 
two basal trichoid sensilla. Female (Fig.7) — 
tergites 1-7 rectangular with a complete row of 
caudal setae, a row of mesal setae, lateral setae, 
two basal trichoid sensilla and elsewhere with 
scattered scales; tergite 8 not sclerotized with a 
pair of trichoid sensilla. Sternites 2-7 rectangular 
with setae more abundant mesally, a complete 
row of caudal setae and two basal trichoid 
sensilla. Sternite 8 not sclerotized and with a pair 
of trichoid sensilla. 


G terminalia (Fig.8). Gonocoxites wide with a 
setose mesobasal lobe, gonostylus slightly curve, 
with 0.78 gonostylus long; cerci secondarily 
lobed and setose; hypoproct elongate, deeply 
bilobed (lobes narrow) and longer than cerci; 
aedeagus long-attenuate, rounded at apex and 
longer than hypoproct. 


Ovipositor (Fig.9). Barely protrusible, cerci 
elongate ovoid, separate and setose (a pair of 
apical setae stronger than the others); hypoproct 


sligthly bilobed and setose. Length from distal 
margin of sternite 7 to end: 0.42-0.45mm. 


Pupa. Color: brownish. Length: 2.2-2.4mm (n=83). 
Head (Fig.10): antennal horn triangular, simple, 
short (length: 0.0lImm; n=3); cephalic seta 0.04- 
0.05mm long (n=3); two pairs of setose lower facial 
papillae: one pair with a seta 0.0iImm long (n=3) 
and the other asetose; three pairs of lateral facial 
papillae (one pair setose and the others asetose). 
Upper cephalic margin thickened laterally. 
Thorax: prothoracic spiracle digitiform and well 
developed (length: 0.18-0.19mm, n=2) (Fig.11); 
wing sheath reaching 1/2 of abdominal segment 
3; foreleg sheath ending at midlength of 
abdominal segment 5; midleg sheat ending at 2/ 
3 of abdominal segment 5; hindleg sheath ending 
at distal 1/3 of abdominal segment 5. Abdomen: 
segments 2-7 with well developed dorsal spines 
at basal 1/3, dorsal papillae at midlength and 
striae near distal 1/3 (Fig.12); segments 8 and 9 
without spines. 


Larva. Body cylindrical and tapered at both ends. 
Color: yellow. Length: 2.1-2.7mm (n=4). 
Integument rough. Spatula with two divergent 
anterior teeth and stalk long (Fig.13). Sternal 
papillae asetose.Two groups of three lateral 
papillae on each side of spatula. Ventral papillae 
asetose, terminal segment with three pairs of 
corniform papillae (a pair shorter than the others) 
and a pair of setose papillae (setae 0.025-0.03mm 
long, n=4) (Fig. 14). 


Gall (Fig.35 in Maia, 2001). Conical bud gall, 
reddish or green, one-chambered. 


Type-material —- BRAZIL, RIO DE JANEIRO: Maricá 
(Restinga da Barra de Maricá), 13/VIII/2002, 
V.Maia leg., Holotype O . Paratypes: same data — 
1S ; same locality and collector - 11/VII/2003, 
2 larvae; 18/VII/2003, 2 pupal exuviae and 19: 
11/11/2005, 29 . MNRJ. 


Other material — BRAZIL, RIO DE JANEIRO: 
Maricá (Restinga da Barra de Maricá), 12/VI/ 
2001, Maia and Azevedo colis, 2 pupae and 1 
pupal exuvia; 18/VII/2003, Costa and Maia cols, 
1S and 1 pupal exuvia. Carapebus, 29/VI/1998, 
V.Maia leg., 2 pupal exuviae; same locality and 
collector, 29/VI/1998, 2 pupal exuviae; 24/VII/ 
1998, 19; 26/1X/1998, 1 larva; 28/XI/1998, 1 
pupal exuvia. MNRJ. 


Etymology — The name conica refers to the shape of 
the gall. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.355-358, abr./jun.2008 


357 


A NEW SPECIES OF GALL MIDGE ASSOCIATED WITH S. GLANDULOSA 


Clinodiplosis conica sp.nov.— fig.1- O, head (frontal); fig.2- O, antennal flagellomere 5; fig.3- 2, antennal flagellomere 5; 
fig.4- O , wing; fig.5- O , foreleg, tarsal claw and empodium (lateral); fig.6- O , abdominal segment 6 to 8 (dorsolateral); fig.7- 
P , abdominal segment 5 to end (dorsolateral); fig.8- O, terminalia (lateral); fig.9- ? , cerci and hypoproct (lateral). Scale 


bars: 1=0.16mm; 2-3=0.05mm; 4=0.5mm; 5=0.3mm; 6,8-9=0. Imm; 7=0.45mm. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.355-358, abr./jun.2008 


358 U.POLIVEIRA & V.C.MAIA 


e sa 


Pupa of Clinodiplosis conica sp.nov.— fig. 10- head (frontal); fig. 11- prothoracic spiracle; fig. 12- abdominal segment 7 (dorsal); 
fig.13- larva, spatula prothoracic and associated papillae (ventral); fig.14- abdominal segments 8 and 9 (dorsal). Scale 
bars: 10,12=0.2mm; 11,13-14=0. Imm. 


ACKNOWLEDGEMENTS REFERENCES 


We are grateful to Fundação de Amparo à Pesquisa  GAGNÉE, R.J., 1994. The gall midges of the Neotropical 
do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) (Proc. region. Ithaca: Cornell University Press, 352p. 


171.290/06), for financial support. MAIA, V.C., 2001. The gall midges (Diptera, 


Cecidomyiidae) from three restingas of Rio de Janeiro 
State, Brazil. Revista Brasileira de Zoologia 
18(2):583-629. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.355-358, abr./jun.2008 


ISSN 0365-4508 


Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.359-362, abr./jun.2008 


GALL MIDGES (DIPTERA, CECIDOMYIIDAE) 
ASSOCIATED WITH HETEROPTERIS NITIDA DC. (MALPIGHIACEAE) ' 
(With 20 figures) 


ROBERTA NOVO-GUEDES 2º 
VALÉRIA CID MAIA 24 


ABSTRACT: Four species of gall midges (Diptera, Cecidomyiidae) were obtained from flower buds of Heteropteris 
nitida DC. (Malpighiaceae). Clinodiplosis floricola sp.nov. (larva, pupa, male and female) is described based on 
material collected at the restinga of Barra de Maricá, Maricá, Rio de Janeiro. 


Key words: Diptera. Cecidomyiidae. Clinodiplosis floricola sp.nov. Gall. Malpighiaceae. 


RESUMO: Mosquitos de galhas (Diptera, Cecidomyiidae) associados com Heteropteris nitida DC. (Malpighiaceae). 


Quatro espécies de mosquitos de galha (Diptera, Cecidomyiidae) foram obtidas de botões florais de Heteropteris 
nitida DC. (Malpighiaceae). Clinodiplosis floricola sp.nov. (larva, pupa, macho e fêmea) é descrita com base 
em material coletado na restinga da Barra de Maricá, Maricá, Rio de Janeiro. 


Palavras-chave: Diptera. Cecidomyiidae. Clinodiplosis floricola sp.nov. Galha. Malpighiaceae. 


INTRODUCTION 


Heteropteris nitida DC. (Malpighiaceae) occurs from 
Bahia to Paraná and is very abundant at the restinga 
of Barra de Maricá, where it is easily found along 
the road of Zacharias Beach (Mais, 2001). The closed 
flowers of this plant are frequently destroyed by 
larvae of Clinodiplosis sp. (Diptera, Cecidomyiidae), 
which leave the plant and pupate in the soil. In this 
paper, this species of Clinodiplosis is described. 


Phytophagous larvae of other species of 
Cecidomyiidae were found at the same time in the 
closed flowers. These species are recorded herein. 


MATERIAL AND METHODS 


Part of the examined specimens was previously 
obtained by Maia (2001). Additional material was 
obtained by rearing. For this, samples of closed 
flowers were collected at the restinga of Barra de 
Maricá (Maricá, RJ) in April, 2005 and carried to 
the laboratory of Diptera, where they were kept in 
plastic pots containing a layer of soil on the bottom 
(as the larva pupates in the soil) and covered by a 
fine screening. The pots were checked daily. Adults 
and pupal exuviae were preserved in 70% ethanol. 


'! Submitted on September 28, 2005. Accepted on March 28, 2008. 


Later, they were mounted on microscope slides 
following the methodology of Gacné (1994). 


The Cecidomyiidae genera were identified based on 
the keys of Gacnk (1994). 


All material was deposited in the Diptera collection 
of Museu Nacional, Rio de Janeiro (MNRJ). 


RESULTS 


Four species of gall midges (Diptera, Cecidomyiidae) 
were obtained from the closed flowers of Heteropteris 
nitida, namely: Clinodiplosis floricola sp.nov., 
Youngomyia sp., Lestodiplosis sp., and a not 
determined Cecidomyiidi. 


Clinodiplosis floricola sp.nov. is described and 
illustrated as larva, pupal exuviae, male, and female 
(Figs.1-20). Youngomyia sp. and Lestodiplosis sp. 
(probably both new species) are recorded for the 
first time on this host plant. 


Clinodiplosis Kieffer, 1895 is a cosmopolitan genus 
with 93 known species. Most are fungivorous, but 
many Neotropical species are phytophagous (GacnÉ, 
2004). Twelve species have been recorded from 
Brazil on Asteraceae (n=3), Lamiaceae (n=1), 
Melastomataceae (n=1), Moraceae (n=1), Myrtaceae 
(n=1), Orchidaceae (n=1), Rubiaceae (n=2) and 


2? Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Entomologia. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 


* E-mail: roberngue(Dyahoo.com.br. 
* E-mail: maiavcid(acd.ufr;.br. 


360 R.NOVO-GUEDES & V.C.MAIA 


Verbenaceae (n=2) (Gacnk, 2004). This is the first 
record on Malpighiaceae. 


Youngomyia Felt, 1908 is a genus known from six 
species. It has been recorded from Neotropical, 
Neartic and Oriental regions and includes gall 
forming species and inquilines. Only one species, 
Youngomyjia pouteriae Maia, 2001 has been recorded 
from Brazil (Gacné, 2004). 


Lestodiplosis Kieffer, 1894 is a cosmopolitan genus 
with 168 described species. It comprises only 
predaceous species. Seven species have been 
recorded from the Neotropical region and a single 
one is known from Brazil (Gacnk, 2004). 


Clinodiplosis floricola sp.nov. 
(Figs.1-20) 


Larva — Body length: 1.90-2.23mm (n=6). Spatula 
(Fig.1) 2-toothed; length: 0.09-0.12mm (n=6). 
Sternal papillae asetose, two groups of three lateral 
papillae on each side of spatula (two pairs setose). 
Terminal segment (Fig.2): three pairs of corniform 
papillae and one pair of setose papillae (setal length: 
0.03-0.04; n=6). 


Pupa -— Length: 1.70-1.92mm (n=3). Head (Fig.3): 
antenal horn short with 0.015mm of length (n=1); 
apical seta long (length: 0.07; n=2) (Fig.4); two pairs 
of lower facial papillae (one asetose and the other 
setose, setal length: 0.0lImm, n=2) (Fig.5); three 
pairs of lateral facial papillae, one pair setose and 
two without seta (Fig.6). Prothoracic spiracle (Fig.7) 
elongate with 0.25-0.30mm oflength (n=5) and thin. 
Foreleg sheath reaching the distal margin of 
abdominal segment 5, midleg sheath reaching basal 
1/9 abdominal segment 6 and hindleg sheath 
reaching the basal 1/3 of abdominal segment 6. 
Abdominal segments 2-8 with conspicuous spines 
at basal 1/3, restricted to mesal region; distal 
spines gradually crescent (Fig.8). 


Adult — Head (Fig.9): occipital process present. Eye 
facets hexagonal, all closely approximated. Antenna: 
male flagellomeres binodal and tricircumfilar, 
circumrfila loops regular in length, flagellomere necks 
subequal to distal node length (Fig.10); female 
flagellomeres cylindrical with neck well developed, 
measuring 0.36 times the total length of the 
flagellomere, female circumfila as two connected 
horizontal rings (Fig.11). Flagellomere necks bare 
in both sexes. Flagellomere 12 with apical process, 
setulose in both sexes. Frontoclypeus with 8 setae 
(n=8). Labrum triangular, long-attenuate, with 3 
pairs of ventral sensory setae. Hypopharynx as long 


as labrum, with anteriorly directed lateral setulae. 
Labella elongate-convex, each with several long 
lateral setae and two pairs of short mesal sensory 
setae. Palpus with four crescent cylindrical 
segments, all with setae (Fig. 12). 


Thorax. Wings: length: 1.14-1.67mm (n=6) in male 
(n=6), 1.6mm in female (n=1); venation (Fig.13): R, 
as long as 2/5 of wing length, R, present and 
evanescent, R, curved, joining C beyond wing apex, 
M, evanescent; CuA forked. Anepisternum bare. 
Anepimeron with 4-6 setae (n=6). Tarsal claws 
simple, bent before midlength and irregular in 
width, abruptally attenuate subapically; empodium 
short, reaching bent in claws (Fig. 14). 


Abdomen. O (Figs.15-16): tergites 1-7 rectangular 
with a distal row of setae and a basal pair of trichoid 
sensilla, tergite 8 not sclerotized with only a pair of 
trichoid sensilla. Sternites 2-7 rectangular with a 
caudal row of setae, irregular mesal rows of setae 
and a pair of trichoid sensilla; sternite 8 sclerotized, 
rectangular, conspicuously shorter than sternite 7, 
with scattered setae near distal margin and at mesal 
region and a pair oftrichoid sensilla. Female (Fig. 177): 
tergites 1-7 rectangular with rounded lateral margin, 
a caudal row of setae, some lateral setae near mesal 
region and a pair oftrichoid sensilla; tergite 8 shorter 
than the precedent, elongate, with a pair of trichoid 
sensilla and no setae. Sternites 2-7 rectangular, 
sternite 8 quadrate, with a caudal row of setae, 
scattered setae at mesal region, lateral setae present 
and a basal pair of trichoid sensilla. Male terminalia 
(Fig.18): gonocoxite with mesal lobe; gonostylus about 
4/5 of gonocoxite length, thin, regular in width, striate 
except near basis, basis setulose; cercus setose and 
secondarily lobed; hypoproct narrow, conspicuously 
longer than cercus, deeply bilobed, and setose; 
aedeagus elongate conspicuously longer than 
hypoproct and rounded at apex. Ovipositor (Fig.19) 
protrusible, female cerci (Fig.20) elongate-ovoid and 
setose, with a pair of apical seta stronger than others, 
female hypoproct narrow, elongate and setose. 


Material examined — Holotype, O . BRAZIL, RIO DE 
JANEIRO: Maricá (Barra de Maricá), 05/VI/1998, 
V.Maia leg., MNRJ. Paratypes, same locality, date 
and collector, 2? ; same locality and collector, 28/ 
1/1998, 6 larvae; same locality, 20/1X/2000, Maia 
& Azevedo leg., 26 , 19 , 1 pupal exuviae (slide with 
more one species); same locality, 30/11/2004, 
V.Maia leg., 10 larvae; same locality, 11/V/2004, 
V.Maia leg., 1S, 19 ; same locality, 11/11/2005, 
V.Maia leg., 36 ; same locality, 16/IV/2005, Guedes 
& Maia leg., 46, 1? and 2 pupal exuviae, MNRJ. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.359-362, abr./jun.2008 


GALL MIDGES ASSOCIATED WITH AH. NITIDA 361 


Clinodiplosis floricola sp.nov. - fig.1- larva, prothoracic spatula, sternal and lateral papillae, ventral view; fig.2- larva, 
segments terminal, dorsal view; fig.3- pupa, head, frontal view; fig.4- pupa, apical seta, dorsal view; fig.5- pupa, lower 
facial papillae, frontal view; fig.6- pupa, lateral facial papillae, frontal view; fig.7- pupa, prothoracic spiracle; fig.8- pupa, 
abdominal segment 2, lateral view; fig.9- adult, female head, frontal view; fig.10- adult, male flagellomere 5; fig.11- 2, 
flagellomere 3; fig.12- 9, palpus; fig.13- 2, wing; fig.14- 2, hindleg, tarsal claw; fig.15- O , abdominal segments 6 to 8, 
tergites, lateral view. Scale bars: 1, 14=0.02mm; 2, 4, 5=0.10mm; 3=0.30mm; 6, 8, 10, 12=0.05mm; 7, 9, 15=0.20mm; 
11=0.03mm; 13=0.50mm; 14=0.02mm. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.359-362, abr./jun.2008 


362 R.NOVO-GUEDES & V.C.MAIA 


Clinodiplosis floricola sp.nov., adults - fig. 16- G , abdominal segments 6 to 8, esternites, lateral view; fig.17- 2 , abdominal 
segments 5 to end; fig.18- male terminalia, dorsal view; fig. 19- ovipositor, lateral view; fig.20- female cerci and hypoproct, 
ventral view. Scale bars: 16-17=0.2mm; 18-19=0.Imm; 20=0.05mm. 


Etymology — The name floricola refers to the part 
of the plant where the larva lives. 


Remarks — This species is distinctive by the apical 
process of flagellomere 12 with setulae; tarsal 
claw simple, bent before midlength and abruptally 
attenuate subapically; male cerci secondarily 
lobed and male tergite 8 not sclerotized. 


Other material — Youngomyia sp.: BRAZIL, RIO DE 
JANEIRO: Maricá (Barra de Maricá), 05/VI/1998, 
V.Maia leg., 20 ; 16/IV/2005, Guedes & Maia leg., 
86 , MNRJ. 


Lestodiplosis sp.: BRAZIL, RIO DE JANEIRO: 
Maricá (Barra de Maricá), 05/VI/1998, V.Maia 
leg., 32 ; 16/IV/2005, Guedes & Maia leg., 19, 
MNRJ. 


Not determined Cecidomyiidi: BRAZIL, RIO DE 
JANEIRO: Maricá (Barra de Maricá), 16/IV/2005, 
Guedes & Maia leg., 10, MNRJ. 


ACKNOWLEDGEMENTS 


We are grateful to Dr. Maria Antonieta Pereira de 
Azevedo (MNRJ), for help during field work, and 
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio 
de Janeiro (FAPERJ -— Proc. 171290/06), for 
financial support. 


REFERENCES 


GAGNÉ, R.J., 1994. The gall midges of the Neotropical 
region. Ithaca: Comstock Cornell University Press, 352p. 


GAGNÉÊ, R.J., 2004. A catalog of the Cecidomyiidae 
(Diptera) of the world. Memoirs of the Entomological 
Society of Washington 25:408p. 


MAIA, V.C., 2001. The gall midges (Diptera, Cecidomyiidae) 
from three restingas areas of Rio de Janeiro State, Brazil. 
Revista Brasileira de Zoologia 18(2):583-629. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.359-362, abr./jun.2008 


Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008 
ISSN 0365-4508 


MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA 
DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA TOWNSEND, 1917 
(DIPTERA, SARCOPHAGIDAE): 

(Com 20 figuras) 


KARLLA PATRÍCIA SILVA 23 
CÁTIA ANTUNES DE MELLO-PATIU 24 


RESUMO: Muitas espécies de Oxysarcodexia, um dos gêneros neotropicais mais numerosos da família 
Sarcophagidae, são conhecidas apenas por descrições que não fornecem argumentos suficientes para sua 
segregação, principalmente pela falta de detalhamento da morfologia da genitália. Um estudo comparativo e 
minucioso da terminália masculina de O. avuncula, O. confusa, O. diana e O. parva, espécies morfologicamente 
bastante similares, resultou no levantamento de um conjunto de caracteres que permitem uma melhor 
segregação das espécies. 


Palavras-chave: Sarcophagidae. Oxysarcodexia. Terminália. Morfologia. 


ABSTRACT: Comparative morphology of the male terminalia of four species of Oxysarcodexia Townsend, 
1917 (Diptera, Sarcophagidae). 

Many species of Oxysarcodexia, one of the most numerous neotropical genera of the family Sarcophagidae, 
are known only by descriptions which do not supply enough arguments for species segregation, mainly by 
the lack of detailed morphological study of the genitalia. A comparative and elaborate study of the male 
terminalia of O. avuncula, O. confusa, O. diana and O. parva, species with very similar morphology, has 


resulted in the survey of a character set which has allowed the species segregation. 


Key words: Sarcophagidae. Oxysarcodexia. Terminalia. Morphology. 


INTRODUÇÃO 


O gênero Oxysarcodexia Townsend, 1917 está 
representado por 79 espécies descritas até o 
momento, a maioria de tamanho médio, 
frequentemente coprófagas, mas algumas podem 
ser predadoras (Pare, 1996). Dentre os 
Sarcophaginae neotropicais, é um dos gêneros 
com maior número de espécies, com distribuição 
bastante ampla no Brasil (TiBana & MELLO, 1985; 
Lores & TiBana, 1987; Pare, 1996). 


Embora seja um grupo muito frequente e 
abundante nas coletas e nas coleções, a 
diferenciação de muitas espécies é bastante 
complexa e, frequentemente, as diferenças 
específicas são limitadas aos caracteres genitais 
dos machos (Parc, 1996). Estes possuem edeago 
sempre bem desenvolvido, com basifalo e distifalo 
unidos. A ventrália (= vesica) se apresenta 
articulada ou móvel e bastante ornamentada, 


! Submetido em 18 de abril de 2007. Aceito em 14 de abril de 2008. 


constituída fundamentalmente por uma formação 
rija inserida na região mediana do edeago, de 
onde partem expansões lateralmente dirigidas, 
muitas vezes com bordos dentados ou com outros 
tipos de ornamentações e/ou formações na forma 
de lóbulos. A ventrália é uma estrutura com 
características específicas neste gênero, devido a 
grande diversidade que apresenta, o que a torna 
um caráter de estudo essencial para a distinção 
das espécies de Oxysarcodexia (LorEs, 1946). Elas 
também apresentam uma estrutura que se 
desenvolve na parte interna do distifalo, ligando 
o estilo mediano à base da ventrália, funcionando 
como uma alavanca para a elevação do estilo 
mediano durante a cópula (Rosack, 1954). Esta 
estrutura, denominada por Rosack (1954) como 
“dorsal roads” e por GuiMaRrÃES (2004) como hastes 
dorsais, está presente em todos os gêneros da 
tribo Raviniini, entre eles Oxysarcodexia. 


A identificação das espécies de Oxysarcodexia é 


2? Museu Nacional, Departamento de Entomologia, Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 


* E-mail: karlla-patricia(dbol.com.br. 
* E-mail: camello(dacd.ufr;.br. 


364 K.PSILVA & C.A.MELLO-PATIU 


muito complexa e, para Lores (1946), algumas 
apresentam similaridade morfológica marcante, 
especialmente quanto à forma do edeago. As 
informações sobre distribuição geográfica 
podem algumas vezes auxiliar nestes casos, 
quando as espécies envolvidas na identificação 
ocorrem em regiões ou ambientes distintos. 


Nesse contexto, Oxysarcodexia parva Lopes, 1946, 
O. confusa Lopes, 1946, O. avuncula (Lopes, 1933) 
e O. diana (Lopes, 1933), constituem um grupo 
de espécies com edeago muito similar, 
simpátridas e atraídas pelas mesmas iscas (LOPES, 
1946). As quatro espécies ocorrem ao longo da 
América do Sul, com registros desde o México até 
a Argentina e, mais especificamente no Brasil, 
ocorrem do Ceará até Santa Catarina, incluindo 
os estados da região Centro-Oeste (Park, 1996). 
Logo, sabendo que os estudos até hoje realizados 
não fornecem argumentos suficientes para 
distinção entre elas, ressalta-se a importância de 
uma revisão da morfologia da terminália 
masculina que conduza ao levantamento dos 
caracteres diferenciais e ao fornecimento de dados 
para a identificação mais segura. 


MATERIAL E MÉTODOS 


Para estudo da terminália foram realizadas 
dissecções dos segmentos genitais, na altura do 
protândrio. Para a diafanização, o material foi 
colocado em solução aquosa de hidróxido de 
potássio (KOH) a 10%, aquecido em banho-maria 
por cerca de cinco minutos, e passado pela 
seguinte sequência: água destilada, ácido acético 
a 50%, água destilada e etanol comercial 96ºGL. 
A terminália foi transferida para lâmina contendo 
glicerina não-hidratada, protegida por lamínula, 
e foram observadas e ilustradas através de 
estereomicroscópios e microscópios ópticos 
providos com câmara-clara. Ao final do estudo, 
cada peça foi depositada em tubo plástico 
pequeno contendo glicerina, alfinetado ao seu 
respectivo espécime. 


A terminologia adotada para as estruturas 
gerais da terminália segue McALrPINE (1981), para 
as estruturas do edeago seguiu-se LorES & 
TiBaNA (1987), exceto estilos laterais e medianos 
usados como em MELLO-PariU & PaPE (2000). Todo 
o material utilizado neste estudo pertence à 
coleção do Museu Nacional, Rio de Janeiro 
(MNRJ), Universidade Federal do Rio de Janeiro, 


Rio de Janeiro, Brasil. 
RESULTADOS 


Oxysarcodexia avuncula (Lopes, 1933) 
(Figs.1-5) 


Sarcophaga avuncula Lopes, 1933:156. 


Localidade-tipo — BRASIL, RIO DE JANEIRO, Rio 
de Janeiro, Manguinhos. Lopes, 1939:119. 


Oxysarcodexia avuncula; Lopes, 1946:98; Lopes & 
Tibana, 1987:330. 


Terminália — Sintergosternito 7+8 e epândrio 
castanhos, cobertos com polinosidade dourada 
na região dorsal; sintergosternito 7+8 com seis 
cerdas pré-apicais bem desenvolvidas em série 
e cerdas esparsas pouco desenvolvidas, mais 
robustas na região dorsal; cerco curto, castanho- 
avermelhado, com ápice truncado e apicalmente 
enegrecido, apresentando largura similar à base 
em vista posterior, com cerdas pouco 
desenvolvidas e com uma pequena dobra apical 
esclerosada em vista lateral (Figs.1-3); surstilo 
claviforme, ápice com poucas cerdas próximas 
a margem (Fig.1); parâmero alongado, pouco 
menor que o gonópodo, com uma cerda mediana 
lateral pouco desenvolvida; gonópodo robusto 
com extremidade pontiaguda, apresentando uma 
reentrância na região mediana (Fig.1); edeago 
castanho, mais esclerosado na região apical, 
basifalo e distifalo fundidos apresentando uma 
cicatriz na região da união (Figs.1,4); estilos 
laterais com base arredondada, apresentando 
uma projeção lateral e com ápices afilados, com 
ornamentações espinhosas pouco desenvolvidas 
e projetados paralelamente; estilo mediano em 
forma de calha, com metade do tamanho dos 
estilos laterais (Fig.5); hastes dorsais presentes, 
ligando o estilo mediano à base da ventrália; 
ventrália esclerosada e articulada com o 
distifalo, região mediana da face ventral 
membranosa, ápice com dois lóbulos laterais 
muito espinhosos e com porção membranosa, 
apresentando entre eles uma formação 
esclerosada e levemente denteada na face ventral 
(Figs.1, 4-5). 


Material examinado — BRASIL: MINAS GERAIS, 
Cambuquira, 16, 08/X1I/1969, H.Hebert col. 
ESPÍRITO SANTO, Linhares, 40, VII/1972, 
P.C.Elias col. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008 


MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA 365 


Oxysarcodexia avuncula (Lopes, 1933): fig.1- terminália, vista lateral; fig.2- cerco, vista posterior; fig.3- cerco, vista lateral, 
fig.4- edeago, vista lateral; fig.5- edeago, vista ventral [(ba) basifalo; (ce) cerco; (di) distifalo; (el) estilo lateral; (em) estilo 
mediano; (go) gonópodo; (hd) hastes dorsais; (pa) parâmero; (su) surstilo; (ve) ventrália]. Escalas = 0, Imm. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008 


366 K.PSILVA & C.A.MELLO-PATIU 


Oxysarcodexia confusa Lopes, 1946 
(Figs.6-10) 


Oxysarcodexia confusa Lopes, 1946:96. 


Localidade-tipo — BRASIL, RIO DE JANEIRO, Miguel 
Pereira. Lopes & Tibana, 1987:332. 


Terminália — Sintergosternito 7+8 e epândrio 
castanhos cobertos de polinosidade dourada na 
região dorsal; sintergosternito 7+8 com oito 
cerdas pré-apicais bem desenvolvidas em série 
e cerdas esparsas pouco desenvolvidas, mais 
robustas na região dorsal; cerco castanho com 
ápice enegrecido, apresentando-se reentrante 
na região mediana e muito divergente na metade 
apical, em vista posterior (Fig.7), ápice 
pontiagudo com uma projeção lateral dobrada, 
em vista lateral (Fig.8), base bem mais larga 
que o ápice, com cerdas longas e robustas 
densamente dispostas (Figs.7-8); surstilo 
claviforme com poucas cerdas próximas à 
margem apical (Fig.6); parâmero alongado, 
pouco menor que o gonópodo, sem a longa cerda 
mediana usual; gonópodo com extremidade 
pontiaguda e esclerosada (Fig.6); edeago 
castanho-avermelhado, mais esclerosado na 
região apical, basifalo e distifalo fundidos 
apresentando uma cicatriz evidente na região 
da união (Fig.6); estilos laterais com base 
arredondada, ápices curtos, apresentando 
ornamentações espinhosas; estilo mediano em 
forma de calha, bem maior que os estilos 
laterais e com ornamentações escamosas e 
pilosidade na região basal; hastes dorsais 
presentes, ligando o estilo mediano à base da 
ventrália (Fig.10); ventrália bastante 
esclerosada e curta, ricamente ornamentada 
com placas escamosas por toda extensão, ápice 
com dois lóbulos laterais esclerosados com 
formações escamosas intensamente dispostas 
e com uma pequena projeção mediana distal 
entre eles, base com uma formação 
membranosa na articulação com o distifalo 
(Figs.6, 9-10). 


Material examinado — BRASIL: MINAS GERAIS, 
Cambuquira, 26 , 08/X1I/1969, H.Hebert col.; 
RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro, Alto da Boa 
Vista, 16, 05/IV/1984, H.Guimarães col.; 
Petrópolis, 16, 13/11/1972, H.S.Lopes col. 
PARANÁ, Castro, 10, 09/1/1972, H.S.Lopes col.; 
SANTA CATARINA, São Bento do Sul, 20, 06/ 
XI[/1969, H.Hebert col. 


Oxysarcodexia diana (Lopes, 1933) 
(Figs.11-15) 


Sarcophaga diana Lopes, 1933:156. 


Localidade-tipo — BRASIL, RIO DE JANEIRO, Rio 
de Janeiro. Lopes, 1939:119. 


Oxysarcodexia diana; Lopes, 1946:98; Lopes & 
Tibana, 1987. 


Terminália — Sintergosternito 7+8 e epândrio 
castanhos cobertos de polinosidade dourada na 
região dorsal; sintergosternito 7+8 com oito 
cerdas pré-apicais bem desenvolvidas em série e 
cerdas esparsas pouco desenvolvidas, mais 
robustas na região dorsal; cerco castanho, com 
ápices esclerosados e escurecidos, apresentando- 
se levemente reentrante abaixo da região 
mediana, em vista posterior, ápice com uma 
projeção lateral dobrada apicalmente e com 
cerdas esparsas pouco desenvolvidas, base larga 
com cerdas longas e robustas densamente 
dispostas (Figs.11-13); surstilo claviforme com 
poucas cerdas próximas à margem apical e 
superfície interna apresentando uma pequena 
peça esclerosada semitriangular (Fig.11); 
parâmero alongado com tamanho similar ao 
gonópodo e com uma cerda mediana lateral pouco 
desenvolvida; gonópodo esclerosado com 
extremidade arredondada (Fig.11); edeago 
castanho escuro, mais esclerosado na região 
apical, basifalo e distifalo fundidos apresentando 
uma cicatriz na região da união (Figs.11,14); 
estilos laterais com bases arredondadas e com 
projeção alongadas e denteadas, ápices afilados, 
com espinhos laterais; estilo mediano em forma 
de calha, localizado pouco acima dos estilos 
laterais e com pequenas ornamentações 
escamosas e pilosidades na região basal (Fig.18); 
hastes dorsais presentes, ligando o estilo mediano 
à base da ventrália; ventrália curta e mais 
esclerosada na região basal, apresentando 
ornamentações escamosas a partir da região 
mediana até o lóbulos apicais, ápice dividido em 
dois lóbulos arredondados, inteiramente 
membranosos, que se dobram lateralmente e 
apresentam entre si uma formação esclerosada e 
pontiaguda ventral (Figs.11, 14-15). 


Material examinado — BRASIL: RIO DE JANEIRO, 
Angra dos Reis, 26, 03/XI/1971, H.S.Lopes col.; 
SÃO PAULO, São Paulo, Butantã, 26, O01/IX/ 
1971, L.F.Travassos col.; 10, 03/VIII/1971, 
L.F.Travassos col. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008 


MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA 367 


Oxysarcodexia confusa Lopes, 1946: fig.6- terminália, vista lateral; fig.7- cerco, vista posterior; fig.8- cerco, vista lateral, 
fig.9- edeago, vista lateral; fig.10- edeago, vista ventral [(ba) basifalo; (ce) cerco; (di) distifalo; (el) estilo lateral; (em) estilo 
mediano; (go) gonópodo; (hd) hastes dorsais; (pa) parâmero; (su) surstilo; (ve) ventrália]. Escalas = 0, Imm. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008 


368 K.PSILVA & C.A.MELLO-PATIU 


di 


Oxysarcodexia diana (Lopes, 1933): fig.11- terminália, vista lateral; fig.12- cerco, vista posterior; fig.13- cerco, vista 
lateral, fig. 14- edeago, vista lateral; fig.15- edeago, vista ventral [(ba) basifalo; (ce) cerco; (di) distifalo; (el) estilo lateral; 
(em) estilo mediano; (go) gonópodo; (hd) hastes dorsais; (pa) parâmero; (su) surstilo; (ve) ventrália]. Escalas: 11, 14-15 = 0,Imm; 
12-13 = 0,05mm. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008 


MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA 369 


Oxysarcodexia parva Lopes, 1946 
(Figs.16-20) 


Oxysarcodexia parva Lopes, 1946:97. 


Localidade-tipo — BRASIL, RIO DE JANEIRO, Rio 
de Janeiro, Grajaú. Lopes & Tibana, 1987:332. 


Terminália — Sintergosternito 7+8 e epândrio 
castanhos cobertos de polinosidade dourada na 
região dorsal; sintergosternito 7+8 com oito cerdas 
pré-apicais bem desenvolvidas em série e cerdas 
esparsas pouco desenvolvidas, mais robustas na 
região dorsal; cerco castanho-avermelhado, com 
ápice negro, em vista posterior apresentando uma 
reentrância conspícua pouco abaixo da região 
mediana, ápice convergente com pequenas cerdas 
densamente dispostas e com uma pequena projeção 
arredondada lateral, base larga com cerdas longas 
e robustas densamente dispostas (Figs.16-18); 
surstilo claviforme com ápice apresentando poucas 
cerdas próximas à margem (Fig.16); parâmero 
alongado, com cerca da metade do tamanho do 
gonópodo, com uma cerda mediana lateral pouco 
desenvolvida; gonópodo bem desenvolvido com a 
extremidade pontiaguda e esclerosada (Fig.16); 
edeago castanho, mais esclerosado na região apical, 
basifalo e distifalo fundidos apresentando uma 
cicatriz na região da união (Fig. 16); estilos laterais 
com bases arredondadas com ápices afilados e 
projetados paralelamente; estilo mediano em forma 
de calha, com tamanho similar ao estilo lateral e 
com ornamentações escamosas na região basal; 
hastes dorsais presentes, ligando o estilo mediano 
à base da ventrália (Figs.19-20); ventrália 
esclerosada e articulada com o distifalo, região 
mediana ornamentada com placas escamosas 
laterais e face ventral membranosa, ápice dividido 
em dois pequenos lóbulos, parcialmente 
membranosos, que se dobram lateralmente, 
apresentando entre eles, na face ventral, uma 
formação esclerosada e denteada (Figs.16, 19-20). 


Material examinado — BRASIL: RIO DE JANEIRO, 
Angra dos Reis, 26 , 05/VII/1971 e 19/VIII/1972, 
H.S.Lopes col.; Rio de Janeiro, Alto da Boa Vista, 
1S, 02/11/1984, H.Guimarães col. (MNRJ); SÃO 
PAULO, São Paulo, Butantã, 10, 27/VI/1971, 
L.F.Travassos col. 


DISCUSSÃO 


LorEs (1946), ao fornecer uma chave para identificação 
dos machos de Oxysarcodexia, diferenciou O. parva e 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008 


O. diana das demais espécies por apresentarem os 
ápices dos cercos não divergentes. Ao analisar os 
cercos em ambas espécies, observou-se que esta 
característica se confirma. O cerco de O. parva 
também apresenta uma considerável reentrância 
lateral pouco abaixo da região mediana e uma 
pequena projeção arredondada lateral no ápice, em 
vista posterior (Fig.18). Em O. diana, o cerco 
apresenta uma dobra lateral esclerosada muito 
peculiar (Figs.11-12). Lopes (1946) descreveu o cerco 
de O. confusa como apresentando o ápice pouco 
divergente. Após análise desta estrutura, verificou- 
se que o cerco desta espécie se apresenta fortemente 
divergente na região apical, capaz de distinguií-la 
das demais (Fig.7). As considerações daquele autor 
quanto às características do cerco de O. avuncula 
se confirmam neste estudo, com cerco curto com 
ápice alargado (Fig.2). 

LorEs & TiBANA (19877), em uma chave ampliada para 
o gênero Oxysarcodexia, ressaltaram as seguintes 
características da ventrália: presença de lóbulos 
terminais arredondados e bem visíveis para O. parva 
e lóbulos da ventrália vestigiais para O. diana. LorEs 
(1946) havia caracterizado esta estrutura apenas 
como pequena e membranosa para ambas as 
espécies. Examinando a ventrália destas espécies, 
verificou-se que ambas apresentam a estrutura 
ornamentada por placas escamosas laterais na região 
mediana (Figs.14,19), sendo que em O. parva a 
ventrália possui face ventral membranosa e ainda 
presença de uma formação esclerosada e denteada 
entre dois lóbulos parcialmente membranosos, que 
se dobram lateralmente (Figs.16,19-20). Em O. diana, 
os lóbulos são globulares, inteiramente membranosos 
com uma formação esclerosada e pontiaguda entre 
eles (Figs.11,14-15). Quanto à ventrália de O. confusa, 
Lopes (1946) diferenciou a estrutura como sendo 
pequena e muito espinhosa e LorEs & TiBaNa (1987) a 
caracterizaram como apresentando apenas lóbulos 
apicais reduzidos. Observou-se que a ventrália é 
ricamente ornamentada com placas escamosas bem 
desenvolvidas por toda sua extensão, apresentando 
uma formação membranosa na articulação com o 
distifalo e possuindo lóbulos muito esclerosados e 
escamosos (Figs.6,9-10). Sobre a ventrália de O. 
avuncula, LorEs (1946) descreveu a estrutura como 
apresentando lóbulos reduzidos e espinhosos. Neste 
trabalho, observou-se que a ventrália de O. avuncula 
é bastante esclerosada, apresentando a região 
mediana ventralmente membranosa e a região distal 
com dois lóbulos muito espinhosos, parcialmente 
membranosos, e uma formação esclerosada e 
denteada entre eles (Figs.1,4-5). 


370 K.PSILVA & C.A.MELLO-PATIU 


16 17 


Oxysarcodexia parva Lopes, 1946: fig. 16- terminália, vista lateral; fig.17- cerco, vista posterior; fig. 18- cerco, vista lateral, 
fig. 19- edeago, vista lateral; fig.20- edeago, vista ventral [(ba) basifalo; (ce) cerco; (di) distifalo; (el) estilo lateral; (em) estilo 
mediano; (go) gonópodo; (hd) hastes dorsais; (pa) parâmero; (su) surstilo; (ve) ventrália]. Escalas = O, Imm. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008 


MORFOLOGIA COMPARADA DA TERMINÁLIA MASCULINA DE QUATRO ESPÉCIES DE OXYSARCODEXIA 371 


LorEs (1946) relacionou O. parva como uma espécie 
muito próxima de O. diana, distinguindo-se apenas 
por características do ápice do cerco e, 
principalmente, pela diferença no tamanho da 
ventrália. Analisando ambas as terminálias, 
admite-se que estas espécies são morfologicamente 
muito próximas, podendo ser segregadas pelas 
peculiaridades do ápice do cerco em vista posterior 
e pela presença da formação esclerosada e denteada 
entre os lóbulos da ventrália em O. parva 
(Figs.17,19) e esclerosada e pontiaguda em O. diana 
(Figs.12,14). 

Lores (1946) também evidenciou semelhanças entre 
O. confusa e O. diana, distinguindo-as pelo aspecto 
do ápice do edeago, da ventrália e pelos ápices dos 
cercos. No presente estudo, considera-se O. confusa 
mais próxima morfologicamente de O. parva, pois 


apresenta grande similaridade na ornamentação da 
ventrália, formato do ápice do edeago e disposição 
das suas estruturas internas. 


Oxysarcodexia avuncula foi relacionada em LorES 
(1946) como uma espécie nitidamente afim de O. 
parva, O. confusa e O. diana, distinguindo-se apenas 
pela forma achatada do cerco, característica 
também observada por LorEs & TiBana (1987). Após 
este estudo considerou-se esta espécie mais 
próxima morfologicamente de O. confusa pelas 
características da ventrália (Figs.1,4). 


Em complemento à chave fornecida por Lopes & 
TiBana (1987), alguns outros caracteres lhe são 
acrescentados. Os passos da chave são 
apresentados abaixo com seus números originais, 
complementados com as observações resultantes 
deste estudo (sublinhadas): 


9. Cerco fortemente truncado no ápice em vista posterior. Ventrália apresentando ápice dividido em 
dois lóbulos globulares distais muito espinhosos e parcialmente membranosos, apresentando 
entre eles uma formação esclerosada e levemente denteada ................. O. avuncula (Lopes, 1933) 

53. Abdome com polinosidade cinza, lóbulos terminais da ventrália arredondados bem visíveis, 


ornamentados com placas escamosas e apresentando entre eles uma formação esclerosada e 
denteada na face ventral. Ápice do cerco não divergente, com profunda reentrância lateral em 


VISTO SECLLOL MO rota nar h o RA copa renR do Misa DUNA ATER coçar 


ER ORI END o DA O CDU O. parva Lopes, 1946 


Abdome com polinosidade dourada no quinto tergito, algumas vezes com abdome completamente 


coberto por polinosidade cinza amarelado. Lóbulos da ventrália globulares e completamente 
membranosos, ornamentados com placas escamosas, com uma formação esclerosada e 


pontiaguda entre eles na face ventral ................... 


sc RD, 8 = a MD O. diana ( Lopes, 1933) 


59. Ventrália com lóbulos apicais reduzidos. Ápices dos cercos muito divergentes apresentando 
uma reentrância logo abaixo da região mediana em vista posterior e uma formação pontiaguda 


apical. emmuistastateral 2º, Seas nica toa A span a dora 


REFERÊNCIAS 


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dez espécies neotropicais de Ravinia Robineau-Desvoidy, 
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Nacional, 61(1):45-66. 


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Entomologia, 3(2):143-158. 


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LOPES, H.S., 1946. Contribuição ao conhecimento das 
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PAPE, T., 1996. Catalogue of Sarcophagidae of the 
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fêmeas de Oxysarcodexia Townsend, 1917 (Diptera, 
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Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.363-372, abr./jun.2008 


Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.373-379, abr./jun.2008 
ISSN 0365-4508 


FIRST RECORD OF EURYTHENES OBESUS (CHEVREUX, 1905) 
(AMPHIPODA, LYSIANASSOIDEA, EURYTHENEIDAE) 
IN BRAZILIAN WATERS ! 
(With 2 figures) 


ANDRÉ R. SENNA ?º 
CRISTIANA S. SEREJO 2 


ABSTRACT: Currently, 14 lysianassoid species are known from the Brazilian waters. Material collected 
from the Campos Basin, off Rio de Janeiro State, Brazil, during the “Campos Basin Deep-Sea Environmental 
Project” coordinated by CENPES/PETROBRAS were analyzed. The samples were collected using a semi- 
balloon door trawl at 1300 and 1608 m depth, aboard of the N/R Astro Garoupa. Eurythenes obesus 
(Amphipoda: Lysianassoidea: Eurytheneidae) was found in these samples and is herein redescribed. The 
species is widely distributed around the world, but there are no previous records of this species from 
Brazilian waters. 


Key words: Amphipoda. Eurythenes obesus. Campos Basin. Deep-sea. Brazil. 


RESUMO: Primeiro registro de Eurythenes obesus (Chevreux, 1905) (Amphipoda, Lysianassoidea, 
Eurytheneidae) para as águas brasileiras. 

Atualmente são conhecidas 14 espécies de lysianassoides para as águas brasileiras. Foi analisado material 
coletado na Bacia de Campos, ao largo do Estado do Rio de Janeiro, Brasil, como resultado do projeto 
“Caracterização Ambiental de Águas Profundas da Bacia de Campos” coordenado pelo CENPES/PETROBRAS. 
As amostras foram coletadas por arrasto usando uma rede de porta do tipo Semi-Balloon a 1300 e 1608m de 
profundidade, abordo do N/R Astro Garoupa. Eurythenes obesus (Amphipoda: Lysianassoidea: Eurytheneidae) 
foi encontrada nessas amostras e é aqui redescrita. Muito embora essa espécie tenha distribuição mundial, 
não há registros anteriores para as águas brasileiras. 


Palavras-chave: Amphipoda. Eurythenes obesus. Bacia de Campos. Mar profundo. Brasil. 


INTRODUCTION 


This study is part of the “Campos Basin Deep-Sea 
Environmental Project” which has the purpose to 
make an environmental characterization of the 
Campos Basin deep-sea area, between 700 and 
2,000m depth, off north of Rio de Janeiro State. The 
knowledge of Crustacea, as well as other benthos 
groups of this area, is important for monitoring 
programs implemented by the Brazilian oil company 
- PETROBRAS. The Campos Basin is about 
100,000m* in area and is the largest petroleum 
reserve in Brazilian waters. About 65% of the 
exploratory camps of PETROBRAS are offshore, above 
400m depth (www2.petrobras.com.br/Petrobras / 
portugues /plataforma/pla bacia campos.htm). 


The superfamily Lysianassoidea is very abundant 
and diverse in shallow and deep-sea water (BOUSFELD, 


'! Submitted on April 16, 2006. Accepted on April 14, 2008. 


1982), but there are few records of this group from 
the Brazilian coast. Currently, only 14 lysianassoid 
species are known from Brazilian waters (WAkABARA 
& SEREJO, 1998; SEREJO && WAKABARA, 2003; FREIRE & 
SEREJO, 2004; SErEJO et al., 2007a, Db; SENNA & SEREJO, 
2007, 2008). Recently, the group was studied based 
on the material of REVIZEE Benthos Program which 
results in five new species (SENNA, 2006). Information 
on distribution of these species will be given here. 


The family Eurytheneidae Stoddart & Lowry, 2004 
contains only the genus Eurythenes Smith, 1882, 
including three species: Eurythenes gryllus 
(Lichtenstein in Mandt, 1822), E. obesus (Chevreux, 
1905), and E. thurstoni Stoddart & Lowry, 2004. 
Eurythenes gryllus and E. obesus are cosmopolitan, 
scavengers or carnivorous, and usually they are 
bathy- to abyssopelagic (BousrieLD, 1982: BARNARD & 
KaraMaN, 1991). Eurythenes thurstoni is recorded from 


2? Museu Nacional/UFRJ, Departamento de Invertebrados. Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 


* E-mail: ar. senna(Mhotmail.com. 


374 A R.SENNA & C.S.SEREJO 


SE Indian Ocean, Gulf of Mexico, and Caribbean 
Sea and is an epibenthic scavenger or perhaps a 
midwater predator or scavenger (STODDART & LOWRY, 
2004). These species are thought to be epibenthic 
scavengers since they have been captured in baited 
traps. However, knowledge about the life habits of 
E. obesus is still scarce when compared to the other 
two species. This species has frequently been taken 
in mid-water trawls which suggests it is a pelagic 
predator (STODDART & Lowry, 2004). 


In this paper, E. obesus is recorded for the first 
time from off the Brazilian coast, extending its 
distribution to these waters. 


MATERIAL AND METHODS 


The studied area comprises the north and south 
regions of the Campos Basin, off Rio de Janeiro 
State (21º48'S-22º48'S), between the isobaths of 
700m and 2000m. 


The collections were made with a Semi-Balloon door 
trawl, with 5mº of opening, aboard ofthe N/R “Astro 
Garoupa”, in two campaigns. The first campaign 
was in February 2003 and the second campaign 
was in August 2003. The trawls were made over 
1.5 hours and 1.8 knot speed, approximately. The 
samples were preserved in ethanol 70%. 


Specimens were dissected under a stereoscope 
microscope and the drawings were made with a 
camera lucida. All the material is deposited in the 
Crustacean Collection - Museu Nacional, 
Universidade Federal do Rio de Janeiro (MNRJ). 


Photograph of figure 1 was taken with a Digital 
Camera Nikon Coolpix 5400, 5.1 Mega Pixels, at 
the Sector of Carcinology, MNRJ. 

The nomenclature of the setal-teeth of the maxilla 1 
outer plate is based on Lowry & STODDART (1992: 1993). 
Abbreviations: Hd: Head; Mx1l: Maxilla 1; Mx2: 
Maxilla 2; Gn1: Gnathopod 1; P7: Pereopod 7; Ep3: 
Epimeral plate 3; U3: Uropod 3; ST: Setal-teeth. 


TAXONOMY 


Order Amphipoda Latreille, 1816 
Superfamily Lysianossoidea Dana, 1849 
Family Eurytheneidae Stoddart & Lowry, 2004 
Genus Eurythenes Smith, 1882 


Diagnosis — Head exposed, much deeper than long, 
not extending much below insertion of antenna 2, 


without cheek notch. Antennae with calceoli present 
in male, absent in female. Antenna 1 with well 
developed two-field callynophore in both sexes. 
Mouthpart bundle subquadrate. Epistome and 
upper lip separate. Right mandible without lacinia 
mobilis. Mandibular incisor present, smooth, and 
convex. Accessory setal row without distal tuft of 
setae. Molar with a small triturative surface. Maxilla 
1 inner plate with more than two apical pappose 
setae; outer plate narrow with setal-teeth (ST) large, 
in 8/3 crown arrangement; ST6 and STY7 slender, 
ST7 slightly displaced from ST6. Inner plate of 
maxilla 2 much shorter than outer plate. Maxilliped 
palp 4-articulate, article 4 well developed. Gnathopod 
1 subchelate or parachelate, coxa vestigial, carpus 
short, propodus large, palm straight to convex. Coxa 
2 shorter than coxa 3. Coxa 4 large with well 
developed posterodistal lobe. Coxa 5 with anterior 
and posterior lobes subequal. Uropod 2, inner ramus 
without constrinction. Uropod 3 biramous. Telson 
deeply cleft (modified from SropDART & Lowry, 2004). 


Eurythenes obesus (Chevreux, 1905) (Figs.1-2) 


Katius obesus CHevrEUXx, 1905:1; 1935:63; 


K.H.BARNARD, 1932:56. 


Eurythenes obesus - ScHELLENBERG, 1955:183, 192; 
SHOEMAKER, 1956:178. J.L.BaRrNARD, 1958:92; 
1961:38; HurLey, 1963:59; Brusca, 1967:384; 
BELLAN-SANTINI & LEDOYER, 1974:681; Lowry & 
BuLLock, 1976:89; Ortiz, 1979:19; BAaRNARD & 
KarAaMAN, 1991:486; THurstTON & BeTT, 1995:201; 
STODDART & Lowry, 2004:445 (with complete 
synonymy). 


Type-locality — NE of Cabo Verde Islands, eastern 
North Atlantic Ocean, 20º1.8'N 21º19.8W - 
20º1.3'N 21º20.0W, 995-1,500m over bottom depth 
3,800-3,850m. 


Material examined — BRAZIL, OFF RIO DE JANEIRO 
STATE, Campos Basin Deep-Sea Environmental 
Project, N.R Astro Garoupa col.; 1S, 42.0mm, 
22º15,209'S-39º47,690W, 1,608m depth, February 
12, 2003, MNRJ 19271; 10, 78.6mm, 22º15,49'S- 
39º47,450'W, 1,300m depth, August 22, 2008, 
MNRJ 19451. 


Diagnosis — Anterodorsal margin of head smooth. 
Gnathopod 1 parachelate, basis length 2 to 2.5 
times its breadth, propodus slightly tapering 
distally. Pereopods 3-7, dactyli long. Pereopod 7, 
basis with posteroventral margin rounded, and 
length of anterior margin subequal to breadth. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.373-379, abr./jun.2008 


FIRST RECORD OF E. OBESUS IN BRAZILIAN WATERS 375 


Fig.1- Eurythenes obesus, S, 78.6mm, 22º15,49'S — 39º47,450'W, 1300m depth, MNRJ 19451. Scale bar = 10mm. 


Epimeral plate 3, posteroventral corner subquadrate. 
Urosomite 1 not dorsodistally produced over 
urosomite 2. Uropod 3 peducle, medial face with or 
without robust setae (modified from SrTODDART & 
Lowry, 2004). 


Description - O, 78.6mm. Head deeper than long, 
anterodorsal margin smooth; lateral cephalic lobe 
small, subacute; rostrum absent; eyes little apparent. 
Antenna 1 short. Antenna 2, 2 times antenna 1. 


Mouthpart bundle subquadrate. Epistome and 
upper lip separate. Mandible, accessory setal row 
with nine blunt robust setae, molar large, setose, 
with a distal triturating surface. Maxilla 1, inner 
plate small; outer plate with 11 setal-teeth in 8/3 
crown arrangement; ST1 to STY large and slender, 
ST1i and ST2 non-cuspidate, ST3 and ST4 3- 
cuspidate, ST5 5-cuspidate, ST6 4-cupidate, STY7 
slightly displaced from ST6; STA to STD large and 
broad, STA 1-cuspidate, STB 3-cupidate, STC 5- 
cuspidate, and STD 7-cuspidate; palp large, 2- 
articulate. Maxilla 2, inner plate broad, length 0.75 
times outer plate, inner margin slightly concave. 


Pereonites 1-2 dorsally smooth; pereonites 3-7 with 
dorsal sharp ridge. Gnathopod 1 parachelate; coxa 
small; basis slender, length 2.5 times breadth, 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.373-379, abr./jun.2008 


anterior margin smooth, with a row of small slender 
setae, posterior margin with a tuft of slender setae 
distally; ischium short, length 1.3 times breadth, 
posterior margin setose; merus, length 1.3 times 
breadth, posterior margin setose; carpus 
subtriangular, with a tuft of slender setae 
anterodistally, length 1.1 times breadth; propodus 
large, length 2.25 times breadth, subrectangular, 
slightly tapering distally, anterior margin with tufts 
of slender setae, posterior margin setose, palm 
transverse, palmar corner with one medial and one 
lateral stout seta; dactylus simple, smooth, longer 
than palm, outer margin with one single slender 
seta. Gnathopod 2, coxa small, longer than coxa 1, 
ischium, carpus and propodus long, palm 
transverse; dactylus shorter than palm. Pereopods 
3-7, dactyli long. Pereopod 4, coxa with large 
posteroventral lobe. Pereopod 7, basis expanded 
posteriorly, posterodistal lobe well-developed, 
posterior margin minutely serrate, posteroventral 
corner subquadrate, posteroventral margin 
straight, length of anterior margin subequal to 
breadth; merus expanded posteriorly, anterior 
margin with four tufts of setae; carpus, anterior 
margin with four tufts of setae; propodus, anterior 
margin with six tufts of slender setae. 


376 A R.SENNA & C.S.SEREJO 


Pleonites 1-3 with dorsal sharp ridge. Pleonite 3 
with anterodorsal notch. Epimeral plate 3, 
ventral margin minutely setose; posteroventral 
corner subquadrate. Uropods 1-2, rami subequal 
in length. Uropod 3, peduncle short, length 1.5 
times breadth, without dorsolateral flange, 
medial face without robust setae; rami, dorsal 
margin setose, inner ramus 0.9 times outer 
ramus; outer ramus 2-articulate, article 2 short. 
Telson longer than broad, deeply cleft, tapering 
distally. 


Distribution — Eurythenes obesus is a cosmopolitan 
species, recorded from North and South Atlantic, 
Indian Ocean, North Pacific, Australia, and Brazil, 
off Rio de Janeiro State. 


Remarks — The material examined has the 
diagnostic characters for the species: anterodorsal 
margin of head smooth, propodus of gnathopod 1 
slightly tapering distally, dactyli of pereopods 3-7 
long, basis of pereopod 7 with length of anterior 
margin subequal to breadth, and urosomite 1 not 
dorsodistally produced over urosomite 2 (Fig.2). 


Fig.2- Eurythenes obesus, OS, 78.6mm, 22º15,49'S — 39º47,450”W, 1300m depth, MNRJ 19451. Scale bars = Imm. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.373-379, abr./jun.2008 


FIRST RECORD OF E. OBESUS IN BRAZILIAN WATERS 37 7 


However, some differences were noticed when 
compared with the material described by STODDART 
& Lowry (2004) from Cabo Verde and designate as 
the neotype for E. obesus. 

The pattern of cuspidation on the setal-teeth of the 
outer plate of maxilla 1 in the Brazilian specimens 
is not the same as the neotype material. The number 
of cusps on each setal-tooth in the Brazilian material 
is lesser, with ST1 and ST2 non-cuspidate (versus 
ST1i and ST2 3-4 cuspidate); ST3 and ST4 3- 
cuspidate (versus ST3 and ST4 4-cuspidate); STA 
l-cuspidate (versus STA 2-cuspidate); STB 3- 
cupidate (versus STB 5-cuspidate); STC 5-cuspidate 
(versus STC 7-cuspidate); and STD 7-cuspidate 
(versus STD 8-cuspidate). This variation has been 
noticed in other lysianassoid species, such as E. 
gryllus (STODDART & Lowry, 2004). The Milne-Edwards” 
specimen and the Lilljeborg's specimen described 
by SroDDART & Lowry (2004) have different patterns 
of cuspidation on the maxilla 1 setal-teeth. 

The number of setae in the accessory setal row of 
the mandible differs between the Brazilian and the 
neotype material: nine blunt robust setae (versus 
10 acute robust setae). 

The length of the posteroventral lobe on basis of 
pereopod 7 also varies. The material described by 
STODDART & Lowry (2004) has the posteroventral lobe 


developed about one third the length of the merus, 
whereas the same lobe on the Brazilian material does 
not surpass the ischium-merus articulation. 
Another character which differs in the Brazilian 
material is the naked medial surface of the uropod 
3 peduncile. The Cabo Verde material has the uropod 
3 peduncle bearing four apical and three medial 
robust setae on the medial surface, and the diagnosis 
has been modified in this aspect. 

The described specimen is notable in having 
78.6mm length. The larger specimen of E. obesus 
recorded until now is a female with 80 mm length, 
from Australia (STODDART & Lowry, 2004). 


DISCUSSION 


The family Eurytheneidae, represented by E. gryllus, 
was first recorded recently in Brazil (SEREJO et al., 
2007b). Species of this family are typically large 
(2-25cm), and can be collected with deep-sea 
dredges or baited traps. 


Knowledge of the faunistic composition of the 
superfamily Lysianassoidea in the Brazilian deep-sea 
is still scarce. With this record, the number of known 
species from Brazil is raised to 15 species, eight from 
deep-sea and seven from shallow waters (Tab.1). 


TABLE 1. Lysianassoids known from Brazil. 


SPECIES BRAZILIAN WORLD DEPTH REFERENCE 
DISTRIBUTION DISTRIBUTION FOR BRAZIL 
Family Amaryllididae 
Amaryllis atlantica Senna & Serejo, 2008 BA, ES Brazil 40-65m SENNA & SEREJO, 2008 
Family Aristiidae 
Perrierella audouiniana (Bate, 1857) SP Atlantic; Shallow water ' VALÉRIO-BERARDO, 1992 
Mediterranean; Brazil 
Family Eurythenidae 
Eurythenes gryllus (Lichtenstein, 1822) BA, ES Cosmopolitan 1089-1730m — SEREJO et al., 2007b 
E. obesus (Chevreux, 1905) RJ Cosmopolitan 1300-1608m Present study 
Family Lysianassidae 
Bonassa brasiliensis Senna & Serejo, 2008 BA Brazil Om SENNA & SEREJO, 2008 
Lysianassa brasiliensis (Dana, 1853) RJ Brazil Shallow water DANA, 1853; BATE, 1862 
Lysianassa danai Senna & Serejo, 2008 
Lysianopsis concavus Senna, 2007 BA, ES Brazil 20-108m SENNA, 2007; 
SENNA & SEREJO, 2008 
Schoemakerella nasuta (Dana, 1853) RJ Brazil Shallow water DANA, 1853; STEBBING, 1906 
Family Trischizostomidae 
Trischizostoma costai Freire & Serejo, 2004 ES Brazil 1364m FREIRE & SEREJO, 2004 
T. denticulatum Ledoyer, 1978 ES Southwest Indian, off 910-1642m FREIRE & SEREJO, 2004 
Madagascar; Brazil 
T. longirostrum Chevreux, 1919 BA, ES N. Atlantic; Brazil 1002-2076m FREIRE & SEREJO, 2004 
T. raschi Boeck, 1861 BA, ES N. Atlantic; 922-1026m FREIRE & SEREJO, 2004 
Mediterranean; Brazil 
T. richeri Lowry & Stoddart, 1994 BA Southwestern Pacific; 599m FREIRE & SEREJO, 2004 


Brazil 
Family Uristidae 


Stephonyx uncinatus Senna & Serejo, 2007 BA Brazil 6877-739 SENNA & SEREJO, 2007 
States: (BA) Bahia; (ES) Espírito Santo; (RJ) Rio de Janeiro; (SP) São Paulo. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.373-379, abr./jun.2008 


378 A R.SENNA & C.S.SEREJO 


Five new species were recorded by Senna (2006), 
two of them described by Senna (2007) and Senna 
& Serejo (in press). The other three species, two of 
the family Lysianassidae and one Amaryllididae are 
being prepared to be published, that will be one 
more contribution to knowledge of the lysianassoid 
Brazilian fauna. 


ACKNOWLEDGEMENTS 


We thank CENPES-Petrobras (Centro de Pesquisas 
- Petróleo Brasileiro S/A) for providing the material 
and fellowship. We also thank FUJB (Fundação 
Universitária José Bonifácio) for financial support. 


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plataforma/pla bacia campos.htm>. Access on: April 2006. 


Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 
ISSN 0365-4508 


REVISÃO DO CONHECIMENTO 
SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL: 


(Com 8 figuras) 


SALVATORE SICILIANO? 

NEUSA RENATA EMIN-LIMA? 
ALEXANDRA F. COSTA? 

ANGÉLICA L. F. RODRIGUES? 
FAGNER AUGUSTO DE MAGALHÃES? 
CAROLINA H. TOSI* 

ROSANA G. GARRI 

CLAUDIA REGINA DA SILVAº 

JOSÉ DE SOUSA E SILVA JÚNIOR? 


RESUMO: A costa norte do Brasil representa uma nova fronteira para o avanço do conhecimento sobre a fauna 
de mamíferos aquáticos. A ausência de dados pretéritos sobre os mamíferos aquáticos nessa região e a própria 
dificuldade logística de monitoramento resultou, até muito recentemente, numa lacuna de conhecimento. A fim 
de reverter este quadro, o Projeto Piatam Oceano vem incentivando a formação de grupos de pesquisa sobre 
mamíferos aquáticos da costa amazônica. Como resultado dos esforços recentes, foi reunido um conjunto relevante 
de informações inéditas ou complementares sobre as 22 espécies de mamíferos aquáticos registradas até o 
momento na região. Destacam-se as áreas de ocorrência do peixe-boi-marinho no litoral dos Estados do Maranhão, 
Pará e Amapá, as quais poderiam garantir a manutenção destas populações criticamente ameaçadas. Merece 
destaque ainda a ocorrência do boto-cinza em toda costa amazônica e sua problemática de interação com a pesca 
artesanal e o comércio de peças anatômicas. Sugere-se uma ampla campanha de conscientização e a promoção 
de campanhas educativas visando uma nova tomada de atitude em relação aos mamíferos aquáticos e seus 
hábitats, respeitando os valores tradicionais e o conhecimento etnoecológico das comunidades costeiras. 


Palavras-chave: Mamíferos aquáticos. Costa norte. Conservação. Brasil. 


ABSTRACT: Review on the knowledge about aquatic mammais of the north coast of Brazil. 


The Brazilian north coast represents a new frontier in several fields of knowledge. The aquatic mammals of the 
Brazilian northern coast were poorly studied until recently. Recent efforts promoted by Projeto Piatam Oceano are 
changing the scenario. New research groups on aquatic mammals were formed and are conducting a large survey of 
this unique group of mammails. A total of 22 species of aquatic mammals were recorded along the Brazilian northern 
region. It should be emphasized the rediscovery of the Antillean manatee in several localities along the coasts of 
Amapá, Pará and Maranhão states. On the other hand, the estuarine dolphin is widely distributed along the 
Amazonian coast but is frequently by-caught in gill nets fisheries throughout the northern coast. The intense use of 
love charms has also a negative effect on these populations and should be better evaluated. An awareness program 
will be implemented as a first step for changing attitude towards the aquatic mammails of the northern coast. 


Key words: Aquatic mammals. Conservation. North coast. Brazil. 


INTRODUÇÃO sobre os grupos zoológicos integrantes desta fauna 

e a própria dificuldade logística de monitoramento 

A costa norte do Brasil representa uma nova fronteira resultou numa lacuna de conhecimento até muito 
para o avanço do conhecimento sobre a fauna de recentemente. Os resultados apresentados traduzem 
mamíferos aquáticos. A ausência de dados pretéritos | o esforço dos pesquisadores do Grupo de Estudos 


! Submetido em 18 de junho de 2007. Aceito em 14 de abril de 2008. 

2 Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (GEMAM), Projeto Piatam Oceano. Museu Paraense Emílio Goeldi, Coordenação de Zoologia. 

Campus de Pesquisa. Av. Perimetral, 1901, Terra Firme, 66077-530, Belém, PA, Brasil. 

* Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos (GEMM-Lagos), Departamento de Endemias Samuel Pessoa, Escola Nacional de Saúde 
Pública/FIOCRUZ. Rua Leopoldo Bulhões, 1480/s.620, Manguinhos, 21041-210, Rio de Janeiro, RJ Brasil. E-mail: sal(Densp.fiocruz.br. 

* Projeto Cetáceos do Maranhão/Instituto Ilha do Caju. Av. Presidente Vargas, 235, Centro, 64200-200, Parnaíba, PI, Brasil. 

> Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá - IEPA. 
Centro de Pesquisas Zoobotânicas e Geológicas (CPZG). Rodovia Juscelino Kubitschek Km-10, Fazendinha, 68912-250, Macapá, AP, Brasil. 


382 S.SICILIANO et al. 


de Mamíferos Aquáticos da Amazônia/Projeto 
Piatam Oceano, ou GEMAM /PIATAM, e do Projeto 
Cetáceos do Maranhão /Instituto Ilha do Caju, ou 
PROCEMA/ICEP. 


Devido à falta de tradição em pesquisas sobre 
cetáceos e sirênios na Amazônia Oriental, os poucos 
dados disponíveis são pontuais e limitam a tomada 
de medidas eficazes de conservação e manejo. 


O Grupo de Mamíferos Aquáticos do Projeto Piatam 
Oceano, denominado Grupo de Estudos de 
Mamíferos Aquáticos da Amazônia (GEMAM / 
PIATAM), surgiu para tentar suprir a falta de 
estudos sobre os mamíferos aquáticos da região 
norte. As atividades em realização pelo GEMAM / 
PIATAM, incluem: monitoramento de praias e portos 
pesqueiros na área de influência da Baia do Marajó 
com a finalidade de coleta de carcaças de mamíferos 
aquáticos; qualificação e quantificação das 
atividades pesqueiras e suas interações com 
mamíferos aquáticos na Baía do Marajó; estimativas 
de abundância e densidade relativas de mamíferos 
aquáticos na Baía do Marajó; avaliação da presença 
de espécies ameaçadas, especialmente o peixe-boi- 
marinho (Trichechus manatus) e o peixe-boi-da- 
Amazônia (T. inunguis). O recolhimento de carcaças 
foi licenciado pela Superintendência do IBAMA no 
Pará sob número de registro IBAMA/DIFAP/ 
SUPES-PA 078/2006 e pela autorização para 
atividades com finalidade científica do Sistema de 
Autorização e Informação em Biodiversidade — 
SISBIO/IBAMA Número 12641-1. 


As atividades de campo do GEMAM/PIATAM 
contam com o apoio técnico do Departamento de 
Endemias, da Escola Nacional de Saúde Pública/ 
Fiocruz. Todos os exemplares de mamíferos 
aquáticos recolhidos em praias são tombados na 
coleção do Setor de Mastozoologia do Museu 
Paraense Emílio Goeldi (MPEG) (Apêndice 1). Um 
banco de amostras de tecidos em meio líquido vem 
sendo incorporado à coleção do MPEG. 


O Projeto Cetáceos do Maranhão, criado junto ao 
Instituto Ilha do Caju (PROCEMA/ICEP), tem como 
objetivo capacitar estudantes de graduação das 
universidades dos Estados do Maranhão e Piauí, 
tendo em vista que as pesquisas voltadas para 
mamíferos aquáticos nestas regiões eram totalmente 
desconhecidas. As atividades do PROCEMA/ICEP 
tiveram início e concentraram-se basicamente em 
pesquisas de caracterização socioambiental, as quais 
serviriam como subsídio para identificação das áreas 
chaves no processo de organização das estratégias 
conservacionistas que o PROCEMA/ICEP pretendia 


aplicar. Dentre as atividades previstas no 
PROCEMA/ICEP, podemos citar: monitoramento de 
praias na Ilha de São Luís e no Delta do Parnaíba, 
monitoramento dos principais portos pesqueiros do 
Maranhão, avistagens em ponto fixo e embarcado, 
trabalhos de etnoecologia e educação ambiental, 
estimativa de abundância do boto-cinza (Sotalia 
guianensis) na Baia de São Marcos, e organização 
de eventos voltados para a preservação marinha, 
visando a conscientização das comunidades 
costeiras. As atividades de campo do PROCEMA/ 
ICEP contaram com o patrocínio do Programa 
Petrobras Ambiental. O material coletado encontra- 
se tombado na coleção zoológica do Instituto Ilha 
do Caju (CEMA) (Apêndice II). 

A seguir tratamos de listar e comentar sobre as 22 
espécies nominais de mamíferos aquáticos com 
ocorrência comprovada na costa norte. As espécies 
foram relacionadas de acordo com seus grupos 
taxonômicos naturais e suas características 
ecológicas de uso do hábitat, a saber: 


Pequenos cetáceos costeiros — espécies de pequeno 
tamanho corporal (menores que 7m), de ocorrência 
restrita à plataforma continental; 

Grandes cetáceos pelágicos — espécies de grande 
tamanho corporal (maiores que 7m) de ocorrência 
preferencial em águas oceânicas, 

Pequenos cetáceos pelágicos — espécies de pequeno 
tamanho corporal (menores que 7m) de ocorrência 
exclusiva em águas oceânicas, 

Sirênios — mamíferos aquáticos da Ordem Sirenia; 
Mustelídeos — mamíferos aquáticos da Ordem 
Carnivora. 


PEQUENOS CETÁCEOS COSTEIROS 


>Boto-cinza [(Sotalia guianensis) P. J. Van Bénéden, 
1864] e tucuxi |(Sotalia fluviatilis) (Gervais, 1853)] 


O boto-cinza (Sotalia guianensis) é o pequeno cetáceo 
mais representativo dos ambientes marinhos da costa 
norte do Brasil. O boto-cinza encontra-se distribuído 
continuamente desde a Ilha das Canárias, no Delta 
do Parnaíba, divisa entre os Estados do Maranhão e 
Piauí, até o Oiapoque, na fronteira do Brasil com a 
Guiana Francesa. S. guianensis ocupa águas da 
plataforma continental até o limite aproximado da 
isóbata de S0m. Desse modo, a área potencial de uso 
é ampliada pela extensa plataforma continental da 
costa norte, oferecendo ao boto-cinza uma 
heterogeneidade de ambientes costeiros. Devido aos 
seus hábitos costeiros, Sotalia é capturado 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 383 


acidentalmente em redes de pesca em toda sua área 
de distribuição no norte do Brasil. Registros de 
captura acidental do boto-cinza na costa do Pará e 
Maranhão remontam à década de 1980 e início da 
década de 1990 (Borosia et al., 1991; Siciiano, 1994). 
Em anos subsequentes, o monitoramento das 
capturas acidentais, entretanto, foi pontual na costa 
do Pará (BeLTRÁN-PEDREROS, 1998), mas indicou um 
elevado número de exemplares de S. guianensis 
capturados ao largo das costas do Pará e Amapá. 


Apenas recentemente, iniciou-se um esforço de 
monitoramento costeiro dedicado ao recolhimento 
de carcaças de cetáceos nos Estados do Pará e 
Maranhão. Os monitoramentos estão concentrados 
na costa leste do Marajó, nos municípios de 
Salvaterra e Soure, Pará, e na Baía de São Marcos 
e Delta do Parnaíba, Maranhão (SiciLiano et al., 2005; 
Emin-Lima et al., 2007; GarriI et al., 2005; SantTOS et 
al., 2006; 2007). 


Os exemplares de S. guianensis capturados em redes 
de pesca são descartados inteiros ou aproveitados 
para consumo humano (SicrLiano, 1994; MAGALHÃES 
et al., 2005a; Tosi et al., 2005a; Soares et al., 2006; 
Garri et al., 2006). A carcaça pode ser retalhada, 
servindo de isca para a pesca de espinhel (Tosr etal., 
2005b), mas também se destina a outros usos, 
geralmente relacionados à cultura amazônica e seus 
misticismos, destacando-se o amplo comércio de 
dentes, genitálias, olhos e nadadeiras dorsais 
(BoroBia et al., 1991; Siciiano, 1994; Tosr etal., 2005b; 
GarrI et al., 2005; SHoLL et al., 2006). A prática de 
arpoamento de botos-cinza para servirem de isca 
na pesca de cações na Baía do Marajó (BoroBia et 
al., 1991) e na costa leste do Pará parece ter 
declinado ou mesmo se extinguido nos últimos anos 
(GEMAM/PIATAM, dados não publicados). Presume- 
se que as capturas intencionais de botos-cinza 
tenham sido banidas a partir da década de 1990, 
devido ao aumento da fiscalização na região. Por 
outro lado, observa-se nos mercados populares o 
comércio de dentes, olhos e genitálias retirados de 
botos capturados acidentalmente em redes de pesca. 
Visto ser uma atividade ainda muito presente, esse 
comércio “tradicional” de peças anatômicas dos botos 
parece representar uma ameaça potencial de retorno 
a prática das capturas intencionais. 


No Estado do Amapá, foram realizadas avistagens 
recentes de Sotalia sp., através de plataforma de 
oportunidade, em diferentes ocasiões no Canal Norte 
do Rio Amazonas (00º04'26.1"S, 051º12º09.0"W), e 
na Reserva Biológica do Lago Piratuba (01º22º24.9"N, 
050º20'12.8"W). Adicionalmente, um crânio de S. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


guianensis foi coletado na mesma reserva, mas na 
porção marinha situada próximo à localidade de 
Sucuriju (01º39'02.4"N, 049º56'59.8'"W). O material 
osteológico coletado encontra-se depositado no IEPA 
sob número de tombo “918”. Avistagens de S. 
fluviatilis ocorreram recentemente no rio Maracá 
(00º11'0.7"S, 051º44'08.3"W) e no rio Cajari 
(00º53'24"S, 051º01'12"W). Neste rio, em 22 e 23 de 
maio de 2007, ocorreram avistagens de grupos de 
S. fluviatilis no trecho compreendido entre o Porto 
do Braço (00º36"32.77"S, 052º3'37.04"W) e a foz, no 
rio Amazonas. 


Merece consideração a ocorrência de comunidades 
residentes de S. guianensis ao longo da costa nordeste 
do Estado do Pará (Fig.1). A comunidade da Baía de 
Marapanim foi objeto de estudos de bioacústica, onde 
AzevEDO & VAN SLUYS (2005) realizaram uma 
comparação dos assobios de S. guianensis ao longo 
da sua distribuição no Brasil. Recentemente Emin- 
Lima (2007) apresentou uma ampla caracterização dos 
assobios do boto-cinza, comparando-os com aqueles 
emitidos por uma comunidade de tucuxi, S. fluviatilis, 
no rio Tapajós, oeste do Pará. Os resultados 
mostraram uma grande diversidade nos assobios 
emitidos por ambas as espécies, não sendo possível 
diferenciá-las através dos parâmetros acústicos. Nesta 
região, os grupos de boto-cinza observados variaram 
entre 1 e 60 indivíduos, com uma média de 6,16+7,20 
indivíduos (Emin-Lima et al., 2006). Outra comunidade 
de S. guianensis, residente na Baía do Emboraí, 
município de Augusto Corrêa, foi estudada por TorrEs 
& BEASLEY (2003). 


PantoJA (2001) analisou a dieta de 23 exemplares 
de S. guianensis capturados acidentalmente na 
pesca artesanal da costa paraense e amapaense. 
Os itens alimentares mais frequentes nos conteúdos 
estomacais foram: peixe-espada ou guaravilha 
(Trichiurus lepturus), xarelete (Caranx crysos), 
pescadinha-gó (Macrodon ancylodon), camarão-rosa 
(Farfantepenaeus brasiliensis), camarão-branco 
(Lithopenaeus schimitti), camarão-sete-barbas 
(Xiphopenaeus kroyeri) e lula (Loligo plei. 


Ferrucia (2006) analisou o material osteológico de 
exemplares de S. guianensis e S. fluviatilis 
depositados nas coleções do Instituto Nacional de 
Pesquisas da Amazônia e do Museu Paraense Emílio 
Goeldi, provenientes do estuário do rio Amazonas, 
da Ilha de Marajó e da costa do Amapá. A autora 
realizou análises osteológica, morfológica e 
morfométrica das espécies do gênero Sotalia, 
observando as variações geográficas e levando em 
consideração possíveis áreas de sobreposição. 


384 S.SICILIANO et al. 


Fig.1- Avistagem de botos-cinza (Sotalia guianensis) na Baia de Marapanim, Pará. Foto: Leiliany Moura, LOBio/UFPA. 


>Boto-malhado, costa-quadrada, cabeça-de- 
balde, boto-vermelho [(Inia geoffrensis (Blainville, 
1817)] 


Emin-Lima et al. (2007) reportaram a presença 
regular do boto-vermelho (Inia geoffrensis) na 
Baia de Marajó. A informação prévia de que o 
boto-vermelho era encontrado apenas “nas 
proximidades de Belém” (Best & SiLva, 1989) foi 
atualizada, observando-se ampliação da área de 
ocorrência. Os novos dados coligidos pela equipe 
GEMAM/PIATAM indicaram a presença de 1. 
geoffrensis em ambientes costeiros com 
características flúvio-marinhas (Fig.2), onde os 
indivíduos se encontravam associados a faixas 
de manguezal intermitente na costa leste da Ilha 
de Marajó. A figura 3 ilustra as posições das 
avistagens do boto-malhado na Baía de Marajó, 
como indicado por Emin-Lima et al. (2007). 
Recentemente, no Amapá, efetuaram-se registros 
de avistagens de IT. geoffrensis no rio Maracá 
(00º11'0.7"S, 051º44'08.3'"W), afluente do rio 
Amazonas; no Poço dos Botos, em Itaubal do 
Piririm; e no rio Cassiporé, extremo norte do 
Estado (03º39'45.7"N, 051º11'43.5'W) (L.H. 
Paiva, com. pes.; Prefeitura Municipal de Itaubal 
do Piririm/AP). I. geoffrensis recebe diversas 


denominações comuns na costa leste do Marajó, 
assim como em Abaetetuba, Belém e arredores 
(Mosqueiro e Baía do Sol). Entre as mais citadas 
encontram-se: boto-malhado, costa-quadrada e 
cabeça-de-balde, as quais constituem novas 
denominações regionais para a espécie na 
literatura especializada. 


>Golfinho-nariz-de-garrafa [(Tursiops truncatus 
(Montagu, 1821)] 


Apesar de tratar-se de espécie comum nas Bacias 
de Campos, Santos e Pelotas, o golfinho-nariz- 
de-garrafa (Tursiops truncatus) conta com 
escassos registros na costa norte. O golfinho- 
nariz-de-garrafa foi avistado ao largo da foz do 
Amazonas e na costa do Amapá durante 
monitoramento conduzido em 2001 para 
licenciamento de atividade de exploração de 
petróleo e gás (GEMAM/PIATAM, dados não 
publicados). Um crânio encontrado em Algodoal, 
Maracanã, PA, em 22 de janeiro de 2008, confirma 
a ocorrência de T. truncatus na costa norte. O 
exemplar está depositado na coleção do Setor de 
Mastozoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi 
(MPEG 39465). Na costa do Pará, os golfinhos 
deste gênero são conhecidos como “tuninas”. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 385 


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Fig.2- Avistagem do boto-malhado (Inia geoffrensis) no Rio Paracauari, Soure, Ilha de Marajó, Pará. Foto: Alexandra Costa, 


GEMAM /PIATAM. 


>Golfinho-de-dentes-rugosos [(Steno bredanensis 
(G. Cuvier in Lesson, 1828)|] 


O golfinho-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis) 
estava assinalado para a costa norte do Brasil por 
uma avistagem efetuada em julho de 1998 entre 
São Luís e o Parcel Manoel Luís (J.L.Gasparini, com. 
pes.). Um crânio recolhido em março de 2007 na 
Nha do Passeio, Delta do Parnaíba, Maranhão 
(T.Lima-Junior, PROCEMA/ICEP, dados não 
publicados) e outro crânio recuperado na Vila de 
Fortalezinha, em maio de 2007 (MPEG 38741), 
adicionado de outro proveniente da praia do 
Mupéua, em janeiro de 2008 (MPEG 39464), ambos 
em Maracanã, Pará, confirmaram mais três 
registros de S. bredanensis para a costa norte. Como 
mencionado anteriormente, os pescadores da costa 
paraense, especialmente em Algodoal e 
Fortalezinha, costumam se referir aos golfinhos de 
maior porte como “tuninas”, o que poderia incluir 
S. bredanensis. 


>Baleia-minke-anã (Balaenoptera acutorostrata 
Lacépéde, 1804) 


MAGALHÃES et al. (2007a) registraram pela primeira 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


vez para a costa norte a ocorrência da baleia- 
minke-anã (Balaenoptera acutorostrata), com base 
em um encalhe ocorrido na Praia do Ciumal, 
situada na porção leste da Ilha do Caju, Delta do 
Parnaíba, Maranhão (CEMA 006). Outro espécime 
encontrado na Praia da Melancieira, igualmente 
a leste da Ilha do Caju, adiciona mais encalhe de 
B. acutorostrata para o Maranhão (CEMA 004). 
Tratava-se de um neonato, o que poderia indicar 
uma área de reprodução e cria regular para a 
espécie na costa maranhense. 


(GRANDES CETÁCEOS PELÁGICOS 


>Cachalote (Physeter macrocephalus Linnaeus, 
1758) 


Ramos et al. (2001) listaram o encalhe de um 
cachalote (Physeter macrocephalus) na localidade 
de Colares, Pará, em fevereiro de 2000. A ampliação 
do esforço de monitoramento costeiro nos últimos 
anos resultou na identificação de cinco outros 
encalhes de cachalote na costa norte (CEMA 008, 
009, 012, 042 & MPEG 38464) (Tosr et al. 2006; 
GEMAM/PIATAM, dados não publicados) (Fig.4)). 


386 S.SICILIANO et al. 


Ws00"'s o's00"s 


1005 1005 


Tioos ViDos 


y 1º200"5 


=. e “a 


Fig.4- Cachalote (Physeter macrocephalus) encalhado na praia do Olho D'Água, Ilha de S. Luis, Maranhão, em 2007 (CEMA 
042). Foto: Mariana Santos, PROCEMA/ICEP. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 387 


Em adição, MorEIRA et al. (2004) reportaram a da plataforma continental. A tabela 1 lista os 
avistagem de um grupo composto por três exemplares de P. macrocephalus encalhados na 
indivíduos na Bacia do Pará/Maranhão, em águas costa norte. 


TABELA 1. Registros de mamíferos aquáticos na costa norte do Brasil. 


LISTA DE TOMBO DA COLEÇÃO OSTEOLÓGICA DE MAMÍFEROS AQUÁTICOS DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI, PARÁ 


TOMBO ESPÉCIE LOCAL 

MG 450 Lontra longicaudis Gurupá, PA 

MG 671 Pteronura brasiliensis Oriximiná, PA 

MG 685 Pteronura brasiliensis Portel, PA 

MPEG 1247 Lontra longicaudis Baía do Guajará, PA 
MPEG 1518 Trichechus inunguis Icoaraci, Belém, PA 

MG 4238 Lontra longicaudis Jardim Zoológico 

MG 4239 Pteronura brasiliensis - 

MG 4240 Lontra longicaudis Jardim Zoológico 

MG 4241 Lontra longicaudis Jardim Zoológico 

MG 4242 Lontra longicaudis Jardim Zoológico 

MG 4244 Lontra longicaudis Jardim Zoológico 

MG 4245 Lontra longicaudis Jardim Zoológico 

MG 4246 Lontra longicaudis Jardim Zoológico 

MG 4249 Pteronura brasiliensis - 

MG 4253 Pteronura brasiliensis Jardim Zoológico 

MG 4256 Pteronura brasiliensis Jardim Zoológico 

MPEG 4635 Trichechus manatus Taperinha, Santarém, PA 
MPEG 4636 Trichechus inunguis Rio Ayaya 

MG 4637 Trichechus inunguis Taperinha, Santarém, PA 
MPEG 4638 Trichechus inunguis Rio Ayaya 

MG 4639 Trichechus inunguis Rio Ayaya, Taperinha, Santarem, PA 
MPEG 4640 Trichechus inunguis Rio Curuá 

MPEG 4641 Trichechus inunguis Lago Grande de Mayairú 
MG 5602 Pteronura brasiliensis Taperinha, Santarém, PA 
MG 5603 Pteronura brasiliensis Taperinha, Santarém, PA 
MG 5604 Pteronura brasiliensis Taperinha, Santarém, PA 
MG 5605 Pteronura brasiliensis Rio Ituqui 

MG 5652 Pteronura brasiliensis Taperinha, Santarém, PA 
MG 6491 Trichechus inunguis Jardim Zoológico 

MPEG 6492 Trichechus manatus 

MPEG 6493 Trichechus inunguis 

MPEG 6494 Trichechus inunguis Jardim Zoológico 

MG 6495 Trichechus inunguis 

MG 6512 Pteronura brasiliensis T.F. Amapá 


Continua... 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


388 


MG 6513 
MG 6514 


MG 7239 


MPEG 7902 
MPEG 07959 
MPEG 8796 
MPEG 8796 
MPEG 8797 
MPEG 8845 
MPEG 8864 
MG 8897 
MG 09138 
MP 11298 
MPEG 11838 
MP 12755 
MPEG 21372 
MPEG 22428 
MG 22393 
MPEG 22896 
MPEG 22894 
MPEG 38430 
MPEG 38431 
MPEG 37818 
MPEG 37819 
MPEG 37820 
MPEG 37815 
MPEG 37817 
MPEG 37821 
MPEG 37822 
MPEG 37823 
MPEG 38432 
MPEG 37824 
MPEG 38497 
MPEG 38724 
MPEG 38433 
MPEG 38434 
MPEG 38435 
MPEG 38436 
MPEG 38437 
MPEG 38438 


Pteronura brasiliensis 


Pteronura brasiliensis 
Lontra longicaudis 


Pteronura brasiliensis 


Trichechus inunguis 


Pteronura brasiliensis 
Lontra longicaudis 
Trichechus inunguis 
Lontra longicaudis 
Pteronura brasiliensis 
Trichechus inunguis 
Trichechus inunguis 
Trichechus inunguis 
Trichechus inunguis 
Pteronura brasiliensis 
Trichechus inunguis 
Pteronura brasiliensis 
Pteronura brasiliensis 
Lontra longicaudis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Trichechus manatus 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 


Sotalia guianensis 


S.SICILIANO et al. 


... continuação 


Jardim Zoológico 


Água Branca, Estrada BR 156, Km 345, Município 
de Amapá, AP 


Parque do Museu Paraense Emílio Goeldi 
Rio Trombetas, Oriximiná, PA 

Santa Bárbara, Benevides, PA 

Jardim Zoológico 

Jardim Zoológico 

Xingú, Altamira, PA 


Parque do Museu Paraense Emílio Goeldi 


Rio Guamá, Foz do igarapé Tucunduba, PA 
Rio Tocantins, Cametá, PA 
Parque Zoobotânico MPEG 


Fazenda Nova California, Rio Araguari, AP 


Jardim Zoológico 

Baía de Marapanim, Marapanim, PA. 

Baía de Marapanim, Marapanim, PA. 
Fortalezinha, Maracanã, PA. 

Fortalezinha, Maracanã, PA. 

Fortalezinha, Maracanã, PA. 

Porto dos Pescadores, Salvaterra, I. de Marajó, PA 
Fortalezinha, Maracanã, PA. 

Fortalezinha, Maracanã, PA. 

Fortalezinha, Maracanã, PA. 

Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia do Araruna, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia da Princesa, Algodoal, Maracanã, PA. 
Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia de S. João, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande de Salvaterra, 1. de Marajó, PA. 
Praia Grande de Salvaterra, 1. de Marajó, PA. 
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande de Salvaterra, 1. de Marajó, PA. 


Continua... 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 


MPEG 38439 
MPEG 38440 
MPEG 38726 
MPEG 38441 
MPEG 38442 
MPEG 38443 
MPEG 38444 
MPEG 38445 
MPEG 38446 
MPEG 38447 


MPEG 38448 


MPEG 38449 
MPEG 38450 
MPEG 38451 
MPEG 38452 
MPEG 38453 
MPEG 38454 
MPEG 38455 
MPEG 38456 
MPEG 38457 
MPEG 38458 
MPEG 38459 
MPEG 38460 
MPEG 38461 
MPEG 38462 
MPEG 38463 
MPEG 38464 
MPEG 38465 
MPEG 38487 
MPEG 38727 
MPEG 38466 
MPEG 38467 
MPEG 38468 
MPEG 38469 
MPEG 38470 
MPEG 38471 
MPEG 38472 
MPEG 38473 
MPEG 38474 
MPEG 38475 


Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia fluviatilis 

Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 


Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 


Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 


Sotalia guianensis 


Physeter macrocephalus 


Sotalia guianensis 


Balaenoptera bonaerensis 


Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 


Sotalia guianensis 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


... continuação 


Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 
Ponta do Cururu, Alter do Chão, Santarém, PA. 
Praia do Araruna, Soure, 1. de Marajó, PA. 

Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 

Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 

Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 

Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 

Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 

Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 


Igarapé do Tatu, Praia do Pesqueiro, Soure, I. de 
Marajó, PA. 


Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. 

Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. 

Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. 

Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. 
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. 
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. 
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. 

Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
I. Canela, Bragança, PA. 

I. Romana, Curuçã, PA. 

Rio Muriá, Curuçá, PA. 

Costa do PA-AP. 

Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande de Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA. 


Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA. 


Continua... 


389 


390 


MPEG 38476 
MPEG 38477 
MPEG 38478 
MPEG 38479 
MPEG 38480 
MPEG 38481 
MPEG 38482 
MPEG 38483 
MPEG 38496 
MPEG 38498 
MPEG 38499 
MPEG 38728 
MPEG 38729 
MPEG 38730 
MPEG 38731 
MPEG 38732 
MPEG 38733 
MPEG 38734 
MPEG 38735 
MPEG 38736 
MPEG 38737 
MPEG 38738 
MPEG 38739 
MPEG 38740 
MPEG 38741 
MPEG 38742 
MPEG 38743 
MPEG 38744 
MPEG 38745 
MPEG 38746 
MPEG 38747 
MPEG 38748 
MPEG 38749 
MPEG 38750 
MPEG 38751 
MPEG 38752 
MPEG 38753 
MPEG 38754 
MPEG 38755 
MPEG 38756 
MPEG 38757 


Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Grampus griseus 

Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Steno bredanensis 


Delphinus delphis 


Baleia não identificada 


Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Inia geoffrensis 

Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 


Sotalia guianensis 


S.SICILIANO et al. 


Continua... 


Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA. 

Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA. 

Praia do Turé, Soure, I. de Marajó, PA. 

Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande, Marapanim-PA. 

Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
I. de Marajó, PA. 

I. de Marajó, PA. 

I. de Marajó, PA., la incursão 

Praia da Princesa, Algodoal, Maracanã, PA. 
Praia do Araruna, I. de Marajó, PA. 

Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia do Crispim, Marapanim, PA. 

Praia do Crispim, Marapanim, PA. 

Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. 
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. 
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. 
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. 
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. 
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. 
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. 
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. 
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. 
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. 
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. 
Fazenda Redenção, Monsarás, I. de Marajó 
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. 

Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. 

Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. 

Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. 

Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. 

Coroa do Muriçoca, Baía do Marajó, PA. 

Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 


Continua... 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 


MPEG 38758 
MPEG 38759 
MPEG 38760 
MPEG 38761 
MPEG 38762 
MPEG 38763 
MPEG 38764 
MPEG 38765 
MPEG 38767 
MPEG 38768 
MPEG 38769 
MPEG 38770 
MPEG 38771 
MPEG 387772 
MPEG 38773 
MPEG 38774 
MPEG 38775 
MPEG 38776 
MPEG 38777 
MPEG 38778 
MPEG 38779 
MPEG 38780 
MPEG 38781 
MPEG 38782 
MPEG 38783 
MPEG 38784 
MPEG 38766 
MPEG 39440 
MPEG 39441 
MPEG 39442 
MPEG 39443 
MPEG 39444 
MPEG 39445 
MPEG 39446 
MPEG 39447 
MPEG 39448 
MPEG 39449 
MPEG 39450 
MPEG 39451 
MPEG 39452 


Sotalia guianensis 
Inia geoffrensis 

Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Inia geoffrensis 

Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 


Sotalia guianensis 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


Continua... 


Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 

Praia de Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 

Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 

Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 

Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 

Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 

Praia do Porto, Joanes, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA. 


Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. 


Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia do Crispim, Marapanim, PA. 
Algodoal, Maracanã, PA 

Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA 
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA 
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA 
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA 
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA 
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA 
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA 
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA 
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA 
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA 
Maiandeua, Fortalezinha, Maracanã, PA 
Maiandeua, Maracanã, PA 

Praia do Marco, Maracanã, PA 

lha de Maiandeua, Maracanã, PA 

Nha de Maiandeua, Maracanã, PA 

Barra Velha, Soure, I. de Marajó, PA 

Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA 
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA 
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA 
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA 
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA 
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA 
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA 
Praia do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA 
Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 


Vila do Pesqueiro, Soure, I. de Marajó, PA. 


Continua... 


391 


392 


MPEG 39453 
MPEG 39454 
MPEG 39455 
MPEG 39456 
MPEG 39457 
MPEG 39458 
MPEG 39459 
MPEG 39460 
MPEG 39461 
MPEG 39462 
MPEG 39463 
MPEG 39464 
MPEG 39465 
MPEG 39496 


Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Inia geoffrensis 

Sotalia guianensis 
Sotalia guianensis 
Steno bredanensis 


Tursiops truncatus 


Delphinidae não identificado 


S.SICILIANO et al. 


...continuação 


Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. 
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. 
Caju-una, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. 
Igarapé do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia do Céu, Soure, I. de Marajó, PA. 
Praia Grande, Salvaterra, I. de Marajó, PA. 
Algodoal, Maracanã, PA 

Fortalezinha, Maracanã, PA. 

Algodoal, Maracanã, PA 


Praia do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA 


LISTA DE TOMBO DA COLEÇÃO OSTEOLÓGICA DE MAMÍFEROS AQUÁTICOS DO INSTITUTO ILHA DO CAJU, MARANHÃO 


TOMBO 

CEMA 001 
CEMA 002 
CEMA 003 
CEMA 004 
CEMA 005 
CEMA 006 
CEMA 007 
CEMA 008 
CEMA 009 
CEMA 010 
CEMA 011 
CEMA 012 
CEMA 013 
CEMA 014 
CEMA 015 
CEMA 016 
CEMA 017 
CEMA 018 
CEMA 019 
CEMA 020 
CEMA 021 
CEMA 022 
CEMA 023 
CEMA 024 


ESPÉCIE 
Megaptera novaeangliae 
Balaenoptera edeni 


Balaenoptera edeni 


Balaenoptera acutorostrata 


Sotalia guianensis 


Balaenoptera acutorostrata 


Sotalia guianensis 
Physeter macrocephalus 
Physeter macrocephalus 
Physeter macrocephalus 
Delphinidae 

Physeter macrocephalus 
Sotalia guianensis 
Feresa attenuata 
Sotalia guianensis 
Delphinidae 
Delphinidae 
Delphinidae 

Physeter macrocephalus 
Balaenoptera edeni 
Sotalia guianensis 
Delphinidae 

Physeter macrocephalus 


Steno bredanensis 


LOCAL 

Praia Oceânica, Delta do Parnaíba, MA 
Praia do Ciumal, Delta do Parnaíba, MA 
lha das Canárias, Delta do Parnaíba, MA 
Praia da Melancieira, Delta do Parnaíba, MA 
Praia do Ciumal, Delta do Parnaíba, MA 
Praia do Ciumal, Delta do Parnaíba, MA 
Praia do Mangue Seco, Delta do Parnaíba, MA 
Praia da Baleia, Apicum açu, MA 

Paulino Neves, Barreirinhas, MA 

Paulino neves, MA 

Hlha do Cajual Pereira, Apicum-açu, MA 
Praia de Caburé, Barreirinhas, MA 

Porto da Raposa, São Luís, MA 

Praia do Mangue Seco, Delta do Parnaíba, MA 
Praia do Caolho, São Luis, MA 

Ponta do Mangue, Delta do Parnaíba, MA 
Ribamar, São Luís, MA 

lha do Cajual Pereira, Apicum-açu, MA 
Barreirinhas, Maranhão 

Praia Oceânica, Delta do Parnaíba, MA 
Praia do Guagirú, Barreirinhas, MA 

Praia do Rio Negro, Barreirinhas, MA 
Barreirinhas, Maranhão 


lha do Caju, Delta do Parnaíba, MA 


continua... 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 393, 


CEMA 025 Sotalia guianensis 
CEMA 026 Physeter macrocephalus 
CEMA 027 Sotalia guianensis 
CEMA 028 Sotalia guianensis 
CEMA 029 Sotalia guianensis 
CEMA 030 Sotalia guianensis 
CEMA 031 Sotalia guianensis 
CEMA 032 Sotalia guianensis 
CEMA 033 Delphinidae 

CEMA 034 Sotalia guianensis 
CEMA 035 Physeter macrocephalus 
CEMA 036 Lagenodelphis hosei 
CEMA 037 Sotalia guianensis 
CEMA 038 Sotalia guianensis 
CEMA 039 Sotalia guianensis 
CEMA 040 Sotalia guianensis 
CEMA 041 Sotalia guianensis 
CEMA 042 Physeter macrocephalus 


> Balaenoptera cf. musculus (Linnaeus, 1758)/B. cf. 
physalus (Linnaeus, 1758) 


SICILIANO et al. (2005) assinalaram o encalhe de uma 
baleia de grandes proporções (Balaenoptera cf. 
musculus ou B. cf. physalus) na contracosta da Ilha 
de Marajó no início da década de 1990. 
Recentemente, moradores de Soure relataram que 
o encalhe deste exemplar havia acontecido na Ilha 
do Machadinho, próximo ao Cabo Maguari, Ilha de 
Marajó. Algumas peças ósseas deste exemplar 
encontram-se em exposição nos quiosques da Praia 
do Pesqueiro e no Curtume de Soure. 


>Baleia-de-Bryde (Balaenoptera edeni Anderson, 1879) 


Pelo menos três encalhes da baleia-de-Bryde 
(Balaenoptera edeni) são conhecidos para a costa 
norte. ALMEIDA (1998) reportou um encalhe ocorrido 
na Praia do Ciumal, na porção leste da Ilha do Caju, 
Delta do Parnaíba, Maranhão, em 1991 (CEMA 002). 
MacaLHÃES et al. (2006a) reportaram dois outros 
registros: um para a Ilha das Canárias, Delta do 
Parnaíba, Maranhão, em 1996 (CEMA 003), e outro 
para a Praia Oceânica, Ilha do Caju, em 1999 (CEMA 
020). Os registros conhecidos de baleia-de-Bryde na 
costa norte encontram-se listados na tabela 1. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


... conclusão. 


Cedral, MA 

Hlha do caju, Delta do Parnaíba, MA 
Macacoeira, Primeira Cruz, MA 
Praia Litorânea, São Luís, MA 
Ribamar, São Luís, MA 

Primeira Cruz, MA 

Ribamar, São Luís, MA 

Paulino Neves, MA 

Paulino Neves, MA 

Paulino Neves, MA 

lha do Passeio, Delta do Parnaíba, MA 
Caburé, Barreirinhas, MA 

Praia Litorânea, São Luís, MA 
Paulino Neves, MA 

Ribamar, São Luís, MA 

Praia Litorânea, São Luís, MA 

Olho D'Agua, São Luís, MA 

Olho D'Agua, São Luís, MA 


>Baleia-minke-antártica (Balaenoptera bonaerensis 
Burmeister, 1867) 


O primeiro registro de uma baleia-minke-antártica 
(Balaenoptera bonaerensis) na costa norte ocorreu 
em 9 de janeiro de 2007, no rio Muriá, município 
de Curuçá, Pará. O exemplar adentrou o rio ainda 
vivo, € após sucessivas tentativas de fazê-lo retornar 
ao mar, veio a óbito em 15 de janeiro (Fig.5). 
Tratava-se de um macho adulto de comprimento 
total de 10,37m. O esqueleto encontra-se 
depositado na coleção de Mastozoologia do Museu 
Paraense Emílio Goeldi (MPEG 38487). 


> Baleia-jubarte 
(Borowski, 1781)] 


[(Megaptera novaeangliae 


Um encalhe reportado para a Praia da Pedra do Sal, 
Piauí (SEVERO et al., 2004) e um esqueleto incompleto 
recolhido na Praia Oceânica, Ilha do Caju, Maranhão 
(CEMA 001) (MacaLHÃEs et al. 2005b) representam 
as únicas evidências recentes da presença da 
baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) na costa 
norte. Por outro lado, baleeiros holandeses 
reportaram avistagens e capturas de baleias-jubarte 
ao largo da costa norte brasileira nas primeiras 
décadas do século XX (SLUPER & VAN UTRETCH, 1959). 


394 S.SICILIANO et al. 


a, 


Fig.5- Baleia-minke-antártica (Balaenoptera bonaerensis) encalhada morta em Camará, Marapanim, Pará, em janeiro de 


2007. Foto: Renata Emin-Lima, GEMAM/PIATAM. 


A tabela 1 lista os encalhes reportados de baleia- 
jubarte na costa norte. 


PEQUENOS CETÁCEOS PELÁGICOS 


>Golfinho-de-Risso [(Grampus griseus (G. Cuvier, 
1812)] 


Um crânio e mandíbula (Fig.6) encontrados nos 
Lençóis Maranhenses representaram a primeira 
ocorrência do golfinho-de-Risso (Grampus griseus) 
para a costa norte (SiciLiano & MOREIRA, 1992). Mais 
recentemente, em 23 de fevereiro: de 2007, foi 
registrado um exemplar encalhado vivo na Praia 
Grande de Marapanim, município de Marapanim, 
costa paraense (GEMAM /PIATAM, dados não 
publicados). O exemplar veio a óbito na tarde do 
mesmo dia (Fig.7). A carcaça foi coletada ainda 
fresca em 24 de fevereiro, e o material osteológico 
encontra-se depositado na coleção de 
Mastozoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi 
(MPEG 38480). 


>Baleia-piloto-de-peitorais-curtas (Globicephala 
macrorhynchus Gray, 1846) 


A presença da baleia-piloto-de-peitorais-curtas 
(Globicephala macrorhynchus) na costa norte é 
conhecida através de registros de avistagem ao largo 
da costa maranhense (S. Siciliano, obs. pessoal) e 
na Bacia do Pará/Maranhão (ErBER et al., 2005a). 
Em adição, Asano FiLHo et al. (2004) listaram o 
“chati” (Globicephala sp.) na relação das espécies 
acessíveis as capturas com espinhel pelágico de 
deriva durante pescarias efetuadas na costa norte 
entre outubro de 2000 e setembro de 2002. 


>Orca-pigméia (Feresa attenuata Gray, 1874) 


MacaLHÃES et al. (2006b, 2007) reportaram um 
crânio de orca-pigméia (Feresa attenuata) recolhido 
na Praia do Mangue Seco, Ilha do Caju, Maranhão 
(CEMA 014). Um grupo estimado em 100 orcas- 
pigméias foi registrado por ERrBER et al. (2005b) em 
águas da Bacia do Pará/Maranhão. 


>“Blackfish” não identificado 
SICILIANO et al. (2005) relataram o encalhe de um 


pequeno “blackfish” na praia do Araruna, 
Soure, Ilha de Marajó, Pará, em julho de 2005. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 395 


Fig.6- Crânio e mandíbulas do golfinho-de-Risso (Grampus griseus) registrado nos Lençóis Maranhenses, em 1991 (Siciliano 
e Moreira, 1992). 


] » 
| der 4 
SAW a 


Fig.7- Golfinho-de-Risso (Grampus griseus) encalhado na Praia Grande, município de Marapanim, Pará, em fevereiro de 
2007. Foto: GEMAM/PIATAM. 


nai 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


396 S.SICILIANO et al. 


Pela descrição de pescadores da localidade, poderia 
tratar-se de uma orca-pigméia (F. attenuata) ou 
golfinho-cabeça-de-melão (Peponocephala electra). 
Recentemente, em maio de 2007, um conjunto de 
vértebras lombares e caudais recolhido na praia 
do Mupéua, Fortalezinha, Maracanã, PA (MPEG 
39496), apresentou semelhanças morfológicas com 
Feresa ou Peponocephala, mas ainda aguarda 
identificação definitiva. 


>Golfinho-pintado-pantropical [(Stenella attenuata 
(Gray, 1846)] 


O golfinho-pintado-pantropical (Stenella attenuata) 
foi registrado visualmente durante cruzeiro 
oceanográfico do Navio Oceanográfico Antares em 
julho de 2001, ao largo da costa nordeste do Pará 
(GEMAM/PIATAM, dados não publicados). 


>Golfinho-rotador [(Stenella longirostris (Gray, 1828)] 


Foram reportadas avistagens do golfinho-rotador 
(Stenella longirostris) ao largo da costa norte em 
distintas plataformas de observação (MorENo et al., 
2005; ErBER et al., 2005a). 


>Golfinho-comum (Gênero Delphinus sp. Linnaeus, 
1758) 


Asano FILHO et al. (2004) listaram o golfinho-comum 
(Delphinus sp.) como um dos organismos capturados 
pelo espinhel pelágico derivante na costa norte. De 
acordo com estes autores, cetáceos e quelônios 
representaram apenas 0,2% dos eventos de capturas 
no espinhel pelágico durante pesquisas conduzidas 
no âmbito do Projeto Protuna/CEPNOR. Em maio 
de 2007, um crânio e algumas vértebras de golfinho- 
comum foram recolhidos na Praia do Mupéua, Vila 
de Fortalezinha, Maracanã, Pará, representando o 
primeiro registro osteológico desta espécie para a 
costa norte. O material testemunho encontra-se 
depositado no MPEG sob número 38742. 


>Golfinho-de-Fraser (Lagenodelphis hosei Fraser, 
1956) 


O encalhe vivo de um exemplar de golfinho-de- 
Fraser (Lagenodelphis hosei na Praia do Caburé, 
Barreirinhas, Maranhão, em 5 de agosto de 2006 
constitui o único registro conhecido para essa 
espécie na costa norte (CEMA 036) (Tosi et al. 2008) 
(Fig.8). De acordo com os autores, a carcaça fresca 


do exemplar em questão teria sido utilizada por 
pescadores para consumo e como isca. 


Sirênios |[peixe-boi-da-Amazônia (Trichechus 
inunguis Natterer, 1883) e peixe-boi-marinho 
(Trichechus manatus Linnaeus, 1758)] 


De acordo com Domninc (1981), a costa norte 
apresenta a singularidade da presença de duas 
espécies de peixe-boi: o amazônico (Trichechus 
nunguis Natterer, 1883) e o marinho (T. manatus 
Linnaeus, 1758). Os levantamentos conduzidos 
por Domninc (1981) indicaram que o peixe-boi-da- 
Amazônia (T. inunguis) ocorreria por toda a região 
do estuário amazônico, desde o Amapá até a porção 
continental do Pará, incluindo a Ilha de Marajó e 
as ilhas da costa atlântica. T. manatus apresentaria 
uma distribuição disjunta, aparentemente 
ocorrendo na costa do Amapá, ao norte do Cabo 
Norte, e na região da foz do rio Mearim, Maranhão. 
Segundo aquele autor, o peixe-boi-marinho teria 
sido exterminado na costa atlântica do Pará, e 
estaria ausente na região do Marajó. BEsT & TEIXEIRA 
(1982) revelaram dados sobre a ocorrência do 


Fig.8- Exemplar de golfinho-de-Fraser (Lagenodelphis hosei) 
encalhado na Praia de Caburé, Barreirinhas, Maranhão, em 
2006 (CEMA 036). Foto: PROCEMA/ICEP. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


REVISÃO DO CONHECIMENTO SOBRE OS MAMÍFEROS AQUÁTICOS DA COSTA NORTE DO BRASIL 397 


peixe-boi-marinho na costa do Amapá, 
corroborando informações prévias de DomNING 
(1981), e indicando o status destas populações 
remanescentes. As informações apresentadas por 
aqueles autores indicaram que T. manatus teria 
sofrido intensa caça de subsistência na maior parte 
da costa amapaense. SiciLiano (1991) revelou a 
presença do peixe-boi marinho na região de 
Alcântara, Maranhão, onde foram encontrados 
restos de esqueletos de vários exemplares caçados 
na região. Levantamentos conduzidos entre 1992 
e 1993, desde a foz do Rio Parnaíba (Maranhão) 
até o Oiapoque (Amapá), revelaram a ocorrência 
de T. manatus em distintas regiões da Costa Norte 
(Lima et al., 2000; Luna, 2001). Em resumo, as áreas 
conhecidas de ocorrência regular de peixe-boi 
marinho na costa do Maranhão incluem: 
Alcântara, Baia de S. Marcos; São José de 
Ribamar, Baia de S. José de Ribamar; Baia do 
Tubarão; Axuí, Ilha de Carrapatal; Manuma; Porto 
do Rosa e Humberto de Campos (SiciLiano, 1991; 
Lima et al., 2000; Luna, 2001; PareNTE et al., 2004; 
BoavenNTURA, 2005; MAGALHÃES, Obs. pessoal). Na 
costa do Pará são conhecidos registros da presença 
de T. manatus em Fortalezinha (Ilha de Maiandeua, 
Maracanã), Marapanim, Viseu, e na costa leste da 
Nha de Marajó, em Salvaterra e Soure (Lima et al., 
2000; Luna, 2001; SiciLiano et al., 2006, 2007; 
GEMAM/PIATAM, dados não publicados). Em 
setembro de 2006, três indivíduos de T. manatus 
foram avistados, dois adultos e um jovem, na foz 
do Igarapé dos Tijolos, na costa do Amapá 
(02º06:3:7,23"N, 09093913; WB. P. Xavier; 
com. pessoal.). Registros recentes do peixe-boi-da- 
Amazônia confirmam uma área de possível 
simpatria com o peixe-boi-marinho na costa leste 
da Ilha de Marajó. 

Exemplares de T. inunguis foram assinalados para: 
rio Acuti Pereira, comunidade de Santo Ezequiel 
Moreno, Portel, PA, em 26/01/2008; rio Arari, 
Cachoeira do Arari, PA, em 16/06/2007; praia do 
Salazal, Salvaterra, em 31/01/2008; rio 
Arapiranga, Vigia, PA, em 16/02/2008 (GEMAM / 
PIATAM, dados não publicados). Os exemplares 
de Portel e Salvaterra, ambas fêmeas, mediram 
1,05me 0,98 m, respectivamente. O exemplar de 
Vigia tratava-se de um macho de CT 0,86 m. 
Constituem-se, portanto, de filhotes ainda em fase 
de amamentação. O registro de Cachoeira do Arari 
é notável por tratar-se de uma fêmea grávida, que 
pesou 250 kg e portava um feto de 20 cm no 
momento de sua captura em redes de emalhar no 
rio Arari. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.381-401, abr./jun.2008 


MUSTELÍDEOS 


>Lontra [(Lontra longicaudis (Olfers, 1818)] 


São conhecidos três exemplares de lontra (Lontra 
longicaudis) colecionados no Estado do Pará e 
depositados na coleção do Museu Nacional, Rio de 
Janeiro (MNRJ). Estes exemplares são provenientes 
dos rios Tocantins, alto Tapajós e Xingu (SicILIANO & 
Franco, 2005). A coleção do Museu Paraense Emílio 
Goeldi reúne exemplares de L. longicaudis 
colecionados nas localidades de Baía do Guajará, 
Gurupá e Xingu (região de Altamira), Estado do Pará, 
além de um exemplar oriundo de Água Branca, 
município de Amapá, Estado do Amapá. Lontras (L. 
longicaudis) foram avistadas no estado do Amapá, 
entre 2004 e 2006, no Parque Nacional das 
Montanhas do Tumucumaque (01º35'45"N, 
DZ 29 SW COZ SON,“ 054735"1:5" mise 
01º50'41.29"N, 052º44'28.65"W), na Floresta 
Nacional do Amapá (01º18'07"N, 051º35'17"W; 
01º06'37"N, 051º53'37"W) e na Reserva Biológica do 
Lago Piratuba (05º15'44,36"N, 053º47'9,21"W). 


>Ariranha [(Pteronura brasiliensis (Gmelin, 1788)] 


A coleção do Museu Paraense Emílio Goeldi reúne 
exemplares de ariranha (Pteronura brasiliensis) 
colecionados nas localidades de Santa Bárbara 
(Benevides), Oriximiná, rio Ituqui e Portel, no Estado 
do Pará; e Fazenda Nova Califórnia, rio Araguari, 
Amapá, além de outros sem origem geográfica exata, 
também procedentes do Estado do Amapá. Neste 
Estado, entre os anos de 2004 e 2006, ariranhas (P. 
brasiliensis) foram avistadas no Parque Nacional 
Montanhas do Tumucumaque (01º35'45"N, 
032º29"32"W; 402º11º36/N,/054735"150W Fe 
01º50'41.29"N, 052º44'28.65"W), na Floresta 
Nacional do Amapá (01º18'07"N, 051º35'17"W; 
01S06'3Z0N;. 091253837 W) e naskeserva de 
Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru 
(00º27'18,67"S, 052º42"5.50"W). Na costa do Estado 
do Amapá, em novembro de 2006, dois grupos de 
ariranhas foram registrados na Reserva Biológica 
do Lago Piratuba (05º15'44,36"N, 053º47'9,21"W). 
Informações não documentadas sugerem a 
ocorrência de P. brasiliensis no rio Paracauari, em 
Soure, Ilha de Marajó (P. Carvalho, com. pessoal). 


CONSIDERAÇÕES FINAIS 


O levantamento aqui conduzido revelou a ocorrência 


398 S.SICILIANO et al. 


de 22 espécies de mamíferos aquáticos presentes 
na costa norte do Brasil. A maioria dessas espécies 
corresponde à Ordem Cetacea (baleia, botos e 
golfinhos), com ampla distribuição nas zonas 
tropicais e equatoriais. Revela-se assim uma 
tendência à aproximação da composição e estrutura 
desta comunidade de cetáceos com a fauna 
caribenha. Entretanto, espécies típicas de regiões 
austrais, como a baleia-minke-anã e a baleia-minke- 
antártica, apresentaram na costa norte seu limite 
mais setentrional de ocorrência no Oceano Atlântico. 


Quanto aos sirênios, merece consideração a 
ocorrência de distintos grupos populacionais 
dispersos pelos três estados, ainda sujeitos a caça 
artesanal ou acidentes com equipamentos de pesca. 
Um esforço de avaliação do status destas populações 
de Trichechus spp.deve ser priorizado a curto prazo. 


Por fim, sugere-se uma ampla avaliação das capturas 
acidentais do boto-cinza em toda a costa norte e as 
suas conexões com o comércio de peças anatômicas. 
Um extenso programa de monitoramento destas 
atividades pesqueiras, combinado ao esforço de 
coleta de informações sobre locais de ocorrência e 
realização de práticas educativas poderá garantir a 
sobrevivência destas populações de botos. 


AGRADECIMENTOS 


A João Luiz Gasparini, Paulo Carvalho e Tarcísio 
Lima Junior que gentilmente cederam dados inéditos 
para esta compilação; a Bruno Freitas Xavier, que 
colaborou com avistamentos recentes de peixe-boi 
na costa do Amapá; aos veterinários do Bosque 
Rodrigues Alves, em Belém, Jairo Moura e Doracele 
Alcântara Tuma; a Tomás C.S. Peixoto, que elaborou 
os mapas com as avistagens de Inia geofirensis na 
Baia do Marajó; aos Srs. João Batista Favacho 
Sarmento e Evandro França de Melo, que 
colaboraram com a equipe GEMAM durante os 
monitoramentos de praia; à equipe de campo do 
PROCEMA/ICEP, especialmente Mariana Santos e 
Rafaela Diniz (Universidade Federal do Maranhão); 
a Mariana Serra (Centro Universitário do Maranhão); 
Nathali Ristau, Cristiano Cruz, Aline Teixeira, 
Leonardo de Oliveira (Universidade Estadual do 
Maranhão) e Tarcísio Lima Júnior (Instituto Ilha do 
Caju); à Cetacean Society International. O 
PROCEMA/ICEP foi patrocinado pelo Programa 
PETROBRAS Ambiental. A equipe do GEMAM é 
especialmente agradecida à Dra. Heloisa Vargas 
Borges (Coordenação Projeto Piatam Oceano / 
PETROBRAS/CENPES/PDEDS/AMA) e ao Sr. 


Ronaldo Bezerra (SMS Corporativo /Petrobras) por 
todo incentivo e apoio logístico proporcionado nas 
viagens de campo. Somos igualmente gratos aos três 
pareceristas anônimos e ao Dr. João Alves de Oliveira 
(MNRJ), pelas valiosas sugestões ao manuscrito. 


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Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 
ISSN 0365-4508 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS 
NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS — UBERABA 
(MINAS GERAIS): DIAGNÓSTICO PARA O TURISMO PALEONTOLÓGICO ' 
(Com 20 figuras) 


WELLINGTON FRANCISCO SÁ DOS SANTOS 2º 
ISMAR DE SOUZA CARVALHO 2:* 


RESUMO: O Museu dos Dinossauros foi construído em Peirópolis em 1992 com a função de preservar o 
patrimônio fossilífero do Triângulo Mineiro (Minas Gerais). Desde então, pessoas de diversas partes do Brasil 
e do mundo deslocam-se para a região, em busca da informação gerada pelos achados fósseis. Esta prática 
contínua atraiu instituições e estabelecimentos públicos e privados para Peirópolis. Em consequência, ocorreu 
no espaço local uma intensificação das relações sociais e econômicas. Nesse contexto, o estudo procurou 
obter a percepção dos conhecedores do lugar (população local e as pessoas que possuem algum vínculo com 
a comunidade), referente às transformações sociais, ambientais, culturais e econômicas ocorridas. Deste 
modo, o presente artigo realizou um diagnóstico das necessidades para a implementação de um turismo 
paleontológico sustentável na localidade. Assim, analisou-se a influência das descobertas geológicas e 
paleontológicas na região, e a dinâmica socioeconômica espacial existente em Peirópolis. 


Palavras-chave: Turismo paleontológico. Desenvolvimento socioespacial. Museu dos Dinossauros. 
Patrimônio geológico. 


ABSTRACT: The importance of the Museu dos Dinossauros in the development of the Peirópolis — Uberaba 
(Minas Gerais): diagnostic for paleontological tourism. 

The Museu dos Dinossauros was constructed in Peirópolis in 1992, with the aim to preserve the fossiliferous 
heritage of the Triângulo Mineiro (Minas Gerais, Brazil). Since then, tourists from Brazil and from many parts 
of the world visit the region, searching information about the fossils. This continuous practice attracted 
public and private institutions to Peirópolis. In consequence of this, occurred in the local space a flourishment 
of the social and economic relationships. In this context, this study analyses the perception of the place 
experts (the local population and people who have some knowledge of the community) about the social, 
environmental, cultural, and economical changes. Also, this study observed the necessities for a sustentable 
paleontological tourism in Peirópolis. 


Key words: Paleontological tourism. Socioespacial development. Museu dos Dinossauros. Geological heritage. 


INTRODUÇÃO proteção mais efetiva dos depósitos fossiliferos, 
divulgar aos diferentes segmentos da população a 
importância dos estudos geológicos e 
paleontológicos, e difundir, em diversas escalas de 


atuação, o conhecimento científico. 


O Brasil possui importante acervo de fósseis 
expostos em museus espalhados por todo o país. 
Esses museus são de grande importância para a 


preservação de nosso patrimônio científico, cultural 
e natural. A localização da ampla maioria dos 
museus paleontológicos brasileiros está 
intimamente relacionada à localização dos jazigos 
fossiliferos, ou seja, estão próximos das áreas de 
coleta de fósseis, tendo a função de assegurar uma 


! Submetido em 01 de agosto de 2007. Aceito em 29 de maio de 2008. 
Estudo realizado com apoio do CNPg, proc nº 305780/2006-9. 


A construção de alguns museus paleontológicos 
brasileiros vem alavancando, tanto economicamente 
quanto socialmente, as comunidades às quais estão 
inseridos. Isso se dá devido ao aumento de um 
turismo que busca conhecimentos científicos, 
culturais e educacionais relacionados aos achados 


? Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Departamento de Geologia, CCMN. Av. Athos da Silveira Ramos, s/nº, Cidade Universitária, 


Ilha do Fundão, 21910-200, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 
* E-mail: tonlingeo(Dyahoo.com.br. 
* E-mail: ismar(Dgeologia.ufr).br. 


404 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


fósseis, ou seja, de um turismo que possui como 
finalidade o conhecimento gerado pelo estudo 
paleontológico (CarvaLHo, 2004). 


Nesse contexto, teremos como estudo de caso, o 
bairro rural do Município de Uberaba denominado 
Peirópolis, no Estado de Minas Gerais, que possui 
um sítio paleontológico rico em fósseis de grandes 
vertebrados, como os dinossauros carnívoros e 
herbivoros, que são as principais atrações do local. 
No entanto, não podemos desprezar os fósseis de 
crocodilos, tartarugas (quelônios), sapos (anuros), 
a vasta coleção de fósseis de invertebrados, bem 
como os ovos e fragmentos de ovos de dinossauros. 


Este estudo visa analisar as influências sociais, 
econômicas, ambientais e culturais das descobertas 
geológicas e paleontológicas do Museu dos 
Dinossauros em Peirópolis, ou seja, a relação entre 
a implementação deste objeto geográfico, e as 
transformações ocorridas no espaço local 
associadas ao crescente turismo paleontológico. 


Aspectos como as relações sociais, significado do 
Museu dos Dinossauros para a exploração do 
turismo, o valor histórico e científico dos fósseis 
para a difusão do conhecimento em múltiplas 
escalas, sejam estas locais, regionais, nacionais ou 
globais, possibilitam uma avaliação da relação entre 
a localização do museu e o exercício de suas 
funções. 


OBJETIVOS 


Procurou-se obter informações no decorrer da 
pesquisa, sobre a percepção que os conhecedores 
de Peirópolis possuem das transformações 
ambientais, culturais, econômicas e sociais 
ocorridas na localidade, em consequência da 
instalação do Museu dos Dinossauros. Assim, 
buscou-se a realização de um diagnóstico 
perceptivo dessas modificações, junto à 
comunidade, no intuito de expor as necessidades 
para implementação de um turismo paleontológico 
sustentável em Peirópolis. Nesse contexto, foram 
analisados os seguintes aspectos: 


A. A possível contribuição do turismo paleontológico 
para a geração de emprego e renda no lugar, além 
das prováveis modificações na qualidade de vida 
dos moradores de Peirópolis; 

B. A avaliação do envolvimento da comunidade no 
desenvolvimento e gerenciamento do planejamento 
turístico e, se estão ocorrendo melhorias na parte 
de infra-estrutura para atender a demanda turística; 


C. A relação entre o turismo paleontológico e os 
possíveis impactos gerados no ambiente físico de 
Peirópolis, além da percepção dos conhecedores do 
bairro sobre os efeitos ocasionados na cultura local 
(modos de vida, costumes, valores, crenças, utopias 
e linguagens), através do contato com culturas 
diferenciadas; 

D. A opinião dos conhecedores do lugar sobre as 
possíveis melhorias do espaço, tanto interno quanto 
externo ao Museu dos Dinossauros, a importância 
que o museu representa para a comunidade local e 
para a ciência, a identidade que possuem com 
patrimônio local e a consciência de preservação; 
E. O histórico do Museu dos Dinossauros, o 
contexto histórico de Peirópolis e a geologia da 
região onde está inserido o sítio paleontológico; 

F. Os projetos do Museu dos Dinossauros, os 
diferentes financiamentos destinados a 
manutenção deste, os planos e metas do 
planejamento turístico da localidade e os objetivos 
da futura instalação da Rede Nacional de Pesquisa 
Científica em Paleontologia; 

G. A possível relação da atividade turística em 
Peirópolis com outras atividades econômicas 
existentes. Peirópolis é considerado uma 
comunidade rural, onde muitas pessoas mantêm- 
se trabalhando como agricultores, pecuaristas e 
avicultores. A partir dessa constatação considerar- 
se-á uma possível vivência do turismo no espaço 
rural da localidade. 


TURISMO PALEONTOLÓGICO 


O turismo paleontológico é um tipo específico do 
turismo científico ou ecoturismo, que visa O 
conhecimento da história da vida na Terra e 
realizado em museus, parques, trilhas, rotas e 
escavações, tornando-se importantíssimo como 
uma ligação entre a preservação do patrimônio 
geológico e o desenvolvimento socioeconômico 
regional (ScHWwANKE & SILVA, 2004). 


A Paleontologia é uma ciência que possui como objeto 
de estudo os fósseis, que são os restos de animais e 
vegetais, além das evidências de suas atividades 
(icnofósseis), que ficaram preservados nas rochas. 
A história dos fósseis é também a história da 
migração dos continentes, das mudanças climáticas, 
das extinções em massa, das modificações ocorridas 
na fauna e na flora ao longo do tempo geológico. Os 
fósseis são também importantes para estudos no 
âmbito da geologia econômica, visando à prospecção 
de bens minerais, tais como o carvão, óleo e gás. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 405 


Assim sendo, o objetivo da Paleontologia é o estudo 
de um amplo universo de organismos, como por 
exemplo, bactérias, vegetais aquáticos e terrestres, 
bem como inúmeros vertebrados e invertebrados, 
que foram eternizados nas sucessões litológicas 
(CarvaLHO, 2000). 


O turismo é uma atividade que se enquadra no setor 
terciário da economia (serviços) e pode ser definido 
como fenômeno social, que consiste no deslocamento 
voluntário e temporário de indivíduos ou grupos de 
pessoas que, fundamentalmente por motivos de 
recreação, descanso, crença, cultura, educação, 
saúde, entre outros, saem do seu local de residência 
habitual para outro, gerando múltiplas inter-relações 
de importância social, econômica e cultural (DE LA 
TorrE,1992, apud Barreto, 1995). 


O turismo é muito mais do que uma simples 
atividade econômica, pois envolve relações sociais, 
troca de informações e interação da comunidade 
com o visitante. Observando as características e o 
perfil dos turistas, percebe-se que eles buscam 
locais com características fora do comum, que lhes 
possibilitem o contato direto com o diferente e 
exótico (RODRIGUES, 2000). 


Nesse caso, os fósseis são considerados exóticos e 
fora do comum, por necessitarem de condições 
específicas para se preservarem (rápido 
soterramento, ausência de oxigênio e pouca 
atividade bacteriana) e por não serem encontrados 
frequentemente na natureza. Essa característica 
especial é o que causa imenso fascínio na população 
e na comunidade científica, contribuindo assim 
para o reconhecimento do turismo paleontológico 
como uma prática positiva para o desenvolvimento 
de comunidades portadoras de sítios fossiliferos 
expressivos. 


No entanto, qualquer comunidade que possua 
algum atrativo turístico precisa que este atrativo 
seja muito bem gerenciado pelo poder público e 
pelas iniciativas privadas, considerando-se sempre 
a opinião da população residente. A partir dessa 
análise, percebemos que para ocorrer o verdadeiro 
desenvolvimento de um determinado local, torna- 
se necessário um turismo que possibilite algum 
dinamismo a esse lugar, representado pela geração 
de emprego e renda, além da necessidade de 
investimentos em infra-estrutura adequada para 
atender a demanda turística, o que poderá acarretar 
melhorias na qualidade de vida da população local. 


Torna-se necessário também, que esse turismo não 
descaracterize o ambiente natural, levando a algum 
tipo de degradação ou desfigurando e desprezando 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


a cultura existente. Trata-se de um turismo que 
gere benefícios socioeconômicos para o local, e que 
seja ao mesmo tempo justo, participativo e 
sustentável para a comunidade envolvida. 


Segundo SiLveirRA (2000), o desenvolvimento 
sustentável é definido como aquele que atende às 
necessidades do presente sem comprometer a 
possibilidade das gerações futuras atenderem as 
suas próprias necessidades. Aplicado ao turismo, 
o princípio de sustentabilidade é definido como algo 
que vai além da dimensão ecológica, pois 
compreende também a melhoria das condições 
econômicas e sociais das populações locais e a 
satisfação dos turistas. 


A adoção do conceito de desenvolvimento 
sustentável, aplicado ao turismo, representa 
estratégia válida para se buscar a integração entre 
uso turístico, preservação do meio ambiente e 
melhoria das condições de vida das comunidades 
locais. No entanto, se este conceito não for 
incorporado às políticas e práticas do planejamento 
territorial do turismo em nível local, a 
sustentabilidade será ilusória. Neste caso, torna- 
se essencial um planejamento integrado e 
participativo, no qual tem-se a necessidade do 
envolvimento da comunidade nos processos de 
implementação dos objetivos e metas a serem 
alcançadas e de gestão do território, valorizando 
mais o processo no qual as decisões são tomadas 
em consenso. Envolve, portanto, todos os atores 
sociais, com suas necessidades, responsabilidades 
e interesses. Esse tipo de planejamento difere das 
práticas vigentes, calcadas na imposição de “planos 
turísticos” por burocratas de órgãos públicos. Ele 
exige tempo mais longo na sua proposição, uma 
vez que depende de consultas continuas e de diálogo 
constante com a população local (SiLveira, 2000). 


METODOLOGIA DO ESTUDO 


A metodologia utilizada consistiu em análises de 
dados contidos em acervos bibliográficos, como por 
exemplo, dissertações de mestrado e doutorado, 
monografias, livros e pesquisas na rede 
internacional de computadores. Foi realizada 
também, uma análise do livro de visitas do Museu 
dos Dinossauros, para verificação da frequência, 
origem e número total de visitantes, caracterizando 
assim, o perfil dos mesmos. 


Foi cumprido um trabalho de campo entre os dias 07 
e 14 de fevereiro de 2006. Nesta atividade de campo 


406 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO 


realizaram-se entrevistas com a população de 
Peirópolis (Fig. 1) e com os representantes de 
estabelecimentos públicos e privados da localidade, 
além de pessoas não residentes, mas que possuíam 
algum vínculo com a comunidade, totalizando 100 
entrevistados. Buscou-se a opinião desses 100 
entrevistados como verdadeiros conhecedores das 
modificações ocorridas no lugar, para avaliarmos se 
o turismo paleontológico está sendo, ou poderá ser 
futuramente proveitoso. 


As entrevistas foram realizadas com questões pré- 
estabelecidas abordando aspectos socioespaciais de 
Peirópolis. Os critérios utilizados para a escolha 
destas calcaram-se em temas de interesse de 
comunidade e que possibilitaram uma análise 
quantitativa e qualitativa dos dados. Algumas das 
questões possuíam respostas fechadas, já que neste 
caso a intenção era a obtenção de dados 
quantitativos. No entanto, outras questões eram de 
caráter aberto, na busca de informações qualitativas. 


Neste mesmo período, além destas entrevistas, foram 
realizadas três pesquisas específicas, de caráter 
aberto para obtenção de resultados qualitativos 
sobre o Museu dos Dinossauros, Rede Nacional de 
Pesquisa Científica em Paleontologia e o 


planejamento turístico de Peirópolis. 


Na entrevista com Luiz Carlos Borges Ribeiro, 
Diretor do Museu dos Dinossauros, procurou-se 
obter informações sobre a importância do museu 
na comunidade, o contexto histórico de Peirópolis, 
as diferentes instituições que possuem parcerias 
com o museu, os diferentes financiamentos 
destinados à manutenção deste objeto geográfico, 
a procedência destes investimentos e os futuros 
projetos e eventos para o local (Ap.1). 


Na entrevista com Beethowen Luis Teixeira, um dos 
idealizadores do Museu dos Dinossauros, e 
responsável pela instalação da Rede Nacional de 
Pesquisas Científicas em Paleontologia, buscou-se 
principalmente a obtenção de dados relativos à 
construção da referida Rede de Pesquisas e dos 
diferentes investimentos e projetos (Ap.2). 


No caso do planejamento turístico, foram feitas 
entrevistas, diretamente com Zulema Paixão e Ana 
Raquel de Paiva Olinto, funcionárias da Secretaria 
de Planejamento e Desenvolvimento do Turismo de 
Uberaba e responsáveis pelo planejamento turístico 
em Peirópolis. Buscou-se nessas entrevistas Oo 
conhecimento dos projetos, objetivos, metas e 
estratégias direcionadas à obtenção de um 


Fig.1- Participação de conhecedores de Peirópolis na avaliação sobre o significado do turismo paleontológico para o local 


(07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 407 


planejamento turístico integrado e participativo. 
Iremos assim avaliar, se está ocorrendo o 
envolvimento da comunidade no desenvolvimento 
dos programas necessários para se alcançar um 
turismo auto-sustentável (Ap.8). 


BASES CONCEITUAIS 


O entendimento das relações espaciais e temporais 
geográficas são diferenciadas do entendimento das 
relações geológicas de tempo e espaço, ou seja, O 
tempo geológico tem dimensão distinta da 
temporalidade geográfica, a qual é antropológica. Os 
processos geológicos estão ocorrendo na Terra há 
bilhões de anos e o ciclo de vida de um ser humano 
é infinitamente menor do que esses processos. O 
ser humano consegue enxergar em vida os processos 
de erosão acelerada, os terremotos, algumas 
erupções vulcânicas, porém não consegue visualizar 
a fragmentação de um continente, as amplas 
variações climáticas, as grandes extinções e o 
soerguimento de cadeias montanhosas, que ocorrem 
numa escala temporal de milhões de anos. 


Nesse contexto, para iniciarmos um estudo 
relacionado aos achados fósseis, como meios 
importantes para o desenvolvimento socioespacial 
de uma localidade, temos que estar atentos a essa 
disparidade espaço-tempo, existente entre o ciclo 
de vida de um ser humano e a ocorrência dos 
processos geológicos. Assim, há a necessidade do 
conhecimento da Geologia e Paleontologia da região, 
para o entendimento de que maneira as descobertas 
realizadas agem no imaginário popular. Torna-se 
então possível, uma avaliação das linguagens a 
serem utilizadas nos processos de divulgação 
científica e ensino das ciências geológicas (SANTOS 
et al., 2006). 


Segundo Souza (2000), para se obter o 
desenvolvimento de um determinado local, 
primeiramente temos que diferenciar o conceito de 
desenvolvimento socioespacial do conceito de 
desenvolvimento econômico. O desenvolvimento 
econômico é basicamente o binômio formado pelo 
crescimento econômico e pela modernização 
tecnológica. O aumento da produção de bens e o 
progresso técnico embutido na idéia do 
desenvolvimento econômico são meios associados à 
ideologia do desenvolvimento dominante, podendo 
acarretar um crescimento que se dá à custa de 
taxas ascendentes de degradação ambiental, ou 
no progresso tecnológico que se faz acompanhado 
de desemprego tecnológico e exclusão. O 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


desenvolvimento estritamente econômico pode ocorrer 
sem que, automática ou forçosamente, haja melhoria 
do quadro de concentração de renda ou dos 
indicadores sociais. 


Souza (2000) acredita que, para ocorrer um 
verdadeiro desenvolvimento de uma determinada 
localidade, torna-se necessária uma superação de 
problemas sociais, na qual uma sociedade se torne 
mais justa e legítima para seus membros, ou seja, 
a idéia do desenvolvimento socioespacial supõe 
primeiramente a conquista da felicidade individual 
e coletiva, sem a existência da exclusão social e 
degradação ambiental. 


Nesse contexto, o turismo bem planejado tem sido 
encarado como uma das alternativas para 
minimizar a exclusão social, seja através da 
abertura de novos postos de emprego no setor 
formal, ou oferecendo oportunidades de ocupação 
no setor informal. Integrado a investimentos em 
infra-estrutura turística, esta modalidade 
econômica poderá melhorar a qualidade de vida da 
população local e causar o contentamento dos 
visitantes. O turismo vive das especificidades dos 
lugares, assim temos que confiar na capacidade e 
sabedoria das populações locais na identificação 
de seus problemas e na tentativa de soluções 
originais, com base na sua própria experiência e 
na de outros grupos similares e, desse modo, 
reforçar o lugar na sua expressão identitária, sem 
que isso signifique isolamento (RoDriGuESs, 2000). 


SAntTOS (1996) considera que a ordem global tenta 
impor a todos os lugares uma única racionalidade, 
e os lugares respondem ao mundo segundo os 
diversos modos de sua própria racionalidade. 
Assim, cada lugar é, ao mesmo tempo, objeto de 
uma razão global e de uma razão local, convivendo 
dialeticamente. O lugar é entendido como a porção 
do espaço que tem sentido para a vida, ou seja, é 
onde estão as referências pessoais e os sistemas 
de valores que direcionam as diversas formas de 
perceber e de constituir o espaço geográfico. Cada 
lugar, mesmo globalizado, deve ser único, para dar 
sentido a existência do sujeito e, portanto, do turista 
(Santos, 2001). 


Ampliando esses conceitos, CAnDIDO (2001) 
considera que o turismo jamais possa ser visto como 
a única solução dos problemas econômicos e sociais 
enfrentados por uma comunidade, pois este é um 
dos fatores que fazem com que o destino turístico 
entre em decadência, tornando-se então necessária 
uma inter-relação do setor turístico com as demais 
atividades econômicas existentes no local. 


408 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO 


Se a localidade estiver alicerçada no setor primário 
da economia, objetiva-se, para alcançar uma inter- 
relação do turismo com as atividades rurais, uma 
estruturação das fazendas existentes, como uma 
forma para atrair o turista que possui finalidades 
de conhecer o dia-a-dia de uma propriedade rural. 
Então, tudo o que ocorre no meio rural, com relação 
ao aproveitamento do turismo, pode ser considerado 
como turismo rural, o que poderia ser, mais 
precisamente, denominado de turismo no meio rural. 
As necessidades básicas para a implantação do 
turismo rural calcam-se em uma alimentação 
baseada na cozinha tradicional do lugar e elaborada 
com produtos locais; no oferecimento de atividades 
alternativas de lazer e recreação no entorno da 
propriedade rural; na participação do turista em 
atividades rotineiras (cultivo e colheita, cuidados com 
o gado) ou pelo menos, possibilidade de observação 
além de alojamento em propriedade rural integrada 
a moradia do proprietário (TuLix, 2000). 


De acordo com CAnpiDo (2001) o turista, ao chegar a 
uma comunidade, tem sua atenção voltada para as 
questões histórico-culturais das localidades 
visitadas. Em muitos casos, o turismo é vislumbrado 
por uma comunidade e ansiado de tal forma que a 
grande euforia se traduz em lucro rápido, fazendo a 
comunidade ascender economicamente. Em meio a 
essa euforia, muitas vezes, a comunidade não 
percebe que está deixando seus hábitos e costumes, 
ou seja, seus modos de vida, para melhor atender 
as exigências da população visitante, perdendo 
assim, um dos elementos que atraiu o turista, que é 
a cultura e a história do local. 


Segundo ArcHER & CoorER (2001), as questões gerais 
e centrais, em qualquer discussão dos impactos 
positivos e negativos do turismo, devem incluir 
noções de capacidade de carga. Este é um conceito 
relativamente claro, que se refere a um ponto, além 
do qual, níveis superiores de visitas ou de 
desenvolvimento turístico levariam a uma 
deterioração inaceitável do ambiente físico e da 
experiência do visitante. 


ÁREA DE ESTUDO 


LocaLização E CONTEXTO HISTÓRICO 


O bairro rural Peirópolis está localizado no 
Triângulo Mineiro a aproximadamente 10km de 
Uberaba, no Estado de Minas Gerais (Fig.2). Possui 
população estimada pela pesquisa de campo, de 
aproximadamente 250 habitantes. A localidade foi 


denominada inicialmente de Paineiras, nome da 
estação de uma linha férrea da Companhia 
Mogiana, inaugurada em 1889 pelo Conde D'Eu. 
Depois, o local passou a se chamar Cambará, e 
finalmente em 1º de abril de 1924 recebeu a 
denominação de Peirópolis, em homenagem à 
memória de Frederico Peiró, imigrante espanhol, 
que se instalou na comunidade em 1896 (JornaL 
INFORMATIVO DE PEIRÓPOLIS, 2005). 


Peirópolis, no início do século XX, possuía economia 
voltada para a mineração, mais especificamente 
para a extração do calcário que era exportado por 
via férrea para São Paulo. A produção de cal trouxe 
riqueza e progresso rápido para região. A empresa 
mineradora, na qual um dos sócios denominava- 
se Frederico Peiró, em 1911, contava com duas 
fábricas para a extração de calcário, empregando 
mais de 150 trabalhadores. Durante esse período, 
instalou-se na comunidade uma agência de correios 
e, logo depois, uma escola (Escola Municipal 
Frederico Peiró) que existe até hoje (Peiró, 2006). 


A atividade econômica de Peirópolis entrou em 
decadência devido à desativação do trecho 
ferroviário que era responsável pelo transporte de 
toda a produção de calcário para São Paulo. Muitos 
moradores migraram para outras regiões à procura 
de empregos e melhores condições de vida. Além 
disso, o bairro não possuía políticas públicas 
específicas (entrevista com Luiz Carlos Borges 
Ribeiro, 07/02/2006, informação pessoal). 


O acesso da população local às necessidades 
básicas como saúde, educação, saneamento básico, 
moradia, transporte, eram precárias. O bairro não 
possuía qualidade em infra-estrutura que 
mantivesse os moradores no local. A população 
rural foi praticamente esquecida pelos 
representantes governamentais, acarretando a 
migração de grande contingente dessa parcela da 
população para outras localidades. A mineração 
tornou-se progressivamente mecanizada, 
empregando menor número de trabalhadores 
(SantOS et al., 2006). 


A partir do ano de 1940, a descoberta de fósseis 
em Mangabeira, também bairro do município de 
Uberaba, chamou a atenção do brasileiro Llewellyn 
Ivor Price (Fig.3), geólogo do Departamento Nacional 
de Produção Mineral que trabalhou na região até o 
ano de 1974, falecendo no ano de 1980. Durante 
esse período de coleta foram definidas sete 
localidades com fósseis em torno de Peirópolis, 
sendo cinco delas na Serra do Veadinho (SanTOS ET 
AL., 2006). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 409 


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Fig.2- Localização de Peirópolis, bairro rural do município de Uberaba. Note a indicação da serra do Veadinho, lugar onde 
são encontrados a maioria dos fósseis em Peirópolis (modificado de VasconceLLOS, 2006). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


410 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO 


Fig.3- Fotografia de Llewellyn Ivor Price (1905-1980) com 
um fêmur de titanossauro, oriundo de Peirópolis. 


Fig.4- Visão aérea do Centro de 
Pesquisas  Paleontológicas 
Llewellyn Ivor Price. O Museu 
dos Dinossauros está a 
esquerda, a réplica do 
titanossauro ao centro e o 
alojamento para pesquisadores 
a direita (GiesBRECHT, 2006). 


De maneira ambígua, a extração do calcário, que 
trouxe tantas riquezas para a região, foi responsável 
não só pela descoberta, mas também, pela destruição 
de vários fósseis. A princípio timidamente, a 
comunidade organizou-se e, buscando melhorias na 
qualidade de vida, mobilizou-se através de uma 
organização não governamental, denominada 
Associação dos Amigos do Sítio Paleontológico de 
Peirópolis, criada em 1989, e composta por 
moradores da região, defensores e representantes 
da comunidade científica local e do país. A 
Associação dos Amigos do Sítio Paleontológico de 
Peirópolis possui o objetivo de fiscalizar, promover e 
proteger o sítio paleontológico dentro de sua área 
demarcada em nível municipal, estadual e federal, 
além de conscientizar a comunidade na proteção dos 
depósitos fossilíiferos no município de Uberaba e 
promover o entrosamento entre o conselho 
comunitário para o desenvolvimento rural de 
Peirópolis e a associação em questão, buscando seu 
crescente desenvolvimento (JORNAL INFORMATIVO DE 
PerrÓPoOLIS, 2005). 


A Associação dos Amigos do Sitio Paleontológico de 
Peirópolis teve grande importância durante a 
instalação do centro de pesquisas e, através de ações 
políticas, houve a necessidade de um recurso judicial 
em defesa dos interesses cultural, científico, turístico 
e ambiental de Peirópolis, tendo com isso, a 
mineradora mais próxima do local sido fechada. Com 
a desativação da mineradora, a Prefeitura de Uberaba, 
colocou em funcionamento, em 1992, o Centro de 
Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price (Fig.4), 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 411 


que possui essa designação em homenagem ao 
paleontólogo brasileiro que chefiou as primeiras 
expedições na localidade de Peirópolis (entrevista 
com Luiz Carlos Borges Ribeiro, 07/02/2006, 
informação pessoal). 

Dentro do Centro de Pesquisas Paleontológicas 


Llewellyn Ivor Price funciona o Museu dos 
Dinossauros, criado para mostrar e divulgar ao 
público de uma forma clara e dinâmica os 
importantes achados fósseis da região. O museu 
apresenta atualmente um acervo de mais de 1.500 
fósseis (Fig.5-6). 


Fig.o- Museu dos Dinossauros 
de Peirópolis — Uberaba (MG). 


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Fig.6- Visão interna do Museu 
dos Dinossauros de Peirópolis, 
destacando-se o crocodilo 
Uberabasuchus terrificus e o 
diorama de um titanossauro. 


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412 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


A instituição Centro de Pesquisas Paleontológicas 
Llewellyn Ivor Price também possui equipes de 
escavação fossilifera, com coletas sistemáticas anuais 
por seis meses, únicas neste gênero no país (Figs.7-8). 
O Centro de Pesquisas reúne pesquisadores em 
torno dos achados da região e está instalado no 
prédio da antiga estação ferroviária, preservando 
suas características arquitetônicas originais, em 


Fig.8- Equipe de escavação 
do Centro de Pesquisas 
Paleontológicas Llewellyn Ivor 
Price na serra do Veadinho — 
Formação Marília (Membro 
Serra da Galga). 


estilo inglês, abrigando, como dito anteriormente, 
o Museu dos Dinossauros, e também, um 
alojamento para pesquisadores e um laboratório 
de preparação de fósseis (Figs.9-10). Essa nova 
instituição logo conquistou o interesse dos 
munícipes e passou a ser inserida como um dos 
patrimônios culturais de Uberaba e de Minas Gerais 
(JORNAL INFORMATIVO DE PEIRÓPOLIS, 2005). 


Fig.7- Grupo de estudantes em 
treinamento no afloramento da 
serra do Veadinho - Formação 
Marília (Membro Serra da Galga). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 413 


Fig.9- Alojamento para pesquisadores no Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, em Peirópolis. 


DELOMA 1 
" mm), 


Fig. 10- Laboratório de preparação de fósseis situado no Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, em Peirópolis. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


414 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


AspEcTOS GEOLÓGICOS E PALEONTOLÓGICOS DE PEIRÓPOLIS 


Peirópolis é uma comunidade rural situada no 
Triângulo Mineiro sobre rochas depositadas há 
aproximadamente 70-80 milhões de anos 
(Cretáceo Superior). Essas rochas são 
pertencentes à Bacia Bauru (localizada na parte 
sudoeste do Brasil, atingindo os estados do 
Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato 
Grosso do Sul), mais precisamente ao Grupo 
Bauru, que possui unidades litoestratigráficas 
diferenciadas (Fig.11). Segundo BarceLOS (1984), 
o Grupo Bauru no Triângulo Mineiro inicia-se com 
a Formação Uberaba (restrita ao Triângulo 
Mineiro). Sobreposta a essa unidade 
litoestratigráfica, em contato gradacional, 
interdigitado ou erosivo, encontra-se a Formação 
Marília, que se divide em Membro Ponte Alta e 
Membro Serra da Galga. 


As rochas da Bacia Bauru foram depositadas em 
uma depressão superficial cuja origem está 
associada à carga dos derrames vulcânicos 
eocretácicos da Formação Serra Geral, último 
espisódio de subsidência da Bacia do Paraná 
(FERNANDES, 1998). Segundo BarceLOS (1984), O 
embasamento da Bacia Bauru, na região do 
Triângulo Mineiro é representado pelos derrames 
basálticos da Formação Serra Geral. 


Segundo FERNANDES & ColMBRA (1996, 1999), as 
rochas do Grupo Bauru foram depositadas sob 
um clima semi-árido a árido, em ambientes 
fluviais e de leques aluviais. A região do 
Triângulo Mineiro foi caracterizada por marcada 
sazonalidade climática, na qual longos períodos 
de seca alternavam-se com períodos de chuva 
intensa. Esta sazonalidade influenciou não 
somente os processos sedimentares, mas 
também os ciclos de vida, com a expansão e 
retração de lagos (FERNANDES, 1998; GOLDBERG & 
Garcia, 2000). Esta sazonalidade climática 
ocasionava a morte de grande número de 
espécimes da fauna e flora, resultando em 
verdadeiras catástrofes ecológicas. Segundo 
FERNANDES (1998), no final do Cretáceo existiam 
condições mais favoráveis à vida no Triângulo 
Mineiro; cxatamente-cm. Peirópolis=e no 
noroeste paulista, destacando-se São José do 
Rio Preto, devido à presença de maior quantidade 
de água em relação aos compartimentos mais 
interiores da bacia. 


A paleofauna no município de Uberaba abrange 
diferenciados microfósseis de água doce, algas, 


conchostráceos, ostracodes, carófitas, biválvios 
e gastrópodes (Fig. 12). 


Foram descobertos também ovos e fragmentos 
de cascas de ovos de dinossauros (Fig.13) 
(MezzaLirRA, 1989; CAMPANHA et al., 1992, 1993; 
GarriDO et al., 1992). Encontram-se também 
fragmentos vegetais que constituem a paleoflora 
(Fig.14) (SENRA & SILVA, 1998) e icnofósseis, 
representados por tubos e coprólitos. Esses 
registros fossilíferos estão concentrados 
principalmente no Membro Serra da Galga da 
Formação Marília. 


Contudo, os fósseis de crocodilos, tartarugas e, 
principalmente, dinossauros são os que possuem 
maior destaque nos meios de comunicação, 
projetando o bairro de Peirópolis no cenário 
internacional e acarretando o aumento do 
número de turistas com o objetivo de conhecer 
os diferentes achados da região. O sítio 
paleontológico de Peirópolis é reconhecido pela 
comunidade científica, como o centro mais rico 
em fósseis de dinossauros do Brasil, e o segundo 
da América do Sul, superado apenas pela região 
patagônica, na Argentina. 


Dentre os fósseis de dinossauros encontrados no 
sítio paleontológico de Peirópolis destacam-se as 
centenas de ossos de titanossauros, o maior e 
mais representativo grupo de dinossauros da 
América do Sul. Eram grandes herbívoros 
quadrúpedes, com pescoço e cauda longos. 
Alcançavam em média 15m de comprimento, 5m 
de altura e pesavam aproximadamente 15 
toneladas (Figs.15-16). 


O crocodilo Uberabasuchus terriíficus (CARvALHO et 
al., 2005) é um Crocodilomorpha encontrado em 
Peirópolis, com 70% do esqueleto inteiramente 
preservado. Estima-se, que o animal atingia 
aproximadamente 3m de comprimento e pesava 
cerca de 300kg, encaixando-se no topo da cadeia 
alimentar (Fig. 1'7). 


Outro achado relevante para o local é a tartaruga 
Cambaremys langertoni (França & LANGER, 2005). 
Trata-se do fóssil mais completo de tartaruga 
descoberto em 14 anos de pesquisas em 
Peirópolis (Fig. 18). O fóssil é importante porque, 
além da carapaça quase completa, foram 
preservados os membros anteriores e 
posteriores, permitindo o estudo de importantes 
aspectos de sua vida e ajudando a compreender 
a evolução do grupo ao longo do tempo geológico 
(FRANÇA & LANGER, 2005). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 415 


BACIA BAURU 


LEGENDA 


Sedimentos quaternários 


GRUPO BAURU 


Fm. Marilia 
Fm. Uberaba 


GRUPO CAIUÁ 


Fm. Santo Anastácio 
Fm. Rio Paraná 
Fm. Goio Erê 


0 50  100km 


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Fig.11- Mapa geológico da Bacia Bauru (FERNANDES, 1998). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


416 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


Fig.12- Microfósseis existentes nas formações rochosas do Triângulo Mineiro em Uberaba (MG). (A) Girogonite de alga 


carófita. (B) Ostracode (Dias-Briro ET AL., 2001). 


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Fig.13- Diorama que apresenta os ovos de dinossauros encontrados na região de Uberaba e expostos no Museu dos 


Dinossauros de Peirópolis. 


PERFIL DOS TURISTAS 


A partir da análise do livro de entrada do Museu 
dos Dinossauros, constatamos que este atraiu a 
visitação de aproximadamente 225.000 turistas, 
desde 7/7/1992, oriundos de 1.198 cidades e 40 
países. O museu já recebeu pessoas de diferentes 
estados brasileiros e países, porém percebeu-se 
nitidamente, que a maioria dos turistas são 


estudantes do ensino fundamental, médio e 
superior de diferentes instituições de todo o Brasil. 


Os estados que mais visitaram o Museu dos 
Dinossauros, com exceção de Minas Gerais, são: Rio 
de Janeiro, São Paulo, Goiás, Brasília e Paraná. Os 
visitantes estrangeiros que mais o visitaram são 
oriundos dos Estados Unidos, Argentina e Inglaterra. 
No entanto, esses dados são parciais, pois nem todos 
os visitantes assinam o livro de entrada. 


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A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 417 


Fig.15- Diorama que apresenta 
uma réplica de titanossauro 
exposta no Museu dos 
Dinossauros, Peirópolis. 


Dentre as escolas, podemos destacar as escolas 
municipais de Uberaba, COC/Anglo Ituiutaba, 
Objetivo Araguari, Objetivo Uberlândia e o 
Colégio Fonseca Rodrigues, de Patos de Minas. 
Dentre as Universidades, destacamos a UNITRI 
de Uberlândia; ULBRA de Itumbiara (GO); UFU 
de Uberlândia; UNIFRAN de Franca (SP); 
CESUBE de Uberaba; e UNIUBE também de 
Uberaba. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


Fig.14- Troncos de árvores 
permineralizados do Triângulo 
Mineiro expostos no Museu dos 
Dinossauros, Peirópolis. 


Em Peirópolis, ocorrem alguns eventos com 
finalidade exclusivamente educacional. Dentre 
os eventos que acontecem anualmente, podemos 
destacar a Semana dos Dinossauros. A 13º edição 
deste evento, ocorrido no Centro de Pesquisas 
Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, entre os dias 
03 e 07 de Outubro de 2005, atraiu a presença 
de 6.283 visitantes de 93 escolas, oriundos de 
três estados brasileiros e 19 cidades. 


418 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO 


Fig.1l7- Fóssil do crocodilo 
Uberabasuchus terrificus no 
momento da escavação. 
Atualmente encontra-se exposto 
no Museu dos Dinossauros, 
Peirópolis. 


PERFIL DOS ENTREVISTADOS 


A análise do perfil dos entrevistados é essencial para 
melhor caracterização dos aspectos 
socioeconômicos da localidade. Nesse contexto, 
elaborou-se um questionário para obtenção das 
características pessoais dos conhecedores de 
Peirópolis cujos itens estão expostos na tabela 1. 


Fig.16- Réplica de um 
titanossauro no jardim do Museu 
dos Dinossauros de Peirópolis. 


Os questionamentos da pesquisa realizaram-se 
durante o trabalho de campo, no período 7 a 14 de 
fevereiro de 2006. Foram escolhidas 100 pessoas 
que possuem relações com o local (moradia ou 
vivência), sendo 53% do sexo masculino e 47% do 
sexo feminino. A faixa etária desses indivíduos 
variou entre 16 anos e 80 anos. O gráfico 1 mostra 
a porcentagem da média de idade dos entrevistados. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 419 


Fig.18- Fóssil da tartaruga 
Cambaremys langertoni exposta 
no Museu dos Dinossauros, 
Peirópolis. 


TABELA 1. Itens do questionário que buscam o conhecimento das características pessoais dos conhecedores de Peirópolis. 


DADOS PESSOAIS DOS CONHECEDORES DE PEIRÓPOLIS 


A NOME: 

B IDADE: 

CSEXO: (M) (FP) 

D ESCOLARIDADE: 

E NATURALIDADE: 

F LOCAL DE RESIDÊNCIA: 
G FAIXA SALARIAL: 


H RESIDE EM PEIRÓPOLIS HÁ QUANTO TEMPO: 


Na análise do gráfico 1 observa-se um certo 
equilíbrio de entrevistas entre as pessoas de idades 
de 16 a 55 anos. Não podemos descartar também a 
participação, muito especial, das pessoas entre 56 
e 80 anos de idade, que geralmente são residentes 
por muito tempo em Peirópolis. Assim, foi uma 
amostragem populacional diversificada, que 
possibilitou a opinião de pessoas com diferentes 
estilos de vida e experiências pessoais sobre o 
espaço geográfico de Peirópolis. 

Para termos uma boa caracterização do perfil 
existente na comunidade de Peirópolis, torna-se de 
extrema necessidade, o conhecimento acerca do 
grau de escolaridade desta. Nesse sentido, o gráfico 
2 tem por objetivo mostrar o nível de instrução 
escolar dos entrevistados. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


O gráfico 2 nos mostra que 30% dos entrevistados 
possuem o ensino médio completo. No entanto, 19% 
não terminaram o ensino fundamental, o que pode 
estar associado, entre outras questões, à 
característica da comunidade de possuir sua 
economia baseada nas práticas rurais. Muitos, para 
dedicarem-se na lida com as lavouras e criação de 
gado e aves, abdicaram dos estudos e, geralmente, 
estas são as pessoas mais velhas da comunidade. 


O que se destacou na pesquisa foi a grande 
quantidade de entrevistados que estão cursando 
ou já terminaram o ensino superior, além de 
pessoas que possuem algum tipo de pós-graduação. 
Juntando-se esses três tópicos, vemos que 32% dos 
entrevistados possuem nível de instrução alta, se 
comparados com outras regiões do país. 


420 


W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


Amostra total: 100 entrevistados 


16 - 25 anos 


SA 26 - 35 anos 
36 - 45 anos 


À | 46-55 anos 


[M 56 - 65 anos 


66 - 75 anos 
76 - 80 anos 


Gráfico 1. Faixa etária dos entrevistados em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


1% 


» 


» 
k 


é; 
A 


BEN 


EE 


Amostra total: 100 entrevistados 


Ensino Fundamental incompleto 


CEA 


24 Ensino Fundamental completo 


Ea ! o o 

Ensino Médio incompleto 
Es] Ensino Médio completo 
[MM Superior incompleto 


Superior completo 


Pós-graduação 


Gráfico 2. Nível de escolaridade dos entrevistados em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 421 


Outra questão essencial é sabermos a origem dos 
conhecedores da localidade de Peirópolis, ou seja, 
o conhecimento da naturalidade dos entrevistados. 
No gráfico 3 verifica-se que 52% dos entrevistados 
nasceram em Uberaba, por ser a localidade mais 
próxima à Peirópolis e por possuir hospitais 
públicos e privados. Diversas localidades de Minas 
Gerais foram citadas, destacando-se, com 11%, a 
localidade de Sacramento. Um fato bastante 
curioso, e impossível de não ser percebido, é a 
presença de 5% dos entrevistados que nasceram 
no próprio bairro de Peirópolis através de parteiras, 
pois o local não possui um hospital. Tratam-se das 
pessoas mais antigas da comunidade. 


Um fato também relevante é a presença de 3% dos 
entrevistados que são nascidos na cidade de Nova 
Ponte. Atualmente esta localidade não existe mais, 
devido à construção de uma usina hidrelétrica, 
responsável pela inundação do lugar. Temos 10% 
das pessoas que nasceram em diferentes 
municípios do Estado de São Paulo, além de 4% 
dos entrevistados que nasceram em outros estados, 
como, por exemplo, Rio de Janeiro e Pernambuco. 


A análise da faixa salarial é outro meio importante 
de se obter a caracterização dos conhecedores do 
lugar. Fica nítido na análise do gráfico 4, que mais 
da metade dos entrevistados (54%) ganham entre 
um e dois salários mínimos e meio. Mesmo sendo 


um valor financeiro baixo, podemos intuir um 
equilíbrio entre os salários recebidos. Nesta faixa 
salarial destacamos as pessoas que trabalham no 
centro de pesquisas, na casa de doces, nas lavouras 
e os autônomos. Entre as pessoas que não possuem 
renda enfatizamos os estudantes e as donas de casa. 


Em relação aos que recebem acima de seis salários, 
estão os criadores de avestruz e as pessoas que 
possuem escolaridade universitária (odontólogos, 
professores universitários, administradores de 
empresas, os donos dos estabelecimentos 
comerciais e de serviços locais). 


Pela análise do gráfico 5, que busca o entendimento 
acerca do lugar onde os entrevistados habitam, 
percebemos que 78% dos entrevistados residem em 
Peirópolis. Observamos no gráfico que uma 
expressiva quantidade de pessoas (22%) vivem e 
moram em Uberaba e em outras localidades, porém 
possuem algum tipo de vínculo, seja este 
empregatício, familiar ou afetivo, com o bairro rural 
Peirópolis. Todas foram entrevistadas no espaço 
físico desta localidade e, neste sentido, podem ser 
consideradas conhecedoras do local. 


No gráfico 6 procura-se expor o tempo de residência 
dos entrevistados na comunidade de Peirópolis. 
Desta parte da pesquisa participaram somente as 
78 pessoas que residem no local, não considerando 
os indivíduos que residem em outras localidades. 


Amostra total:100 entrevistados 


A 
ERA 


“4 São Paulo 


a 
Ma 
EN EE 


“4 Nova Ponte (MG) 


Uberaba 


Outras localidades de Minas Gerais 


Sacramento (MG) 


Peirópolis (MG) 


Outros estados brasileiros 


Gráfico 3. Naturalidade dos entrevistados em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


422 


W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


1 salário / 1 salário e meio 


2 salários / 2 salários e meio 


2] Não recebem salário 


RS] Não revelado 
IM 3 salários / 3 salários e meio 
4 salários / 5 salários 


ER e Je 
6 salários / 8 salários 


9 salários / 10 salários 


Amostra total: 100 entrevistados E Acima de 10 salários 


Gráfico 4. Faixa salarial dos entrevistados em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Peirópolis 


meia] 
SA Uberaba 


644 Ponte Alta 


BS] Araxá 
78% 


[MT São Paulo 
Amostra total: 100 entrevistados 


Gráfico 5. Resultado da pesquisa que identifica a residência dos entrevistados (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 


423 


Até 5 anos 
1,70% 

SA 6 - 10 anos 
3,80% 11-15 anos 
15,40% BS] 16-20 anos 
21 - 25 anos 
15,40% 26 - 30 anos 
31-35 anos 
36 - 40 anos 

70% 
? E 41 - 45 anos 
46 - 50 anos 
Amostra total: 78 entrevistados acima de 50 anos 


Gráfico 6. Resultado da pesquisa que identifica o tempo de residência dos entrevistados na comunidade de Peirópolis (07/ 


02/06 a 14/02/06). 


Através de análises do gráfico 6 percebe-se que 
38,0% das 78 pessoas que residem em Peirópolis, 
num total de 30 entrevistados, deslocaram-se 
para a comunidade entre o início do projeto de 
construção do Museu dos Dinossauros, 
finalização das obras para a instalação deste 
objeto geográfico e os dias atuais, ou seja, desde 
1991 até a data de realização do trabalho campo 
(07/02/06 a 14/02/06). O Centro de Pesquisas 
Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, onde está 
localizado o Museu dos Dinossauros, possui 14 
anos de funcionamento. Este resultado pode 
estar associado à abertura de novas frentes de 
emprego e renda em Peirópolis, pois o Museu 
dos Dinossauros é considerado um pólo 
atrativo de novas instituições (públicas e 
privadas) e estabelecimentos (comerciais e de 
serviços), que se fixaram na localidade devido 
as possíveis vantagens econômicas do turismo 
paleontológico. 


Os entrevistados que residem no local entre 16 e 
30 anos (32%), totalizando 25 pessoas, 
possivelmente deslocaram-se para Peirópolis, 
junto com suas famílias, em decorrência, 
principalmente, das atividades rurais que são 
consideradas a base econômica da comunidade. 
Na época, poderiam ser crianças, jovens ou 
adultos, além dos descendentes de gerações mais 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


antigas que residem no local. Nesse período, como 
visto anteriormente, a mineração estava 
tornando-se progressivamente mecanizada, não 
contratando muitos funcionários. 


O restante dos entrevistados (29,5%) totaliza 23 
pessoas que já residem em Peirópolis há mais de 
30 anos e podem ter sido atraídas para a localidade, 
junto com seus familiares, devido principalmente 
aos empregos nas fábricas de extração do calcário 
e também pelas atividades rurais. 


RESULTADOS 


Esta etapa da pesquisa buscou a percepção dos 
entrevistados sobre as transformações sociais, 
econômicas, ambientais e culturais ocorridas no 
espaço geográfico de Peirópolis e, também, sobre 
a importância que o Museu dos Dinossauros 
representa para o local. Através deste diagnóstico 
poderemos desenvolver estratégias de ação que 
oportunizem um melhor aproveitamento do 
turismo paleontológico na localidade, por meio de 
opiniões dos verdadeiros conhecedores das 
modificações ocorridas no lugar. 

Como mencionado, mediante o questionário 


elaborado por meio de pesquisas bibliográficas, 
realizaram-se entrevistas com abordagens diretas 


424 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


aos conhecedores de Peirópolis (07/02/06 a 14/ perguntas direcionadas aos conhecedores de 
02/06). Os resultados serão expostos em tópicos,  Peirópolis. Os itens desta etapa da entrevista estão 
apresentados individualmente, contendo as inseridos na tabela 2. 


TABELA 2 Questionário que busca a percepção dos conhecedores de Peirópolis das transformações sociais, econômicas, 
ambientais e culturais da localidade, bem como, da consciência da preservação do patrimônio local. 


ROTEIRO DE ENTREVISTAS COM OS CONHECEDORES DE PEIRÓPOLIS 


1 O QUE É UM FÓSSIL? 

2 VOCÊ CONHECE O MUSEU DOS DINOSSAUROS? SIM ( ) OU NÃO ( ) 

3 VOCÊ JÁ FOI AO MUSEU DOS DINOSSAUROS? SIM ( ) OU NÃO () 

4 O QUE MAIS LHE AGRADOU NO MUSEU DOS DINOSSAUROS? 

5 O QUE MENOS LHE AGRADOU NO MUSEU DOS DINOSSAUROS? 

6 O QUE PRECISA SER FEITO PARA MELHORAR O MUSEU DOS DINOSSAUROS? 

7 QUAL A MAIOR IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS? 

8 A COMUNIDADE DE PEIRÓPOLIS POSSUI IMPORTÂNCIA NA PRESERVAÇÃO DO MUSEU DOS DINOSSAUROS E 
DOS FÓSSEIS? SIM ( ) OU NÃO ( ) 

9 COMO VOCÊ PODE CONTRIBUIR PARA A PRESERVAÇÃO DO MUSEU DOS DINOSSAUROS E DOS FÓSSEIS? 

10 O FLUXO DE TURISTAS AUMENTOU COM A CRIAÇÃO DO MUSEU DOS DINOSSAUROS? SIM ( ) OU NÃO () 
11 VOCÊ CONSIDERA O TURISMO PALEONTOLÓGICO COMO A PRINCIPAL ATIVIDADE ECONÔMICA DE PEIRÓPOLIS? 
SIM ( ) OU NÃO ( ) 

12 ALÉM DO TURISMO PALEONTOLÓGICO VOCÊ ACREDITA QUE EXISTAM OUTRAS ATIVIDADES ECONÔMICAS 
IMPORTANTES PARA O DESENVOLVIMENTO DE PEIRÓPOLIS? SIM ( ) OU NÃO ( ) 

SE SIM QUAIS SÃO AS OUTRAS ATIVIDADES ECONÔMICAS QUE VOCÊ CONSIDERA IMPORTANTE PARA O 
DESENVOLVIMENTO DE PEIRÓPOLIS? VOCÊ ACREDITA NUMA FUTURA INTER-RELAÇÃO ENTRE O TURISMO 
PALEONTOLÓGICO E A PRODUÇÃO RURAL NA LOCALIDADE? 

13 O CRESCIMENTO DO TURISMO PALEONTOLÓGICO ACARRETA UMA MELHOR DISTRIBUIÇÃO DE RENDA EM 
PEIRÓPOLIS? SIM ( ) OU NÃO ( |) E POR QUE? 

14 VOCÊ ESTÁ SENDO BENEFICIADO ECONOMICAMENTE PELA PRÁTICA DO TURISMO PALEONTOLÓGICO EM 
PEIRÓPOLIS? SIM ( ) OU NÃO ( |) E DE QUE MANEIRA VOCÊ ESTÁ SENDO BENEFICIADO? 

15 COM A IMPLEMENTAÇÃO DO MUSEU DOS DINOSSAUROS OCORREU UM AUMENTO NO NÚMERO DE 
EMPREGOS EM PEIRÓPOLIS? SIM ( |) OU NÃO () 

SE SIM QUAIS SÃO OS ESTABELECIMENTOS LOCAIS QUE MAIS EMPREGAM FUNCIONÁRIOS DE PEIRÓPOLIS? 
16 A POPULAÇÃO DE PEIRÓPOLIS ESTÁ SENDO ENVOLVIDA NO PLANEJAMENTO TURÍSTICO LOCAL? 

SIM ( ) OU NÃO ( ) E DE QUE FORMA? 

17 COM A CRIAÇÃO DO MUSEU DOS DINOSSAUROS OCORRERAM MELHORIAS NA INFRA-ESTRUTURA LOCAL? 
SIM ( ) OU NÃO ( ) 

SE SIM O QUE MELHOROU EM INFRA-ESTRUTURA BÁSICA EM PEIRÓPOLIS APÓS A CRIAÇÃO DO MUSEU DOS 
DINOSSAUROS? 

18 O QUE PRECISA MELHORAR EM INFRA-ESTRUTURA BÁSICA NA COMUNIDADE DE PEIRÓPOLIS? 

19 VOCÊ ACHA QUE COM A CRIAÇÃO DO MUSEU DOS DINOSSAUROS A QUALIDADE DE VIDA DA POPULAÇÃO DE 
PEIRÓPOLIS MELHOROU? SIM ( ) OU NÃO ( ) E POR QUE? 

20 VOCÊ ACHA QUE O AUMENTO DO TURISMO PALEONTOLÓGICO ESTÁ ACARRETANDO ALGUM TIPO DE 
DEGRADAÇÃO NO ESPAÇO FÍSICO DE PEIRÓPOLIS? SIM ( ) OU NÃO () 

SE SIM QUAIS SÃO OS TIPOS DE DEGRADAÇÕES CAUSADAS PELOS TURISTAS NA LOCALIDADE DE PEIRÓPOLIS? 


21 VOCÊ ACHA QUE O AUMENTO DO TURISMO PALEONTOLÓGICO GERA IMPACTOS NEGATIVOS NA CULTURA 
LOCAL? SIM ( ) OU NÃO ( ) E POR QUE? 


PERGUNTAS DIRECIONADAS EXCLUSIVAMENTE 
AOS RESPONSÁVEIS PELOS ESTABELECIMENTOS PÚBLICOS E PRIVADOS DE PEIRÓPOLIS 


22 QUAL O ANO DE CONSTRUÇÃO DESTE ESTABELECIMENTO? 

23 QUANTOS FUNCIONÁRIOS TRABALHAM NESTE ESTABELECIMENTO? 

24 DESSES FUNCIONÁRIOS QUANTOS RESIDEM EM PEIRÓPOLIS E QUANTOS SÃO DE OUTRAS LOCALIDADES? 
25 O MUSEU DOS DINOSSAUROS TEVE ALGUMA INFLUÊNCIA NA CONSTRUÇÃO DESTE ESTABELECIMENTO? 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 425 


IMPORTÂNCIA DA COMUNIDADE NA PRESERVAÇÃO DO MUSEU 
DOS DINOSSAUROS E DOS FÓSSEIS 


Inicialmente, avaliar-se-á a consciência local sobre a 
preservação do patrimônio. Qual a importância que 
o Museu dos Dinossauros representa para Peirópolis 
e, como o conhecedor do lugar poderia ajudar na 
preservação dos acervos fossiliferos? São algumas das 
abordagens que veremos nos tópicos a seguir. 


1. O que é um fóssil? 


Neste tópico, buscou-se que os entrevistados 
externassem seu entendimento sobre o que é um 
fóssil, pois este é o objeto de interesse para o 
turismo paleontológico em Peirópolis. Então, torna- 
se necessário o entendimento deste conceito por 
parte dos conhecedores de Peirópolis. 


Nesse questionamento, percebemos que muitas 
pessoas não entendem de maneira correta o 
conceito de fóssil, porém o associam, na maioria 
das vezes, aos materiais existentes no Museu dos 
Dinossauros. As respostas foram muito 
generalizadas, porém podemos agrupá-las, para 
uma compreensão global do nível de entendimento 
que os entrevistados possuem sobre este conceito. 


Ao se observar o gráfico 7 verifica-se que 22% dos 
entrevistados acreditam que um fóssil seja um osso 
de dinossauro. Apesar do pouco conhecimento dos 


entrevistados sobre o significado de um fóssil, fica 
claro que a entidade “dinossauro” é sinônimo para 
este conceito. 


A maior parte dos entrevistados (32%) associaram 
um fóssil somente a ossos de animais pré- 
históricos, que ficaram preservados nas rochas, na 
qual a parte orgânica foi substituída pelo mineral 
(calcário), ou seja, acreditam que os ossos sofreram 
mineralização. 


Outros entrevistados foram enfáticos e explanaram 
que além dos ossos mineralizados existem também 
os dentes de vários vertebrados, considerados aqui 
como restos de animais (19%). Um número expressivo 
de pessoas (12%) acredita que os fósseis sejam restos 
de animais e vegetais que ficaram preservados nas 
rochas e, entre os vegetais, eles citam os troncos de 
árvores permineralizados do Triângulo Mineiro, que 
também estão em exposição no museu. 


Apenas 5% dos entrevistados deixaram claro que 
fósseis são restos de animais e vegetais, além dos 
vestígios deixados por esses seres vivos durante o 
tempo de vida (icnofósseis), como por exemplo, os 
coprólitos (fezes fossilizadas dos dinossauros) e os 
ovos de dinossauros. Nenhum dos entrevistados 
comentou acerca das pegadas de dinossauros, 
comprovando, dessa forma, que eles associam os 
fósseis com os materiais existentes no Museu dos 
Dinossauros. 


> 
cd 


É 


Amostra total: 100 entrevistados 


32% 


Ossos mineralizados / 


petrificados 
= Ossos de dinossauros 
[ea 


AA 1 1 

5) Restos de animais 

Es] Restos de animais e vegetais 

[MM Restos de animais, vegetais 
e seus vestígios 

Ossos de vertebrados 


Outros 


Não sei 


Gráfico 7. Conceito de fóssil para os entrevistados em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


426 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


Uma parcela de 5% dos entrevistados considera que 
os fósseis são somente os ossos de vertebrados, como 
os de crocodilo, tartaruga e o próprio dinossauro, 
mas não comentaram sobre a mineralização desses 
ossos. Os entrevistados não comentaram, durante 
a pesquisa, da existência de outros fósseis, como os 
gastrópodes, ostracodes, carófitas e conchostráceos, 
o que manifesta o pouco interesse e ou 
desconhecimento acerca de materiais não abordados 
ou enfatizados no Museu dos Dinossauros. 


2. Você já foi ao Museu dos Dinossauros? 


Dentre os entrevistados, todos conhecem o Museu 
dos Dinossauros, no entanto, na análise do gráfico 
8, observa-se que a grande maioria (94%) já o 
visitou, demonstrando a importância deste objeto 
geográfico para a comunidade. 


3. O que mais lhe agradou no Museu dos 
Dinossauros? 


O gráfico 9 reflete a percepção dos conhecedores de 
Peirópolis sobre o que mais gostaram, tanto na 
estrutura interna ou externa ao Museu dos 
Dinossauros. Nesse questionamento, os entrevistados 
só poderiam citar uma opinião referente ao que 
mais os interessou no museu. Tivemos 6% dos 
entrevistados que não participaram desta parte da 
pesquisa, porque ainda não visitaram o museu. 


No tópico Fósseis, do gráfico 9, com 27% das 
indicações, foram agrupadas as opiniões dos 
entrevistados que acreditam na grande valorização 
da comunidade de Peirópolis, através da exposição 
focada principalmente, nos próprios achados fósseis 
da região de Uberaba. Destes entrevistados, quinze 
pessoas citaram o crocodilo Uberabasuchus ternficus 
como o material fossilifero mais interessante no 
museu, devido seu esqueleto estar bastante 
preservado e, também, por ser considerado um 
animal que em sua época de vida estava no topo da 
cadeia alimentar. Um total de sete pessoas citou a 
tartaruga Cambaremys langertoni, pelo fato de ser 
um animal tão pequeno, que viveu há milhões de 
anos, junto a grandes predadores. Um fêmur do 
titanossauro foi também considerado relevante por 
cinco pessoas, devido a sua grandiosidade, 
demonstrando o quão representativos eram esses 
animais no passado geológico da Terra. 


A reforma realizada no Museu dos Dinossauros no 
ano de 2005 foi bastante comentada pelos 
entrevistados, tendo 21% das indicações. Eles 
enfatizaram a beleza das pinturas existentes no 
interior do museu, na qual retratam o paleoambiente 
dos seres que viveram há aproximadamente 70 
milhões de anos. As réplicas do titanossauro 
encontradas no interior e no jardim do Museu dos 
Dinossauros destacaram-se como outra questão 
positiva ressaltada por 13% dos entrevistados. 


94% 


Amostra total: 100 entrevistados 


SASA 
ERA 


Gráfico 8. Porcentagem de entrevistados que já visitaram o Museu dos Dinossauros de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 4277 


Um total de 13% das pessoas mencionou o 
profissionalismo existente no Museu dos 
Dinossauros como a principal característica positiva 
do espaço. Em meio a esse tópico foi aludida a ótima 
recepção dos funcionários que trabalham no local, 
a organização existente na exposição e o difícil 
trabalho de preparação dos fósseis. 


O estudo que resgata as características, os hábitos 
e o paleoambiente de vida dos vertebrados também foi 
mencionado por 8% dos entrevistados. Há perplexidade 
com o conhecimento dos geólogos e paleontólogos em 
reconstituir, de forma muito interessante, a maneira 
como os animais pré-históricos viveram. 


Uma pequena quantidade dos entrevistados, 
chegando a 7% das indicações, crê que tudo o que 
se refere ao Museu dos Dinossauros é extremamente 
interessante e importante. Os ovos de dinossauro 
também foram lembrados, com 5% de citações, pois 
são materiais raros, que nos mostram a forma como 
esses seres se reproduziam no passado geológico. 


4. O que menos lhe agradou no Museu dos 
Dinossauros? 


O gráfico 10 mostra a opinião dos entrevistados 
sobre o que não gostaram ou não acharam 
interessante no Museu dos Dinossauros. O que 
chama bastante atenção é a presença de 39% das 
pessoas acreditando que este objeto geográfico está 
perfeito e que nada precisa ser modificado. Essa é 


uma questão importante, mostrando a aceitação 
que o museu possui na comunidade, na qual a 
população confia na percepção de que não existe 
efeito negativo no espaço físico do local. 


O tema estrutura do museu é bastante amplo, 
abrangendo a opinião de 37% dos entrevistados, sobre 
os efeitos negativos encontrados na estrutura do local. 
Um assunto lembrado por dezesseis entrevistados 
foi a falta de iluminação e, principalmente, de 
ventilação dentro do museu. Um total de sete 
entrevistados mencionou a falta de estruturação do 
Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor 
Price para atender ao turismo paleontológico como 
um efeito negativo e cinco pessoas comentaram da 
necessidade de estruturação do Museu dos 
Dinossauros para atender aos deficientes físicos e 
visuais. Cinco entrevistados citaram a carência de 
guias e monitores especializados, como um efeito 
adverso ao desenvolvimento do turismo paleontológico 
no local e, quatro pessoas falaram da falta de espaço 
interno no Museu dos Dinossauros para expor novos 
fósseis e para o deslocamento dos visitantes. 


A cobrança do ingresso para se ter acesso ao Museu 
dos Dinossauros não agrada 6% dos entrevistados. 
Consideram que os fósseis são patrimônios naturais, 
que pertencem & tregião de Uberaba e 
consequentemente Peirópolis. Nestes entrevistados 
há o sentimento de serem impedidos de visitarem o 
seu próprio patrimônio. 


Amostra total: 100 entrevistados 


Fósseis 


Reforma do Museu dos 


Dinossauros | 
Réplicas do Titanossauro 


SATA 
ERA 
ZA 


Sa 
o 


o 


Profissionalismo 


E 
ÉS 


Estudos do Paleoambiente 


Tudo 


Não opinaram 


a 
TS 
E EN 


Ovos de dinossauros 


Gráfico 9. Relação do que mais agradou aos entrevistados no Museu dos Dinossauros de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


428 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO 


Uma situação inesperada foi que 4% dos 
entrevistados lembraram da tartaruga 
(Cambaremys langertoni) como um efeito negativo 
no museu. Quando perguntados sobre o porque 
da inclusão deste fóssil como um efeito negativo, 
alegaram que era pelo motivo de a tartaruga não 
se tratar de um dinossauro 


Como dito anteriormente, 6% dos entrevistados 
não opinaram, porque ainda não visitaram o 
Museu dos Dinossauros. Um total de 8% dos 
entrevistados teve opiniões diferenciadas da 
maioria das pessoas e, com isso, iremos 
enfatizar algumas dessas opiniões. Como efeito 
negativo no museu, duas pessoas comentaram 
a pouca visibilidade das ferramentas de 
Llewellyn Ivor Price, que é o pioneiro dos 
estudos paleontológicos da região, e seis 
pessoas mencionaram a falta de atenção do 
poder público para com o local. 


5. O que precisa ser feito para melhorar o Museu 
dos Dinossauros? 


No gráfico 11, buscou-se especificar as opiniões 
de cada entrevistado, fora os que ainda não 
visitaram o Museu dos Dinossauros, sobre 
melhorias que possam ser realizadas no local, 
para que os efeitos negativos possam 


desaparecer e permanecer somente os positivos. 
Essa questão funcionou também, como uma 
maneira de estimular aqueles que não vêem 
efeitos negativos no museu, a darem uma opinião 
própria sobre o que pode ser melhorado. 


Com 53% das indicações, a melhoria na estrutura 
do Museu dos Dinossauros foi a mais comentada, 
como sendo de extrema necessidade. Muitas 
pessoas que não acharam efeitos negativos no 
museu concordaram que o que precisa ser 
melhorado é a estrutura física do local. Dentro 
deste tópico, os entrevistados comentaram 
diferentes melhorias que possam ocorrer no local, 
que serão indicadas a seguir. 


Um total de dezesseis pessoas sugeriu a 
ampliação da parte de exposição do Museu dos 
Dinossauros e de deslocamento dos visitantes 
como um futuro efeito positivo. Eles confiam 
numa abundância de fósseis existentes na 
região, o que acarretará um futuro aumento 
dos acervos fossilíferos. Com isso, não terá 
espaço para expor os novos materiais 
encontrados, no atual museu. Percebemos que 
algumas pessoas que não notam efeitos 
negativos no Museu dos Dinossauros 
consideraram a ampliação do espaço interno do 
museu como um tipo de melhoria. 


37% 


Amostra total: 100 entrevistados 


Nada 


Roi 
24 Estrutura do Museu dos 
Dinossauros 


>] Outros 


Não opinaram 


Pagamento de ingresso 


Fósseis 


Gráfico 10. Fatores que menos agradaram aos entrevistados que conhecem o Museu dos Dinossauros de Peirópolis 


(07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 429 


Outro aspecto considerado relevante, é a presença 
de dezesseis entrevistados acreditando que estrutura 
do Museu dos Dinossauros necessita de reformas. 
Estas pessoas crêem que a falta de iluminação e 
ventilação no espaço interno do museu dificulta a 
permanência do público no local, pois é considerado 
abafado e escuro. Então, aconselharam a instalação 
de um sistema de ar refrigerado e de uma 
iluminação adequada, para que o público tenha mais 
conforto durante a visita e possa ter calma para 
apreciar os fósseis. 

A situação da estruturação do Centro de Pesquisas 
Paleontológicas Llewellyn Ivor Price para atender ao 
Turismo Paleontológico, segundo dez entrevistados, 
precisa melhorar urgentemente. Essa parcela reclama 
da falta de uma biblioteca equipada, de banheiros 
públicos, de lanchonetes e de áreas de lazer para 
atender as necessidades dos visitantes. Além disso, 
cinco entrevistados criticaram a estrutura local, pois 
os idealizadores não pensaram nos deficientes físicos 
e visuais que visitam o Museu dos Dinossauros. Neste 
sentido, faltam rampas de acesso ao espaço, além de 
uma escrita especial para que os cegos consigam ter 
acesso ao que o museu intenciona informar. A 
presença de guias e monitores especializados é muito 
importante para que os visitantes entendam as 
disparidades encontradas entre o tempo geológico e 


o Antropológico e, um total de seis pessoas reclama 
da falta desse serviço no Museu dos Dinossauros. 


O tópico entretenimento abrange 13% das referências 
e, segundo os entrevistados, o Museu dos 
Dinossauros é carente de formas e meios de manter 
a atenção dos visitantes. Eles aconselharam a criação 
de aparelhos audiovisuais para instigar a curiosidade 
das pessoas, mostrando filmes que abordem o 
ambiente de vida e as características dos seres pré- 
históricos e, principalmente, dos dinossauros. 


Uma forma de valorização da comunidade de 
Peirópolis se dá através da divulgação intensa da 
região, como também da existência de novos achados 
de fósseis. Juntos, esses dois tópicos englobam 15% 
das citações sobre possíveis melhorias no museu. 


Como vimos anteriormente, a descoberta de fósseis 
se deu na década de 1940. Nessa época, não existia 
um lugar específico em Peirópolis para manter esses 
materiais. Assim, grande parte do acervo fossilífero 
foi enviado para museus paleontológicos de todo o 
Brasil. Nesse contexto, dentro do tópico encontrar 
mais fósseis do gráfico 11, com 8% das citações, um 
total de três entrevistados considera como uma 
importante melhoria para o Museu dos Dinossauros, 
a volta desses achados para o lugar de origem, já 
que agora Peirópolis possui um museu de qualidade. 


53% 


Amostra total: 100 entrevistados 


Melhorar a estrutura do museu 


Saça 
RENA 


Mais entretenimento local 


2») Encontrar mais fósseis 


Rd 
DS 


Maior divulgação do museu 
Verbas públicas e privadas 
Não Opinaram 


Construir mais réplicas 


| * 
Ed E E] E 


Outros 


Gráfico 11. Opinião dos entrevistados sobre possíveis melhorias que possam ser feitas no Museu dos Dinossauros de 


Peirópolis (07/02/06 e 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


430 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


Uma forma de melhorar ainda mais o Museu dos 
Dinossauros é a existência de um poder público ativo, 
que esteja totalmente relacionado com as empresas 
privadas para, juntos, conseguirem verbas que ajudem 
na preservação deste objeto, dos fósseis e na manutenção 
local. Esse tópico recebeu 7% das indicações. 


Uma pequena parte dos entrevistados (3%) 
considera a existência de réplicas de dinossauros, 
como também, dos outros fósseis de vertebrados 
existentes há 70-80 milhões de anos na região de 
Uberaba, uma forma visual importante para atrair 
mais turistas, pois assim, os visitantes podem 
perceber o quão grandiosos eram esses animais. 


Um número pequeno dos entrevistados, totalizando 
3% das indicações, comentou sobre a fachada do 
Museu dos Dinossauros. Um total de duas pessoas 
considera o local pouco atrativo e ultrapassado. Eles 
sugeriram a criação de um novo museu, mais 
moderno, que chame mais a atenção dos turistas. 
Para essa minoria, o local não tem aspecto de um 
centro cultural e de pesquisa. Dentro desses 3% de 
entrevistados, uma pessoa está satisfeita com a 
fachada do Museu dos Dinossauros e considera 
importante a manutenção dessa forma, para 
relembrar o passado de Peirópolis. 


6. Qual a maior importância do Museu dos 
Dinossauros? 


No gráfico 12 analisa-se a principal importância 
do Museu dos Dinossauros de Peirópolis para os 
conhecedores do lugar. Buscamos com essa questão 
um maior entendimento sobre a identidade que a 
população possui com o espaço museológico. A 
grande maioria dos entrevistados, totalizando 60% 
das indicações, não vê o Museu dos Dinossauros 
como sendo importante somente para a preservação 
dos fósseis, eles consideram o museu como uma 
forma essencial para a própria existência da 
comunidade de Peirópolis. 


O bairro de Peirópolis, como dito anteriormente, 
estava decadente, desprestigiado e num processo de 
degradação socioeconômica. As pessoas migravam 
para outras localidades em busca de melhores 
condições de vida, e a inauguração do museu, em 
julho de 1992, foi um novo alento para a economia 
do lugar. Segundo os entrevistados (60%), 
aumentando a atividade turística em Peirópolis, 
aumenta também, o número de empregos e a renda 
local. As pessoas não precisam mais sair da 
comunidade para trabalhar em outros lugares, agora 
é a comunidade de Peirópolis que atrai a vinda de 
pessoas incentivadas pelo aumento do emprego local. 
A importância do museu transcende até mesmo a 
importância científica e o turismo paleontológico é 
uma forma limpa e correta de fazer com que os fósseis 
tenham uma utilização positiva para a comunidade. 


Amostra total: 100 entrevistados 


Atrativo turístico que gera 
emprego e renda 


7 Divulgação e valorização de 
Peirópolis 


Pesquisa e difusão do 
conhecimento científico 


ma] Preservação dos acervos 
fossilíferos 


Gráfico 12. Opinião dos entrevistados sobre a importância do Museu dos Dinossauros de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 431 


A divulgação é a chave do empreendimento e a 
comunidade de Peirópolis possui essa noção. Um 
total de 18% dos entrevistados acredita que 
divulgando a região, como dito anteriormente, o 
número de turistas irá aumentar, contribuindo para 
o aumento da renda e dos empregos na localidade. 
Desse modo, ocorrerá uma imensa valorização da 
área, elevando a qualidade de vida dos moradores. 


O museu é importante porque atrai estudantes e 
cientistas de todo o mundo para a região, além de 
difundir o conhecimento científico em diversas escalas 
de atuação. Essa é a opinião de 16% dos entrevistados, 
que acreditam que a maior importância do museu é 
a cultura exercida por esta forma. Esses entrevistados 
(16%) crêem, também, que com a inauguração da Rede 
Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia, o 
número de pesquisadores interessados nos achados 
fósseis da região terá uma ascensão, acarretando um 
aumento no número de pesquisas, contribuindo para 
a propagação do conhecimento geológico e 
paleontológico. 


Com apenas 6% das indicações, o Museu dos 
Dinossauros teve a sua maior importância calcada 
na preservação dos acervos fossiliferos, que são 
considerados patrimônios culturais, naturais, 
científicos e educacionais. Isso mostra que algumas 
pessoas estão mais sensíveis à necessidade de 
preservação e sabem da importância que os fósseis 


possuem para a ciência. 


7. A comunidade de Peirópolis possui importância na 
preservação do Museu dos Dinossauros e dos fósseis? 


No gráfico 13 analisa-se se a comunidade de 
Peirópolis considera-se importante na preservação 
dos fósseis e do Museu dos Dinossauros. Buscamos 
a opinião dos entrevistados, para que eles informem 
se a comunidade está tendo participação, que pode 
ser tanto direta, quanto indireta, na preservação 
do museu e dos fósseis. 


A maioria dos entrevistados (82%) acha que a 
comunidade possui extrema importância na 
preservação do museu e dos fósseis. Eles acreditam 
que a população está empenhada na conservação 
do local, pois já criaram uma identidade com os 
estudos científicos. A comunidade vive em função 
do museu, que é considerado a forma de 
sobrevivência de muitos dos moradores. Segundo 
os entrevistados (82%), se não existisse o museu, a 
localidade de Peirópolis já teria desaparecido. 


Uma parte dos entrevistados (18%) crê que os 
moradores de Peirópolis não contribuem com a 
preservação do Museu dos Dinossauros. Para esta 
parcela dos entrevistados, a comunidade não possui 
a ideologia da preservação. Eles acreditam, que a 
população não vai danificar o museu, mas também, 
não vão contribuir com a conservação do lugar. 


82% 


Amostra total: 100 entrevistados 


SIM 


NÃO 


Gráfico 13. Resultado do questionamento que enfatiza se a comunidade participa na preservação dos fósseis e do Museu 


dos Dinossauros de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


432 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


8. Como você pode contribuir para a preservação 
do Museu dos Dinossauros e dos fósseis? 


No gráfico 14 analisa-se de que forma cada um dos 
entrevistados pode contribuir para a preservação do 
Museu dos Dinossauros e dos fósseis. Buscou-se uma 
reflexão dos entrevistados de como podem ajudar o 
museu, já que a maioria acredita que a população 
possui grande importância na preservação do lugar. 
A maioria dos entrevistados (28%) contribuiria com 
a preservação do museu, através da divulgação do 
local. Eles acreditam que essa é uma forma 
essencial para atrair mais interessados nos estudos 
fósseis. Dessa forma, o Museu dos Dinossauros se 
torna mais conhecido e alguns empresários irão 
perceber o quão lucrativo pode ser um investimento 
no local. Assim, o museu arrecadará mais verbas, 
para poder estar preservando e coletando um maior 
número de fósseis. 


Uma considerável porcentagem dos entrevistados 
(20%) acredita que a melhor forma de contribuição 
para a preservação do museu e dos fósseis, se dá 
através do respeito às regras impostas pela 
instituição. Dentro dessas regras está a não 
destruição das passarelas de circulação, na parte 
externa do museu; evitar a deterioração do jardim 
existente no local e, principalmente, não degradar 
as colinas, que são as fontes dos acervos fossilíferos, 


ou seja, não degradar o sítio paleontológico. 


Uma boa parte dos entrevistados (18%) acredita que 
a conscientização de adultos e crianças sobre a grande 
importância do museu e dos fósseis é a melhor forma 
de preservação. Eles consideram que trabalhando o 
conceito de preservação com as crianças, através da 
educação básica, é a melhor forma de contribuição. 
Já com os adultos, segundo os entrevistados (18%), 
na maioria das vezes, por já possuírem uma 
identidade com os estudos científicos, estão cientes 
da necessidade de preservação, até porque, alguns 
dependem financeiramente da prática do turismo 
paleontológico. 


Alguns entrevistados (10%) consideraram que o 
trabalho voluntário no museu é a melhor forma de 
contribuição para a conservação do local. Eles 
confirmaram que participam dos eventos que 
ocorrem no museu, como a Semana dos 
Dinossauros, ajudando na limpeza do local, na 
arrumação para receber os visitantes, em especial, 
as crianças e adolescentes de várias escolas do 
Brasil. Também estão dispostos a colaborar em 
futuros trabalhos que possam ser realizados. Um 
total de 10% dos entrevistados acredita que não 
podem contribuir para a conservação do Museu dos 
Dinossauros, por não possuírem tempo, ou por não 
estarem interessados na preservação do local. 


Amostra total: 100 entrevistados 


RAÇA 
ERA 
AA 


a 
da Ma 


Divulgando o museu 
Respeitando as regras 
Conscientizando adultos e 
crianças 

Trabalhando voluntariamente 
Sem contribuições 


Conservando o museu 


Coletando fósseis 


Gráfico 14. Relação das possíveis contribuições de cada entrevistado para a preservação do Museu dos Dinossauros de 


Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 433 


O tópico que aborda a conservação do museu 
abrangeu 8% das citações, porém estes oito 
entrevistados são os funcionários do próprio museu, 
que estão sempre conservando o local, cumprindo 
com suas funções. Já a parte de coleta de fósseis no 
sítio paleontológico de Peirópolis, que recebeu 6% de 
citações, abrange não só as pessoas que trabalham 
no Museu dos Dinossauros (cerca de 15 funcionários), 
como também, outros interessados em desempenhar 
esta função. As pessoas que aceitam trabalhar 
temporariamente nas escavações são financiadas, 
porém não são funcionários fixos do museu. 


EFEITOS ECONÔMICOS GERADOS NA COMUNIDADE DE PEIRÓPOLIS 
ATRAVÉS DO TURISMO PALEONTOLÓGICO 


Antes de abordar os efeitos econômicos da prática 
do turismo paleontológico em Peirópolis, os 
entrevistados foram questionados se o fluxo de 
turistas aumentou com a criação do Museu dos 
Dinossauros. Todas as pessoas responderam que 
o turismo praticamente não existia na localidade 
e, somente com a criação do museu é que esta 
prática econômica foi estabelecida no local. 


1. Você considera o turismo paleontológico como a 
principal atividade econômica de Peirópolis? 


Esta questão busca analisar o entendimento dos 


conhecedores do local sobre a atividade turística em 
Peirópolis e, se eles consideram esta prática como a 
mais relevante, em termos econômicos, da 
comunidade. Esta questão estará explicitada no 
gráfico 15. 


Com 61% das indicações, o turismo paleontológico 
foi considerado como a solução mais viável para o 
desenvolvimento socioespacial da localidade. Estas 
pessoas sabem do potencial que a comunidade 
apresenta, que são os fósseis, e sabem também da 
importância que este estudo representa para a difusão 
do conhecimento e para o desenvolvimento local. 


Já os outros 38% dos entrevistados reconhecem a 
influência positiva do turismo paleontológico no local, 
porém acreditam que as atividades rurais são as mais 
importantes para o desenvolvimento socioespacial de 
Peirópolis. Apenas 1% dos entrevistados não 
respondeu a esta questão. 


2. Além do turismo paleontológico você acredita que 
existam outras atividades econômicas importantes 
para o desenvolvimento de Peirópolis? 


No gráfico 16 buscou-se a percepção dos entrevistados, 
se além do turismo paleontológico existem diferentes 
atividades econômicas na localidade de Peirópolis, 
que também são consideradas importantes para o 
desenvolvimento socioespacial do lugar. 


61% 


Amostra total: 100 entrevistados 


Gráfico 15. Resultado da pesquisa que busca saber dos entrevistados se eles consideram o turismo paleontológico como 
a principal atividade econômica de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


434 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


Com 84% das indicações, os entrevistados crêem que 
existam outras atividades econômicas necessárias 
para o desenvolvimento socioespacial local, que são 
as atividades rurais. Porém, 13% dos entrevistados 
alegam que não estão a par das outras atividades 
consideradas como a base econômica para 
sustentação da comunidade de Peirópolis. Um total 
de 3% dos entrevistados afirmou que o turismo 
paleontológico é a única atividade econômica essencial 
para o desenvolvimento socioespacial de Peirópolis e 
não existem outras atividades econômicas 
importantes para o desenvolvimento local. 


3. Quais são as outras atividades econômicas que 
você considera importante para o desenvolvimento 
de Peirópolis? Você acredita numa futura inter- 
relação entre o turismo paleontológico e a produção 
rural na localidade? 


Desta análise da pesquisa participaram os 84% dos 
entrevistados que consideram a existência de outras 
atividades econômicas importantes para o 
desenvolvimento de Peirópolis. Estes entrevistados 
(84%) estão cientes das características rurais que 
a comunidade possui, além da importância dessas 
atividades para o local. Assim, ocorreram 151 
citações diferenciadas de tipos de atividades rurais 
existentes no espaço físico local, como sendo 
importantes para o desenvolvimento de Peirópolis, 


por 84 entrevistados. 


No gráfico 17 observa-se que dentre as 151 citações 
de tipos de atividades rurais em Peirópolis, a 
agricultura recebeu 55,6% dessas 151 indicações. 
Então, todos os 84 entrevistados consideram a 
agricultura como a prática rural mais expressiva 
do lugar, abrangendo economicamente uma boa 
parte dos moradores de Peirópolis. Atualmente, os 
agricultores reclamam demasiadamente do avanço 
incontrolável das lavouras de cana-de-açúcar e 
estão muito preocupados em perderem a terra para 
os fazendeiros que trabalham com essa 
monocultura. Segundo os agricultores de Peirópolis, 
os plantadores de cana oferecem até três vezes o 
valor real do terreno, para poderem adquirir a terra. 
Essa fatia da população cobra apoio político para 
não ser “obrigada” a vender o “pedaço de chão”. 


A pecuária recebeu 37,1% das 151 indicações e é 
baseada na utilização do gado para o corte e 
produção de leite. A avicultura recebeu 7,3% das 
151 indicações e baseia-se na engorda de aves 
(galinha caipira) e na criação de avestruz. Analisou- 
se com esse resultado que a agricultura é a principal 
atividade rural do lugar, seguida da pecuária e, por 
último, pela criação de aves . 

Todos os 84% dos entrevistados acreditam 
numa futura interligação entre o turismo 
paleontológico com a produção rural em Peirópolis. 


84% 


Amostra total: 100 entrevistados 


SIM 
& NÃO 
NÃO SEI 


Gráfico 16. Resultado da pesquisa que busca saber dos entrevistados se além do turismo paleontológico existem outras 
atividades econômicas importantes para o desenvolvimento de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 435 


Nesse sentido, percebemos que o crescimento do 
turismo em áreas que possuem a base econômica 
calcada no setor primário, como é o caso de Peirópolis, 
pode ter o seu impacto mais significativo. Em 
Peirópolis, uma grande parte da população vive da 
agricultura, pecuária e avicultura, e o possível 
envolvimento desse segmento populacional na 
indústria do turismo poderá acarretar em acréscimo 
na renda familiar bastante grande em termos relativos. 


4. O crescimento do turismo paleontológico acarreta 
uma melhor distribuição de renda em Peirópolis? 


O gráfico 18 indica se o crescimento do turismo 
paleontológico em Peirópolis está de alguma forma, 
acarretando uma melhor distribuição das riquezas 
no bairro, de acordo com a percepção dos 
conhecedores do lugar. A imensa maioria dos 
entrevistados (82%) confia que em Peirópolis está 
ocorrendo uma melhor distribuição da renda devido 
a criação do Museu dos Dinossauros, o qual atrai 
diversos visitantes para conhecer os achados fósseis 
da região. De acordo com esses entrevistados (82%), 
o turista, quando chega a Peirópolis, além de apreciar 
o museu, vai conhecer a Toca dos Dinossauros 
(restaurante) e alguns pernoitam na Colônia dos 
Dinossauros (pousada), pois se encantam com o 
ambiente agradável do lugar. A maioria deles visita a 
casa de doces para adquirir um doce típico da região 
e, também, compram lembranças no Dinoshop (loja 


de souvenires), localizado no Museu dos Dinossauros. 


Porém, segundo esta parcela dos entrevistados (82%), 
não são só os setores de comércio e serviços que 
ganham com essa prática, mas também toda a 
população de Peirópolis, pois aumenta o número de 
empregos nestes estabelecimentos, para atender à 
demanda turística. Então, todos de alguma forma estão 
se beneficiando economicamente com esta prática. 


Uma parcela dos entrevistados (18%) acredita que a 
renda gerada pela atividade turística em Peirópolis 
está concentrada nos empreendedores, ou seja, os que 
possuem estabelecimentos comerciais e de serviços. 
Eles acreditam que a grande maioria da população 
não está sendo beneficiada economicamente por esta 
prática, pois não trabalham diretamente com o 
turismo, já que a comunidade possui a base 
econômica voltada para as atividades rurais. 


>. Você está sendo beneficiado economicamente pela 
prática do turismo paleontológico em Peirópolis? 


No gráfico 19 cada um dos entrevistados foi 
questionado se estava sendo beneficiado 
economicamente pela prática do turismo 
paleontológico. Além desta constatação, buscaremos 
entender através de análises qualitativas, de que 
maneira, tanto diretamente quanto indiretamente, 
algumas destas pessoas estão sendo favorecidas por 
esta modalidade econômica. 


55,60% 


Amostra total: 84 entrevistados e 151 citações 


Agricultura 


[EA] pis 
24 Pecuária 


Avicultura 


cl di 


A 


F| 


a 


Gráfico 17. Resultado da pesquisa que procura saber dos entrevistados quais são as outras atividades econômicas 
consideradas importantes para o desenvolvimento de Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


436 W.F.S.SANTOS & I[.S.CARVALHO 


82% 


Amostra total: 100 entrevistados 


Gráfico 18. Resultado da pesquisa que busca saber dos entrevistados se está ocorrendo uma distribuição de renda equúitativa 
em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Amostra total: 100 entrevistados 


Gráfico 19. Resultado da pesquisa que procura saber se os entrevistados estão sendo beneficiados economicamente pela 
prática do turismo em Peirópolis (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 437 


Analisando o gráfico 19 observamos que 53% dos 
entrevistados consideram-se como sendo 
beneficiados economicamente pela atividade 
turística em Peirópolis. Entre estas pessoas, que 
estão envolvidas diretamente na prática do turismo, 
destacamos aquelas que trabalham no Centro de 
Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, 
desenvolvendo diversos tipos de atividades. Dentre 
as ocupações existentes no interior do Centro de 
Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price 
destacamos a de serviços gerais, vigia, guia 
turístico, servente, auxiliar administrativo, técnico 
em contabilidade, preparador de fósseis e na coleta 
de fósseis nas escavações. Enfatizamos também, 
as pessoas que trabalham na casa de doces e na 
Fundação Peirópolis. 


Uma boa parte desses 53% dos entrevistados, que 
estão envolvidos diretamente com o turismo 
paleontológico trabalha, na Toca dos Dinossauros 
(restaurante), na Colônia dos Dinossauros 
(pousada) e no Jurassic Bar (lanchonete), além dos 
representantes destes estabelecimentos. Alguns são 
autônomos, por exemplo, os vendedores de côco, 
artesanatos, mel e lanches. Os que estão envolvidos 
indiretamente são aqueles que possuem familiares 
(pai, mãe, irmãos e cônjuges) trabalhando nessas 
atividades formais e informais, e que contribuem 
na renda familiar. 


As pessoas que não têm dependência econômica 
pela prática do turismo paleontológico em Peirópolis 
(47%) dividem-se naquelas que trabalham na 
Escola Municipal Frederico Peirô, os funcionários 
do Harambé (comunidade de repouso para idosos), 
os agricultores, pecuaristas, avicultores, além dos 
autônomos que não possuem vínculos diretos com 
o turismo, como os pedreiros, pintores e 
carpinteiros. Então, 47% dos entrevistados não se 
sentem beneficiados economicamente pela atividade 
turística em Peirópolis. 


As questões sobre os favorecimentos diretos, 
indiretos ou o não beneficiamento dos entrevistados 
pela prática turística são complicadas de se analisar 
quantitativamente. Um exemplo são as mulheres da 
localidade de Peirópolis que trabalham na casa de 
doces, que está inserida no interior do Centro de 
Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, mas 
que complementam a renda familiar exercendo 
outras funções, como por exemplo, servente, 
faxineira, cozinheira e secretária, até mesmo na 
Escola Municipal Frederico Peiró que é uma 
instituição de ensino público, que não possui 
vínculos com o turismo paleontológico. Outro 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


exemplo baseia-se em alguns trabalhadores rurais, 
que complementam a renda familiar coletando fósseis 
durante a época de poucas chuvas em Uberaba, 
exercendo então, uma função que não está 
relacionada ao turismo paleontológico e outra com 
totais vínculos com esta prática. Neste sentido, torna- 
se difícil a interpretação do número exato das pessoas 
que estão ou não sendo beneficiadas economicamente 
por esta prática. Porém, a porcentagem dos 
entrevistados que se sentem ou não beneficiados pelo 
turismo paleontológico tornou-se uma maneira mais 
correta de analisar esta questão. 


Podemos perceber, através desses resultados, que 
a maioria dos entrevistados estão sendo 
beneficiados, tanto diretamente quanto 
indiretamente, pela atividade turística em 
Peirópolis. Isso nos mostra que esta modalidade 
econômica já abrangeu grande parte da população 
local e que esta estimativa só tende a crescer, com 
a inserção da comunidade nos projetos turísticos 
em desenvolvimento para a região. 


6. Com a implementação do Museu dos 
Dinossauros ocorreu um aumento no número de 
empregos em Peirópolis? 


No gráfico 20 analisaremos se os entrevistados 
consideram se está ocorrendo um aumento no 
número de empregos em Peirópolis alicerçados pela 
criação do Museu dos Dinossauros e pelo aumento 
do turismo paleontológico. 


Percebemos nitidamente, que a imensa maioria dos 
entrevistados (88%) concordam, que após a criação 
do Museu dos Dinossauros, o número de empregos 
para atender à população de Peirópolis cresceu 
bastante. Como analisado no decorrer do trabalho, 
a comunidade estava em decadência com a migração 
de moradores para outras localidades à procura de 
empregos, acarretando um quase desaparecimento 
do lugar. Segundo os 88% dos entrevistados, o 
Museu dos Dinossauros foi o agente catalisador das 
ações para agregar outros grupos e outras 
instituições no espaço geográfico de Peirópolis. 

Um total de 10% dos entrevistados acha que o 
emprego em Peirópolis não está aumentando. Eles 
alegam que o número de empregos cresceu bastante 
durante um certo período, porém atualmente as 
pessoas estão procurando emprego na localidade e 
não estão encontrando, pois todas as vagas já estão 
ocupadas. Eles acreditam que está ocorrendo 
estagnação no número de empregos em Peirópolis. 
Apenas 2% das pessoas não souberam opinar sobre 
essa questão. 


438 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


7. Quais são os estabelecimentos locais que mais 
empregam funcionários de Peirópolis? 


No gráfico 21 analisou-se quais são os 
estabelecimentos comerciais e de serviços, além das 
instituições públicas, considerados pelos 
entrevistados como os que mais empregam 
funcionários em Peirópolis. Nessa parte da pesquisa 
participaram os 88% dos entrevistados que acreditam 
que o número de empregos aumentou após a criação 
do Museu dos Dinossauros. Esta questão foi 
totalmente aberta e as pessoas puderam citar 
diferentes tipos de estabelecimentos em uma só 
pergunta. Nesse caso, entre os 88% dos entrevistados 
ocorreram 187 citações diferenciadas e, dentro dessas 
187 citações, buscaremos analisar quais 
estabelecimentos foram mais vezes mencionados. 


Dentre as 187 citações de estabelecimentos 
comerciais e de serviços, o Museu dos Dinossauros, 
que possui 14 anos de existência, recebeu 28,4% 
das indicações, e é reconhecido como o que mais 
emprega funcionários em Peirópolis. Cerca de 15 
funcionários possuem trabalho fixo no museu em 
diversas funções e todos residem na comunidade. 
Além disso, como visto antes, em época de coleta 
de fósseis, trabalhadores temporários são 
contratados para ajudarem na escavação. 


A Toca dos Dinossauros (restaurante) possui seis 


anos de existência e, embora a maioria de seus 
funcionários seja de universitários de Ponte Alta e 
Uberaba, recebeu 21,4% das 187 indicações. Além 
de serviços gastronômicos, ocorrem atividades de 
recreação relacionadas ao ecoturismo, tais como 
trilha, rapel, caminhadas, trekking e tiroleza. Em 
entrevista com José Carlos da Silva, responsável 
pelo restaurante, verificou-se que há a contratação 
de cerca de 17 funcionários. 


O Jurassic Bar (lanchonete) recebeu 9,6% das 187 
indicações e, em entrevista com Marcelo Menezes 
Resende, responsável pelo estabelecimento 
comercial, constatamos que o local contrata apenas 
quatro funcionários e todos são de Peirópolis. Este 
estabelecimento possui três anos de existência e 
foi construído em função do aumento do turismo 
no local. A casa de doces, que recebeu 5,9% das 
indicações, possui 15 funcionárias e funciona no 
espaço do Centro de Pesquisas Paleontológicas 
Llewellyn Ivor Price. 


A Colônia dos Dinossauros (pousada) possui parceria 
com a Toca dos Dinossauros (restaurante), pois os 
dois estabelecimentos são administrados por um 
mesmo grupo familiar. Esse local oferece o serviço 
de hospedagem ao turista e recebeu 5,9% das 187 
indicações. Contrata cerca de quatro funcionários e 
foi construída exclusivamente para atender ao fluxo 
de visitantes possuindo um ano de funcionamento. 


88% 


Amostra total: 100 entrevistados 


SIM 
NÃO 
NÃO SEI 


Gráfico 20. Resultado da pesquisa que busca saber dos entrevistados se está ocorrendo o aumento do número de empregos 
em Peirópolis através da criação do Museu dos Dinossauros (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 


As atividades rurais, que receberam também 5,9% 
das 187 indicações, envolvem a prática da 
agricultura (lavouras de milho, arroz, soja, cana), 
pecuária e avicultura (engorda de aves e criação de 
avestruz), na qual estas atividades são consideradas 
a base econômica de Peirópolis. Algumas fazendas 
são mantidas por grupos familiares e outras 
contratam funcionários da própria comunidade, 
como também, de Uberaba e Ponte Alta. 


O Harambé é uma comunidade biossocial dedicada 
aidosos, que tem por finalidade utilizar a prática dos 
valores humanos, oferecendo métodos para elevar o 
bem-estar dos aposentados. É um projeto da 
Fundação Peirópolis, monitorada pelo Ministério 
Público. Neste local existem represas, pomares, 
hortaliças e plantas medicinais em parceria com a 
Fiocruz. O Harambé recebeu 5,3% das 187 indicações 
e, em entrevista com Marília Rocha do Nascimento, 
administradora do local, constata-se que o Harambéê 
contrata cerca de 20 funcionários, na qual a maioria 
pertence a Uberaba, mas também são contratados 
residentes de Peirópolis. Os funcionários trabalham 
construindo as casas para a moradia dos idosos, no 
horto, na manutenção do jardim, além da existência 
de faxineiros, cozinheiras e lavadeiras. 


A Escola Municipal Frederico Peiró, que recebeu 
4,8% das 187 indicações foi criada em 1910, para 
ser frequentada pelos filhos dos trabalhadores das 


439 


duas fábricas de calcário existente no local, pela 
população do lugar e das fazendas vizinhas. Em 
entrevista com Cristina Maria Borges, diretora da 
escola, percebeu-se que esta instituição pública 
possui cerca de 200 alunos e instrução até a 8º 
série do ensino fundamental. Desses alunos, 40 são 
da própria comunidade de Peirópolis. Os 
funcionários da instituição totalizam 38 pessoas e 
desses 16 são de Peirópolis. 


A Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia 
recebeu 4,8% das 187 indicações e, como abordado 
anteriormente, será um novo centro de pesquisas 
paleontológicas. Ainda em construção, emprega cerca 
de 15 funcionários até o momento. A maioria desses 
trabalhadores é de Uberaba e Ponte Alta. 


A Fundação Peirópolis é uma instituição sem fins 
lucrativos, religiosos ou políticos, fundada há 10 
anos. Trabalha divulgando idéias e ações baseadas 
na não violência, ação correta, verdade, paz e o 
amor. Possui uma sede em São Paulo e outra em 
Peirópolis. Em Peirópolis, segundo Claudete 
Mariana Fenerich, administradora do local, esta 
instituição contrata sete funcionários, sendo cinco 
residentes da própria comunidade. Esta instituição 
também está associada ao turismo paleontológico. 
O outro estabelecimento citado, com 3,2 % das 187 
indicações, é o Posto de Saúde, que contrata apenas 
dois funcionários de Peirópolis. 


3,20% 
4,80% 


28,40% 


2 


Amostra total: 88 entrevistados e 187 citações 


Museu dos Dinossauros 


Toca dos Dinossauros 
Jurassic Bar 

Casa de doces 

Colônia dos Dinossauros 
Atividades rurais 

“1 Harambê 

Escola Municipal F. Peiró 
Rede N. P. C. em Paleontologia 
Fundação Peirópolis 
Posto de Saúde 


Gráfico 21. Relação dos estabelecimentos que os entrevistados consideram que mais empregam funcionários em Peirópolis 


(07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


440 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO 


Podemos observar que os entrevistados não têm a 
percepção correta de quais são os locais públicos 
ou privados, que contratam mais funcionários da 
própria comunidade. Temos, então, uma 
discrepância entre a visibilidade e a verdadeira 
empregabilidade existente no lugar. 


Como exemplo desta disparidade, citamos a casa 
de doces que emprega 15 moradoras do local e só 
recebeu 5,9 % das citações. Um segundo exemplo 
é a Escola Municipal Frederico Peiró, que recebeu 
4,8% das citações e emprega um total de 16 
funcionários de Peirópolis. Já a Toca dos 
Dinossauros (restaurante) recebeu uma totalidade 
de 21,4% das citações e a maioria dos funcionários 
não reside no local. As atividades rurais receberam 
apenas 5,9% das indicações, porém são a base 
econômica da comunidade de Peirópolis. 


EFEITOS SOCIAIS GERADOS NA COMUNIDADE DE PEIRÓPOLIS 
ATRAVÉS DO TURISMO PALEONTOLÓGICO 


Qualquer forma de desenvolvimento de uma localidade 
requer um planejamento cuidadoso para que se 
possam atingir os objetivos implícitos ou explícitos, 
que são a base do desenvolvimento. Além disso, uma 
área que possua um determinado atrativo turístico 
necessita de uma infra-estrutura básica para atender 
a demanda turística, contribuindo também, com a 


melhoria da qualidade de vida da população local. 


1. A população de Peirópolis está sendo envolvida 
no planejamento turístico local? 


Geralmente, como vimos anteriormente, uma 
comunidade que possui características turísticas, 
como é o caso de Peirópolis, necessita ter o total 
envolvimento da população no processo de 
planejamento turístico, para que os benefícios não 
sejam apenas para uma pequena parcela de 
empresários que investem no local. No gráfico 22 
avaliar-se-á a percepção da população de Peirópolis 
como envolvida ou não no desenvolvimento e 
gerenciamento do planejamento turístico local. 


Verificamos que os conhecedores de Peirópolis 
estão divididos. Uma parte dos entrevistados (49%) 
acredita que a comunidade está sendo envolvida 
no planejamento turístico local. A outra parte (46%) 
acredita que as pessoas não estão sendo ouvidas 
nesse planejamento. E apenas 5% dos entrevistados 
não souberam responder esta questão. 


Entre os 49% dos entrevistados, todos acreditam 
que a comunidade de Peirópolis está sendo 
ouvida, através de reuniões com o poder público. 
Consideram que só a partir da atual gestão 
política é que houve tal preocupação, para 
realização do projeto de planejamento turístico. 


Amostra total: 100 entrevistados 


49% 


SIM 


GS NÃO 


4 NÃO SEI 


Gráfico 22. Resultado da pesquisa que procura saber dos entrevistados se a população de Peirópolis está sendo envolvida 


no planejamento turístico local (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 441 


Esta parte dos entrevistados sabe do treinamento 
que está ocorrendo para a capacitação das pessoas, 
mas comentaram que existem indivíduos que não 
estão interessados em participar. Eles afirmaram 
também, que a comunidade ainda não está 
preparada para receber os visitantes. 


Os outros 46% dos entrevistados acreditam que os 
projetos de planejamento turístico já chegam prontos 
para a comunidade, e os representantes do poder 
público não perguntam a opinião dos moradores. Eles 
acreditam que o poder público só convoca para as 
reuniões os representantes das associações do bairro 
e quem trabalha diretamente com o Museu dos 
Dinossauros, ficando a maioria da população de fora 
do desenvolvimento do planejamento turístico. 


Em outubro de 2005, os responsáveis pela Secretaria 
de Ciência e Tecnologia de Uberaba, junto com os 
responsáveis pelo circuito turístico dos Lagos e do 
Triângulo Mineiro, reuniram-se em Peirópolis com 
alguns integrantes da comunidade. Foram realizados 
fóruns de debates, nos quais a comunidade pôde 
expressar os problemas existentes e sugeriram 
soluções, além de críticas ao poder público municipal, 
através de um diagnóstico crítico de necessidades. A 
partir desse diagnóstico, cursos, sugeridos pela 
própria comunidade já estão se iniciando para 
capacitação das pessoas que têm contato com o 
turista. 


2. Com a criação do Museu dos Dinossauros ocorreram 
melhorias na infra-estrutura local? 


Nesta questão analisaremos a opinião dos 
entrevistados sobre as possíveis melhorias em infra- 
estrutura local. Essa parte da pesquisa está associada 
a possíveis melhorias na educação, saúde, 
saneamento básico, iluminação pública, calçamento, 
como também, na parte de gastronomia, hospedagem 
e nas diferentes formas de comunicação e transporte. 


Percebemos pela análise do gráfico 23 que 83% dos 
entrevistados concordaram, que com a criação do 
Museu dos Dinossauros, melhorias em infra- 
estrutura foram conquistadas para o bairro, pois 
antes não existia estrutura alguma no lugar. No 
entanto, todos os 83% dos entrevistados, estão 
insatisfeitos com essa questão, pois acreditam que 
o atendimento às necessidades básicas ainda é 
precário e consideram que essas necessidades 
precisam ser resolvidas com maior rapidez. 


Um total de 14% dos entrevistados acha que a infra- 
estrutura não mudou em nada e o bairro está 
esquecido tanto pelo poder público, quanto pelas 
iniciativas privadas. Eles acreditam que o aumento 
do turismo para Peirópolis seria o caos, pois, como 
dito anteriormente, a comunidade não possui 
capacidade de carga para atender a um turismo de 
massa. Somente 3% dos entrevistados não souberam 
responder a esta questão. 


83% 


Amostra total: 100 entrevistados 


RE 
q 
Õ 
mM 
E 


Gráfico 23. Resultado da pesquisa que busca saber dos entrevistados se está ocorrendo melhorias em infra-estrutura no 
bairro de Peirópolis em decorrência da criação do Museu dos Dinossauros (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


442 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


3. O que melhorou em infra-estrutura básica em 
Peirópolis após a criação do Museu dos Dinossauros? 


No gráfico 24 temos uma seleção de benefícios em 
infra-estrutura local, em ordem hierárquica de 
citações, decorrente da opinião dos entrevistados. 
Nessa parte da pesquisa, as perguntas foram abertas 
e participaram apenas os 83% dos entrevistados que 
acreditam que ocorreram melhorias em infra- 
estrutura no bairro. Esta parcela dos entrevistados 
abordou 159 citações diferenciadas de tipos de infra- 
estrutura que melhoraram após a criação do Museu 
dos Dinossauros. 


Dentre as 159 citações, o transporte público, segundo 
os entrevistados, foi o que mais avançou em termos 
de melhoria, com 32,7% das 159 indicações. 
Atualmente os ônibus já circulam em Peirópolis, fato 
que não acontecia há alguns anos. Os horários estão 
mais flexíveis, atendendo às necessidades dos diversos 
segmentos da população local. 


A educação recebeu 17,7% das 159 indicações e, 
segundo os entrevistados, melhorou bastante nos 
últimos anos. Atualmente a Escola Municipal 
Frederico Peirô possui, como abordado antes, até 
a 8º série do ensino fundamental e cerca de 200 
alunos e 38 funcionários. 


O posto de saúde recebeu 13,2% das 159 indicações 
de pessoas que acreditam no seu bom 
funcionamento. A parte de telefonia pública recebeu 
11,9% das indicações. Antes da criação do Museu 
dos Dinossauros não existia telefonia pública e 
atualmente o bairro conta com três “orelhões” à 
disposição da população. 

A iluminação pública no bairro não existia até há 
pouco tempo e, algumas pessoas estão satisfeitas 
com esse serviço. Essa infra-estrutura também 
recebeu 11,9% das 159 indicações por 83% do total 
de entrevistados. O saneamento básico, que engloba 
o tratamento de esgotos e a distribuição da água 
recebeu, apenas 6,3% das indicações. 


A gastronomia, que engloba a Toca dos Dinossauros 
(restaurante) e o Jurassic Bar (lanchonete), tiveram 
uma quantidade mínima de citações, abrangendo 
3,8% das 159 indicações, o que mostra uma 
insatisfação da população com este tipo de serviço. 
A Colônia dos Dinossauros (pousada), que possui 
o serviço de hospedagem, foi a que teve menos 
indicações (2,5%), devido, provavelmente, ao seu 
pouco tempo de funcionamento. 


4. O que precisa melhorar em infra-estrutura básica 
na comunidade de Peirópolis? 


O gráfico 25 reflete a participação de 100% dos 
entrevistados, pois todos concordam que o bairro 
precisa melhorar bastante sua infra-estrutura, se 
algum dia quiser atender à crescente demanda 
turística. No entanto, houve 150 citações de tipos 
de infra-estrutura básica que necessitam de 
aprimoramento. 


Destas 150 citações, a carência de pavimentação 
foi a mais lembrada com 45,3% das indicações. 
Todas as ruas de Peirópolis são de terra e, quando 
ocorre a época de seca, a poeira levantada por 
automotivos torna-se prejudicial à saúde dos 
moradores e, em épocas de chuva, o solo vira lama, 
tornando difícil o deslocamento dos residentes. 
Existe um conflito no local em relação ao tipo de 
calçamento (asfalto comum ou calçamento com 
paralelepípedos) que deveria ser utilizado para 
pavimentar as ruas. 


O saneamento básico recebeu 13,3% das 150 
indicações e causa bastante controvérsia na 
população. Todas as casas possuem fossa sanitária, 
pois a rede de esgoto ainda não foi instalada, devido 
à demora na decisão sobre o tipo de calçamento a 
ser utilizado na área. Segundo Beethowen Luis 
Teixeira, um dos idealizadores da Rede Nacional 
de Pesquisa Científica em Paleontologia, em 
entrevista realizada no dia 14 de fevereiro de 2006, 
já foram reservados R$ 500.000,00 (quinhentos mil 
reais) para a realização da obra de pavimentação 
em paralelepípedo no entorno da localidade e para 
instalação da rede de esgotos. 


A situação da saúde foi bastante questionada. Esse 
item recebeu 10,3% das 150 indicações de pessoas 
que não estão satisfeitas com o posto de saúde de 
Peirópolis. Eles alegam um descaso do poder 
público Municipal, pois o local possui carência de 
médicos e enfermeiros e, nesse caso, as pessoas 
têm que se deslocar para lugares mais distantes, 
como Ponte Alta e Uberaba, para conseguir 
atendimento, tornando-se um transtorno para os 
moradores. 


Com uma soma de 9% das 150 indicações, o 
transporte também foi criticado por uma parcela 
da população. Eles alegam que os ônibus circulam 
lotados. Muitas vezes a condução não passa em 
Peirópolis, seguindo direto para Ponte Alta e os 
horários são incorretos. 


A segurança é outro fator importante da análise, e 
recebeu 7,7% das 150 indicações. Em Peirópolis 
não existe nenhum posto policial para atender a 
casos de furtos e violência em geral, que poderão 
ser ocasionados pelo aumento do turismo local. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 


32,70% 


Amostra total: 83 entrevistados e 159 citações 


q] 
4 


REA] 
EE 


AR 


t 


o 


= 


o 
Mm 
E 33 


Transporte 
Educação 

Saúde 

Telefonia pública 
Iluminação pública 
Saneamento básico 
Gastronomia 


Hospedagem 


443 


Gráfico 24. Relação dos tipos de melhorias em infra-estrutura ocorridas em Peirópolis após a criação do Museu dos 


Dinossauros segundo os entrevistados (07/02/06 a 14/02/06). 


No 

o 
= 
S< 

a 


1) 


se 


Di a 


13,30% 


Amostra total: 100 entrevistados e 150 citações 


EA, 
Es 


Pavimentação 
Saneamento básico 
Saúde 

Transporte 
Segurança 
Gastronomia 


Outros 


Gráfico 25. Relação dos tipos de infra-estrutura básica que precisam melhorar em Peirópolis de acordo com os entrevistados 


(07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


+ W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO 


A parte de gastronomia recebeu 7,7%) das 150 
indicações, como um serviço que precisa melhorar. 
O restaurante Toca dos Dinossauros possui excelente 
atendimento ao turista, mas só abre aos sábados, 
domingos e feriados, não atendendo aos visitantes 
durante a semana. Não existe nenhum outro 
restaurante em Peirópolis. 


As outras 6,7% das 150 indicações foram englobadas 
em um único tópico, que representa diferentes tipos 
de infra-estrutura local que ainda não existem no 
espaço geográfico de Peirópolis. Uma delas é a falta 
de praças públicas, no sentido de área de lazer. Outra 
questão levantada é a inexistência de mercados ou 
vendas de produtos básicos para os moradores, além 
da ausência de uma farmácia e de um hospital. 


5. Você acha que com a criação do Museu dos 
Dinossauros a qualidade de vida da população de 
Peirópolis melhorou? 


No gráfico 26 analisa-se a qualidade de vida da 
população de Peirópolis. A maioria dos entrevistados 
(82%) tem certeza da ótima qualidade de vida existente 
em Peirópolis. Eles se orgulham da existência de um 
ambiente natural, com uma fauna e flora nativa, 
cachoeiras, colinas, além da tranquilidade oferecida 
por uma comunidade rural. A localidade possui 
característica única de ser um sítio paleontológico 
que atrai turistas e consequentemente emprego e 
renda para os moradores. 


Praticamente todos na comunidade estão empregados 
e o local ainda atrai mão-de-obra de outras regiões. 
Segundo essa parcela dos entrevistados (82%), o Museu 
dos Dinossauros foi o pólo atrativo de diversas instituições 
e estabelecimentos que se fixaram no lugar. A junção 
dessas características, com as potencialidades naturais, 
aumenta a percepção de qualidade de vida local. 


Um total de 17% dos entrevistados não acredita 
numa melhoria na qualidade de vida da população 
local, devido à precariedade do atendimento às 
necessidades básicas. Eles sabem das características 
naturais existentes na comunidade, porém estão 
insatisfeitos com o descaso do poder público para 
com o local. Para este segmento populacional, a 
questão de infra-estrutura básica está pendente e 
precisa de melhorias imediatas. Apenas 1% dos 
entrevistados não respondeu a questão. 


EFEITOS AMBIENTAIS ORIGINADOS NA LOCALIDADE DE 
PEIRÓPOLIS DECORRENTES DO CRESCENTE TURISMO 
PALEONTOLÓGICO 


Qualquer forma de empreendimento acarretará 
interferências sobre o ambiente físico no qual este 


acontece. Como em Peirópolis os turistas necessitam 
visitar o local das atividades de pesquisa, é inevitável 
que a atividade turística esteja associada a impactos 
ambientais. Nesse sentido, torna-se necessário um 
desenvolvimento turístico ambientalmente sustentável. 


1. Você acha que o aumento do turismo 
paleontológico está acarretando algum tipo de 
degradação no espaço físico de Peirópolis? 


No gráfico 27 há a opinião dos conhecedores do lugar 
sobre possíveis degradações no espaço físico de 
Peirópolis. Apesar de 59% dos entrevistados 
afirmarem que ocorrem degradações no local através 
do crescente turismo, eles acreditam que é uma 
minoria dos turistas que causa a destruição do lugar. 
Neste caso, é a própria comunidade que se encarrega 
de alertar os visitantes sobre os possíveis problemas 
ambientais que eles possam causar no espaço local. 


Essa parcela dos entrevistados (59%) considera que a 
diferença entre classes sociais é um fator que influencia 
na consciência ambiental. Então, os mais pobres 
degradam mais o ambiente local. Para estes 
entrevistados (59%), a questão da degradação 
ambiental também depende muito da educação dos 
turistas. Quem possui um bom nível de 
conscientização ambiental, não irá causar degradações 
em Peirópolis, usufruirão o espaço de maneira correta, 
enquanto que as pessoas com pouca instrução, não 
se incomodam ou não possuem noção do caráter 
destrutivo de um simples papel jogado no chão. 


Um total de 40% dos entrevistados concorda que a 
prática do turismo não gera degradações em 
Peirópolis. Eles acreditam que o turista que chega 
na comunidade para conhecer os achados fósseis 
da região possui cultura de não degradar o 
ambiente, pois estão inseridos em uma parcela da 
população que sabe da importância da preservação 
do patrimônio. Apenas 1% dos entrevistados não 
respondeu a questão. 


2. Quais são os tipos de degradações causadas pelos 
turistas na localidade de Peirópolis? 


Desta questão participaram somente os 59% dos 
entrevistados que acreditam que a prática do turismo 
acarreta degradações no ambiente físico de Peirópolis. 
Entre este segmento populacional ocorreram 100 
citações de tipos de degradações diferenciadas 
causadas pelos turistas (gráfico 28). A questão do 
lixo foi a mais abordada, na qual todos os 59 
entrevistados, que acreditam na degradação causada 
pela prática turística, confirmaram que o lixo é o 
principal problema a ser enfrentado pela comunidade. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 445 


82% 


Amostra total: 100 entrevistados 


Gráfico 26. Resultado da avaliação que procura saber dos entrevistados se a qualidade de vida em Peirópolis melhorou 
após a criação do Museu dos Dinossauros (07/02/06 a 14/02/06). 


SIM 

E NÃO 
59% 

NÃO SEI 


Amostra total: 100 entrevistados 


Gráfico 27. Resultado da investigação com os conhecedores de Peirópolis sobre possíveis degradações no espaço físico 
local ocasionadas pelo crescente turismo (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


446 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO 


Os entrevistados consideram que as áreas mais 
degradadas são as cachoeiras, que não possuem 
lixeiras e tornam-se alvos de alguns vândalos. Os 
visitantes deixam todo tipo de lixo no local e não 
estão preocupados com sua preservação. Alguns 
fazem refeições, e não recolhem os restos de 
alimentos consumidos. Sempre são feitos mutirões 
de limpeza entre os moradores da comunidade para 
recolher o lixo deixado pelos turistas. 


Outro tema relevante trata da poluição sonora 
causada por alguns turistas, tendo abrangido 13% 
das 100 indicações. Nos finais de semana, o bairro 
é bastante visitado, porém a comunidade está 
insatisfeita com alguns moradores de Uberaba que 
se deslocam para Peirópolis para se divertirem. Os 
entrevistados alegam que estes visitantes colocam 
o som do carro em um volume exagerado, 
acarretando distúrbios na tranquilidade do local. 


As badernas também são constantes nos finais de 
semana em Peirópolis, ocasionadas por pessoas 
vindas de Uberaba. Tais aspectos foram 
considerados pelos entrevistados como degradações 
no ambiente físico do local. Este tópico também 
recebeu 13% das 100 indicações e está relacionado 
aos “rachas” de carro e a destruição da estrutura 
de algumas casas. O tópico destruição das árvores 


recebeu 6% das indicações. Alguns turistas 
invadem as propriedades privadas para pegar frutas 
e mudas de plantas e outros quebram os galhos 
das árvores, pois não possuem consciência 
ambiental. 


O uso de drogas ilícitas abrangeu 5% das 100 
indicações, pois acarretam “poluição visual”. A 
maconha foi a principal droga citada e é consumida 
principalmente nas cachoeiras. O consumo do 
álcool também foi citado como um dos responsáveis 
pelas badernas ocorridas na localidade. 


EFEITOS CULTURAIS ORIGINADOS NA COMUNIDADE DE 
PEIRÓPOLIS COM O AUMENTO DO TURISMO PALEONTOLÓGICO 


Quando um determinado visitante chega a uma 
comunidade com algum potencial turístico, 
algumas vezes já traz uma bagagem cultural 
diferenciada daquela existente na localidade. Os 
turistas chegam com novos hábitos, valores, 
costumes, utopias e crenças, além de uma 
linguagem muitas vezes diferente da do local. 
Podemos dizer que a população local possui modos 
de vida distintos. Desse modo, a opinião dos 
verdadeiros conhecedores do lugar torna-se 
essencial para entendermos o impacto causado por 
esse choque cultural. 


59% 


Amostra total: 59 entrevistados e 100 citações 


Lixo 


ASA 
ERA 


55] Baderna 


Poluição sonora 


o 
2 
Ea 


t 


Destruição de árvores 


|> 


Uso de drogas ilícitas 


Gráfico 28. Relação dos tipos de degradações no espaço físico de Peirópolis abordadas pelos entrevistados em consequência 


da atividade turística (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 


1. Você acha que o aumento do turismo paleontológico 
gera impactos negativos na cultura local? 


No gráfico 29 observamos que a maioria dos 
entrevistados (86%) possui a percepção de que o 
aumento do turismo paleontológico não 
descaracteriza a cultura local. Pelo contrário, eles 
compreendem que o contato entre culturas 
diferenciadas é uma forma de compartilhar 
conhecimentos, informações, experiências e 
conceitos para um aprendizado mútuo, integrando 
as diversas culturas. Essa parcela de pessoas (86%) 
afirma que a população local não se influencia com 
os aspectos negativos de outras culturas e apenas 
os aspectos positivos são valorizados, sem que isso 
destrua os modos de vida dos moradores, nem suas 
tradições e raízes que possuem com o lugar. Ocorre 
um intercâmbio cultural, sem que isso acarrete 
mudanças no modo de pensar e agir dos 
conhecedores de Peirópolis. 


Um total de 11% dos entrevistados assegura que o 
contato entre a cultura local com culturas 
diferenciadas, de alguma forma, pode acarretar 
impactos negativos no modo de vida dos moradores 
locais. Entre esta parcela destacamos os 
fazendeiros, aos quais não agradam as 
transformações causadas no estilo de vida simples 


447 


de seus filhos, através do contato com outras 
culturas. Os fazendeiros alegam que os filhos estão 
desistindo do trabalho rural, pelo contato que eles 
possuem com pessoas de fora do lugar, que sempre 
trazem novidades, influenciando o modo de pensar 
dos jovens. Apenas 3% dos entrevistados não 
souberam responder a esta questão. 


SÍNTESE DA PESQUISA 


1. Efeitos econômicos do turismo paleontológico 


a) O turismo paleontológico é considerado por 61% 
dos 100 entrevistados, como a principal solução 
para um desenvolvimento socioespacial sustentável 
em Peirópolis. 

b) Um total de 84% dos 100 entrevistados possui a 
percepção de que as atividades rurais também são 
válidas para o desenvolvimento de Peirópolis, 
destacando-se a agricultura e na sequência 
hierárquica a pecuária e a avicultura. 

c) A maioria dos 100 entrevistados (82%) afirmou 
que está ocorrendo uma distribuição de renda 
equitativa na comunidade de Peirópolis, devido à 
criação do Museu dos Dinossauros e a necessidade 
de atendimento aos turistas, que desejam conhecer 
os achados fósseis da região. 


Cree 


86% 


Amostra total: 100 entrevistados 


2 NÃO SEI 


Gráfico 29. Resultado do questionamento que busca saber dos entrevistados se o turismo paleontológico causa impactos 
negativos na cultura dos moradores locais (07/02/06 a 14/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


448 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO 


d) Analisamos que 53% dos 100 entrevistados 
consideram-se beneficiados de maneira direta ou 
indireta, pela prática do turismo paleontológico 
em Peirópolis. 

e) Verificou-se que 88% dos 100 entrevistados 
consideram que o número de empregos na localidade 
aumentou em decorrência da criação do Museu dos 
Dinossauros. Este objeto geográfico atrai diversos 
visitantes para conhecer os achados fósseis e é 
um pólo atrativo de instituições (públicas e 
privadas) e estabelecimentos (comércio e serviço) 
para o local. Contudo, há uma distorção na 
percepção desses entrevistados sobre a verdadeira 
empregabilidade local. 


2. Efeitos sociais do turismo paleontológico 


a) Os conhecedores de Peirópolis estão divididos: 
49% dos 100 entrevistados acreditam que a 
população local está sendo envolvida no 
desenvolvimento e gerenciamento do planejamento 
turístico porém, só a partir da gestão pública atual. 
Um total de 46% dos 100 entrevistados afirmou que 
o planejamento turístico de Peirópolis não é feito 
em consonância com os moradores e os projetos 
antigos já chegaram prontos para a comunidade. 
b) Segundo 83% de 100 entrevistados a infra- 
estrutura básica de Peirópolis melhorou após a 
criação do Museu dos Dinossauros, todavia 
consideram que a existência de um turismo de massa 
seria incompatível com a capacidade de carga local. 
c) De acordo com 82% dos 100 entrevistados, a criação 
do Museu dos Dinossauros, associado ao crescente 
turismo paleontológico, foi totalmente benéfica para 
a melhoria da qualidade de vida da população local, 
pois gerou emprego e renda para a comunidade. 


3. Efeitos ambientais do turismo paleontológico 


a) Verificou-se que 59% dos 100 entrevistados 
possuem a percepção de que o crescente turismo é 
gerador de degradações no espaço físico de Peirópolis, 
principalmente através do lixo. No entanto, 
consideram que a classe social mais pobre degrada 
mais, devido à falta de consciência ambiental. 


4. Efeitos culturais do turismo paleontológico 


a) Percebe-se através da pesquisa que 86% dos 100 
entrevistados confirmam que a prática do turismo 
em Peirópolis torna-se importante pela troca de 
aprendizado entre o morador e o visitante, na qual a 
população local não se desprenderá de seus modos 
de vida e suas raízes com o lugar para atender a 
crescente demanda turística. 


CONCLUSÕES 


Mediante a obtenção dos resultados da pesquisa 
de campo, o trabalho pode contribuir para um 
melhor entendimento acerca da percepção sobre a 
atividade turística na localidade de Peirópolis pelos 
conhecedores do lugar. 


Dessa forma, conclui-se que o turismo paleontológico 
gera expectativas de efeitos positivos e negativos na 
comunidade de Peirópolis. Percebemos, que com a 
criação do Museu dos Dinossauros, diversos 
estabelecimentos e instituições se estabeleceram no 
local, empregando um bom número de trabalhadores 
e gerando renda para o lugar, aumentando de maneira 
continua a qualidade de vida da população local. 
Levando em consideração este aspecto, esta prática 
acarreta um efeito muito positivo, porém não suficiente 
para um verdadeiro desenvolvimento local. O aumento 
do turismo também gera expectativas de efeitos 
negativos em Peirópolis, que é a degradação do espaço 
físico local. O lixo é considerado o principal problema, 
o qual poderá ser solucionado, através de mudanças 
comportamentais a partir de atividades que visem o 
desenvolvimento de uma consciência preservacionista. 


Existem projetos turísticos em vias de concretização, 
que buscam explorar as características histórico- 
culturais de Peirópolis, além de uma possível relação 
entre o turismo e as atividades rurais da localidade. 
A infra-estrutura básica de Peirópolis é considerada 
precária e a comunidade ainda não está preparada 
para atender a essa crescente demanda. 


Consequentemente, aumentando o número de turistas, 
aumentará a procura por trabalhadores capacitados 
em atender a essa demanda. Isso faz com que os 
moradores de Peirópolis necessitem de capacitação, para 
que não sejam substituídos por trabalhadores de outras 
regiões que possuam maior qualificação. Vimos no 
decorrer do trabalho que se torna fundamental, para 
diminuir os efeitos antagônicos do turismo, participação 
ativa da população de Peirópolis no desenvolvimento e 
gerenciamento do planejamento turístico. O 
planejamento deve ser projetado para maximizar os 
benefícios econômicos e sociais do turismo, para a 
população residente, de maneira equitativa, e ao mesmo 
tempo eliminar os efeitos adversos. É fundamental, para 
se evitar ou limitar os efeitos adversos, que os políticos 
e os administradores municipais dediquem maior 
atenção ao bem-estar a longo prazo da população. 


O turismo paleontológico pode ser um meio positivo 
de propiciar melhor qualidade de vida (econômica, 
social, ambiental e cultural) para Peirópolis. A questão 
fundamental é saber se o poder público, através dos 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 449 


planejadores, além dos empreendedores, serão 
capazes de gerar uma indústria do turismo 
verdadeiramente responsável, que crie benefícios a 
longo prazo, tanto para os residentes, quanto para 
os turistas, sem deteriorar o ambiente físico e cultural. 


Além destas avaliações, que procuram entender o 
processo de desenvolvimento do turismo em Peirópolis, 
buscou-se o entendimento do nível da identidade que 
a população local possui com sítio paleontológico e, 
consequentemente, com o Museu dos Dinossauros. 
Os conhecedores do lugar possuem consciência da 
importância de Peirópolis para a ciência e também para 
o desenvolvimento socioespacial do local. 

Em relação às possíveis melhorias no espaço interno 
e externo ao Museu dos Dinossauros, os 
entrevistados reclamaram do calor e da cor escura 
das paredes do museu que, associadas à iluminação 
precária, dificultam a permanência do visitante por 
mais tempo no local. A falta de espaço para se 
movimentar e para expor uma maior quantidade de 
fósseis também foi comentada 


Outra questão relacionada a este objeto geográfico 
é a falta de estruturação do Centro de Pesquisas 
Paleontológicas Llewellyn Ivor Price. Percebemos no 
local, a existência de apenas dois banheiros públicos. 
No caso de eventos para atrair um grande público, 
como a Semana dos Dinossauros, os banheiros ficam 
congestionados. Uma necessidade urgente apontada 
pela população é a criação de uma lanchonete no 
espaço físico do Centro de Pesquisas Paleontológicas 
Llewellyn Ivor Price, para que as pessoas não 
precisem sair do local da exposição dos fósseis para 
poderem se alimentar. 


A instalação de uma biblioteca e de áreas de lazer, 
também foram citadas pelos entrevistados. Eles 
alegaram que o Museu dos Dinossauros não oferece 
uma sala para estudos, contendo livros que abordem a 
Paleontologia da região e do mundo, para que os leigos 
e os interessados possam pesquisar sobre o assunto. 
Outra questão é a falta de lugares de recreação, com o 
intuito de contribuir para o bem-estar da comunidade 
e também, como uma maneira de se “manter”, por mais 
tempo, os visitantes no local. Um aspecto bastante 
relevante comentado pelos entrevistados é a falta de 
estrutura para atender as pessoas que possuam 
algum tipo de deficiência física ou visual. 

É nítido que os guias do Museu dos Dinossauros 
necessitam dedicar atenção especial à utilização da 
linguagem científica, para trabalhá-la de maneira 
mais acessível com a população e os visitantes. Torna- 
se importante a presença de guias treinados, para 
atenderem os diferentes segmentos populacionais de 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


maneira correta, utilizando uma linguagem de fácil 
entendimento, diminuindo o conflito entre os 
conceitos de tempo geológico e tempo antropológico. 


Uma proposta é a criação de eventos, ou até mesmo 
exposições, que podem ser bimestrais ou semestrais, 
com o intuito de se mostrar outros tipos de fósseis 
encontrados no Brasil e no mundo, para que os 
visitantes e moradores do local consigam ter um maior 
entendimento sobre a importância dos fósseis. Além 
disso, esses eventos são importantes, para equilibrar 
o número de visitantes nas diversas épocas do ano e 
não somente num determinado período em que ocorre 
um evento específico, como é o caso da Semana dos 
Dinossauros. 


AGRADECIMENTOS 


Ao Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, 
por fornecer o alojamento para a realização da pesquisa. Ao 
Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de 
Janeiro, pelo apoio financeiro para realização do trabalho 
de campo. À população de Peirópolis pela ótima receptividade 
e pelas contribuições positivas no trabalho. A Luiz Carlos 
Borges Ribeiro, Zulema Paixão, Ana Raquel de Paiva Olinto, 
Leila Borges e Beethowen Luis Teixeira, pelas entrevistas 
concedidas e apoio durante o trabalho de campo. Este estudo 
contou com o apoio do CNPq (Proc nº 305780/2006-9) e 
Instituto Virtual de Paleontologia — RJ (FAPERJ). 


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A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 451 


APÊNDICE 1 


ENTREVISTA COM LUIZ CARLOS BORGES RIBEIRO 


1 QUAL A PROCEDÊNCIA DOS INVESTIMENTOS DESTINADOS A MANUTENÇÃO DO MUSEU DOS 
DINOSSAUROS? 


2 QUAIS SÃO AS INSTITUIÇÕES QUE POSSUEM PARCERIAS COM O MUSEU DOS DINOSSAUROS? 
3 QUAIS SÃO AS FINALIDADES DESTAS PARCERIAS? 


4 QUAIS SÃO OS FUTUROS PROJETOS PENSADOS PARA O CENTRO DE PESQUISAS 
PALEONTOLÓGICAS LLEWELLYN IVOR PRICE? 


5 QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS OBJETIVOS DESTES PROJETOS? 


A.1 Museu dos Dinossauros: Projetos, investimentos e parcerias 


Como explicitado anteriormente, no dia 07 de Fevereiro de 2006, foi realizada uma entrevista com Luiz 
Carlos Borges Ribeiro, Diretor do Museu dos Dinossauros e do Centro de Pesquisas Paleontológicas 
Llewellyn Ivor Price, buscando o entendimento dos projetos específicos, parcerias efetuadas e as diferentes 
captações de recursos para a manutenção do museu e do centro de pesquisas. 


A.1.1 Projetos 


De acordo com Luiz Carlos Borges Ribeiro, o Museu dos Dinossauros possui um projeto em parceria com 
o Banco Mundial (BIRD), denominado de Fóssil-Vivo. O Banco Mundial financiará um projeto em conjunto 
com a Prefeitura de Uberaba, para resolver os problemas do tratamento de esgotos e da falta d'água no 
município. Na análise de impacto ambiental, realizado pelo Banco Mundial, percebeu-se que seria possível 
a presença de fósseis nas rochas da região. 


Preocupados com esta situação, os representantes do Banco Mundial solicitaram que fosse constituído 
um projeto de Paleontologia, para a criação de uma estrutura de monitoramento de todas as obras que 
estão sendo feitas na cidade de Uberaba para se evitar a destruição do patrimônio fossilifero durante as 
obras de escavação nas rochas. Então, foi criado o projeto Fóssil-Vivo, numa parceria entre o Centro de 
Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price e o Banco Mundial. Esse projeto visa a criação de uma 
equipe de resgate paleontológica, que fará a análise das rochas para verificar se existe algum fóssil no 
local e, se houver, cuidará para que ele seja devidamente extraído. 


Nesse contexto há a possibilidade de recursos para o ano de 2006 e os fundos arrecadados pelo projeto 
serão destinados à construção de um novo museu, mais amplo e mais moderno, para recepcionar melhor 
os turistas e garantir o bem-estar da população local. A equipe de resgate paleontológica será responsável 
também, em evitar que o material fossilifero seja destruído nas obras de construção do novo museu. 


A possível ampliação do museu abrigará um jardim paleobotânico, com plantas atuais que são conhecidas 
no registro geológico, e um novo laboratório para o tratamento curadorial dos fósseis. Está também previsto, 
para o futuro, a criação de uma área reservada à realização de exposições temporárias de acervos de outros 
museus. Com isso espera-se criar cerca de 80 vagas de empregos, das quais 19 serão para a estrutura do 
novo museu. Os moradores de Peirópolis serão priorizados nas vagas. Todos receberão qualificação técnica 
para atuarem como guias turísticos nos locais de escavação paleontológica ou nos laboratórios. 


A.1.2 Investimentos e parcerias 


O custo mensal do Museu dos Dinossauros é mantido pela Fundação Municipal de Ensino Superior de 
Uberaba (FUMESU), que é responsável pelo pagamento da maioria dos funcionários e contas de luz e 
água. O pagamento de quatro funcionários é feito por outras instituições da municipalidade de Uberaba, 
denominadas de Fundação Cultural de Uberaba e Secretaria de Governo de Uberaba. 


Os novos investimentos estão sendo gerados através de projetos de pesquisa apoiados pela FAPEMIG 
(Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) e doações de instituições particulares. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


452 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


Atualmente, há também uma nova linha de captação de recursos, que é a prestação de serviços na área 
de Paleontologia, na qual a equipe do Museu dos Dinossauros está sendo contratada para o monitoramento 
de linhas de transmissão elétrica. 


As finalidades destas parcerias consistem em arrecadar recursos para o pagamento de salários, como 
também, investimento em novos atrativos turísticos, pesquisa científica, educação e difusão do 
conhecimento, além da preservação dos depósitos fossiliferos. 


APÊNDICE 2 
ENTREVISTA COM BEETHOWEN LUIS TEIXEIRA 


1 QUAIS SÃO OS OBJETIVOS DA CONSTRUÇÃO DA REDE NACIONAL DE PESQUISA CIENTÍFICA EM 
PALEONTOLOGIA? 


2 QUAIS SÃO AS METAS E OS FUTUROS PROJETOS PENSADOS PELA REDE NACIONAL DE PESQUISA 
CIENTÍFICA EM PALEONTOLOGIA? 


3 QUAIS SÃO AS INSTITUIÇÕES QUE POSSUEM PARCERIAS COM A REDE NACIONAL DE PESQUISA 
CIENTÍFICA EM PALEONTOLOGIA? 


4 QUAL A PROCEDÊNCIA DOS INVESTIMENTOS PARA A CONSTRUÇÃO E MANUTENÇÃO DA REDE 
NACIONAL DE PESQUISA CIENTÍFICA EM PALEONTOLOGIA? 


A.2 A Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia 


Como abordado anteriormente, os dados obtidos baseiam-se na entrevista realizada no dia 14 de fevereiro 
de 2006, com Beethowen Luis Teixeira, um dos responsáveis pela viabilização da Rede Nacional de 
Pesquisa Científica em Paleontologia. 


A.2.1 Objetivos, parcerias e investimentos da Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia 


Buscando o estabelecimento de uma política de incentivo à pesquisa na área de Paleontologia, com o 
desenvolvimento de atividades educacionais, culturais e turísticas na região, é que no ano de 2002 a 
Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados, propôs a criação 
da Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia na localidade de Peirópolis (Fig.20). 


A Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia tem como objetivo mapear todas as reservas 
paleontológicas no Brasil e promover, em etapas, a sua integração, estabelecendo uma política de incentivo 
a pesquisa na área de Paleontologia, valorização deste patrimônio, de desenvolvimento de atividades 
educacionais, culturais e turísticas em torno do tema e principalmente de combate ao tráfico de peças do 
patrimônio paleontológico brasileiro. 


A criação da Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia resulta de parceria entre o Governo 
Federal, através do Ministério de Ciência e Tecnologia e o Governo do Estado de Minas Gerais, e da 
Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais, com o envolvimento de 
instituições de pesquisa científica em Paleontologia existentes em vários Estados brasileiros. 


Em relação aos investimentos, coube à Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática da 
Câmara dos Deputados a tarefa de alocar, por dois anos seguidos — 2003 e 2004, emendas de comissão 
ao Orçamento Geral da União viabilizando a Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia. Os 
recursos alocados para o Ministério da Ciência e Tecnologia totalizam investimentos de R$ 5.100.000,00 
(cinco milhões e cem mil reais) A este valor estão sendo acrescidos outros R$ 1.060.000,00 (um milhão 
e sessenta mil reais). 


A.2.2 Projetos futuros e metas da Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia 


Como sede da rede nacional, Peirópolis receberá um moderno complexo cultural e científico que envolve 
dois projetos específicos: O Sítio dos Dinossauros e a Oficina dos Dinossauros. 


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A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 453 


Fig.19- Pintura que retrata o paleoambiente do Triângulo Mineiro há 70 milhões de anos, enfatizando a fauna e a flora. 


Fig.20- Futura sede da Rede Nacional de Pesquisa Científica em Paleontologia, Peirópolis (08/02/06). 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


454 W.F.S.SANTOS & I.S.CARVALHO 


O Sítio dos Dinossauros será estruturado no local de escavação dos fósseis (sítio paleontológico), com 
revitalização das antigas construções do local, a construção de outras mais modernas e a criação do túnel do 
tempo, uma vitrine de mais de 100 metros demonstrando o processo evolutivo da Terra, ou seja, um elemento 
arquitetônico que fará a transposição dos visitantes, da recepção até o local onde há a escavação dos fósseis. 


A Oficina dos Dinossauros foi idealizada para ser um grande centro cultural, com locais para exposições 
e eventos científicos, com auditório, sala multimídia, loja de souvenires, lanchonete, biblioteca, salas de 
administração (secretaria e diretoria) e salas para oficinas. O edifício está sendo implantado em um 
terreno de 2.183,41 m? ao lado do Museu dos Dinossauros. 


APÊNDICE 3 


ENTREVISTA COM ZULEMA PAIXÃO E ANA RAQUEL DE PAIVA OLINTO 


1 QUEM SÃO OS RESPONSÁVEIS PELO PLANEJAMENTO TURÍSTICO EM PEIRÓPOLIS? 
2 QUAIS SÃO OS PROJETOS DE PLANEJAMENTO TURÍSTICO PARA PEIRÓPOLIS? 


3 QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS OBJETIVOS E METAS DOS PROJETOS DE PLANEJAMENTO TURÍSTICO 
PARA PEIRÓPOLIS? 


4 QUAIS SÃO AS ESTRATÉGIAS UTILIZADAS PARA ALCANÇAR TAIS OBJETIVOS? 
5 QUAIS AS DIFICULDADES DE GESTÃO DO ESPAÇO TURÍSTICO DE PEIRÓPOLIS? 


6 A POPULAÇÃO DE PEIRÓPOLIS ESTÁ SENDO ENVOLVIDA NO DESENVOLVIMENTO E 
GERENCIAMENTO DO PLANEJAMENTO TURÍSTICO? 


7 QUAIS SÃO AS TÉCNICAS UTILIZADAS PARA A BUSCA DE UM PLANEJAMENTO TURÍSTICO 
INTEGRADO E PARTICIPATIVO? 


8 ESTÁ OCORRENDO ALGUM TIPO DE INTER-RELAÇÃO ENTRE O TURISMO PALEONTOLÓGICO E A 
PRODUÇÃO RURAL EM PEIRÓPOLIS? 


9 QUAL O PROVÁVEL FUTURO TURÍSTICO DE PEIRÓPOLIS? 


A.3 Planejamento turístico de Peirópolis 


Esta parte do trabalho baseou-se exclusivamente, como abordado anteriormente, na entrevista realizada 
no dia 13 de fevereiro de 2006, no Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, com a chefe 
do Departamento de Turismo de Uberaba, Ana Raquel de Paiva Olinto e com a Diretora de Tecnópole, 
Zulema Paixão. Elas são as responsáveis por uma nova fase no desenvolvimento e gerenciamento do 
planejamento turístico de Peirópolis. Assim, foram feitas perguntas específicas sobre o planejamento 
turístico local. 


A.3.1 Objetivos, metas e estratégias do planejamento turístico para Peirópolis 


A responsabilidade pelo planejamento turístico em Peirópolis é da Secretaria de Desenvolvimento 
Econômico do Turismo da Prefeitura de Uberaba, na qual existe o Departamento de Turismo e o 
Departamento de Tecnópole. Dentro desses departamentos, inclui-se a sessão do parque de Peirópolis, 
que é responsável por todos os projetos arquitetônicos, urbanísticos e de paisagismo. 


Atualmente, o principal projeto turístico da Prefeitura de Uberaba chama-se Vila dos Dinossauros, que é 
um planejamento global em longo prazo, abrangendo tudo o que envolve Peirópolis, incluindo uma visão 
de desenvolvimento sustentável. A idéia principal é a criação de uma vila ou uma agrovila, que possua 
características de sustentabilidade socioambiental, assim como, das atividades econômicas envolvidas. 


Dentro do Departamento de Turismo, Peirópolis é considerado como o principal pólo turístico de Uberaba. 
O aspecto mais importante é o fato de Peirópolis ser potencialmente um Patrimônio da Humanidade. Por 
apresentar características especiais, como um sítio paleontológico de grande expressividade e 
potencialidade, o Banco Mundial (BIRD) interessou-se em ser um patrocinador de Peirópolis, face a 
importância mundial da localidade. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


A IMPORTÂNCIA DO MUSEU DOS DINOSSAUROS NO DESENVOLVIMENTO SOCIOESPACIAL DE PEIRÓPOLIS 455 


Outra questão importante é que Peirópolis é tombado pelo Patrimônio Histórico Municipal e pretende-se 
desenvolver o valor histórico do passado econômico do local, calcado na extração do calcário, na qual as antigas 
instalações das caieiras (local de queima do calcário) serão potencializadas como uma das competências turísticas. 
Deseja-se, então, enfatizar a história de ocupação dessa região como um dos atrativos turísticos. Além disso há 
a questão da existência de um ambiente natural plausível para a prática do ecoturismo (caminhadas, trilhas, 
rapel e cavalgadas). O objetivo é potencializar essas características naturais e históricas do entorno de Peirópolis 
e do próprio núcleo urbano, para que haja a preservação de tais aspectos positivos para o turismo. O 
planejamento turístico de Peirópolis foi estruturado para implantação nos próximos três anos. 


A questão de patrimônio histórico é supervisionada atualmente pelo Conselho de Patrimônio Histórico do 
Município e pelo Conselho de Desenvolvimento, que é o conselho da própria comunidade, que aprovará qualquer 
projeto que venha a ser feito no local. Sobre a questão do meio ambiente, a responsabilidade é do COMAN 
(Conselho de Meio Ambiente) que também será responsável pela avaliação, orientação e implantação dos projetos. 


Assim, temos a união de todas essas instituições, para idealização e criação do projeto Vila dos 
Dinossauros, considerado como uma vila temática, voltada para melhorias na qualidade de vida dos 
moradores de Peirópolis, associado a um desenvolvimento econômico e socioambiental sustentado. As 
estratégias utilizadas para alçar tais objetivos fundamentam-se em parcerias entre o poder público e as 
empresas privadas, além do máximo envolvimento da comunidade de Peirópolis. Foi com base em um 
diagnóstico de necessidades, realizado em Outubro de 2005, que nasceu o projeto Vila dos Dinossauros. 


Inicialmente, foram convidadas as pessoas mais representativas da comunidade, Fundação Peirópolis e 
da Associação de Bairros, para um trabalho participativo, com todos os interessados do local. A partir 
daí, foram feitas reuniões com os moradores, para a discussão dos problemas, interesses e soluções da 
comunidade. Através das informações obtidas junto à comunidade, foram realizadas parcerias com o 
SEBRAE, com o Sindicato Rural e com o SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural). Destas 
parcerias, foram implementados três cursos dedicados à comunidade, que tratam do empreendedorismo 
no espaço rural, empreendedorismo de artesanatos e o de capacitação de guias turísticos. Este último, 
bem direcionado para as necessidades do Museu dos Dinossauros, busca a capacitação no bom 
atendimento, liderança e qualidade na prestação de todos os tipos de serviços turísticos. A comunidade 
tem participado, o que contribui para que as prioridades saiam em sintonia com os interesses locais. 


A.3.2 Dificuldades de gestão do espaço turístico de Peirópolis 


Um dos grandes problemas existentes em Peirópolis é a falta de tradição para se construir projetos em 
parceria com a comunidade. No passado não existia uma preocupação do poder público em solicitar 
opiniões dos moradores locais, e, assim, houve um progressivo descrédito por parte da população em 
relação ao poder público. Então, há que resgatar a capacidade da comunidade de acreditar, que fazer um 
plano em conjunto, é o início da possibilidade dos objetivos se tornarem realidade. 


A comunidade de Peirópolis está dividida entre aqueles que desejam o turista, pensando mais no beneficio 
econômico trazido por esta prática e, outros que estão receosos com o turismo, pois não querem perder a 
qualidade de vida que possuem. Então, temos um conflito de interesses dentro da comunidade e, por essas 
razões, o projeto Vila dos Dinossauros tem sido muito bem elaborado. Todos os moradores de Peirópolis 
têm o direito de se manifestar (Zulema Paixão e Ana Raquel de Paiva Olinto, 13 de fevereiro de 2006). 


Em Peirópolis, o setor público, as empresas privadas e a comunidade estão preocupados com diferentes 
aspectos. Os representantes do poder municipal de Uberaba têm buscado, através da proposta da Vila 
dos Dinossauros, a qual está ainda em fase de elaboração, a otimização dos interesses da comunidade, 
do Museu dos Dinossauros, da Prefeitura Municipal de Uberaba e os da Rede Nacional de Pesquisa 
Científica em Paleontologia. 


A.3.3 Integração do turismo paleontológico com a produção rural na localidade de Peirópolis 


Não podemos esquecer, que Peirópolis é um bairro rural, então grande parte da população vive da plantação 
de lavouras de milho, arroz e feijão, da criação do gado e da engorda de aves e criação de avestruz. Nesse 
caso, tem-se a necessidade de integrar o turismo com estas outras modalidades econômicas, baseada 
em empreendimentos rurais. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


456 W.F.S.SANTOS & [.S.CARVALHO 


O projeto Vila dos Dinossauros possui a intenção do aumento da produção rural e vai incentivar o 
desenvolvimento de parte da Agroindústria. Parcerias junto ao Ministério da Agricultura estão sendo 
negociadas. Todavia, haverá inicialmente a necessidade de se adequar e estruturar as propriedades 
rurais, ou seja, uma preparação do local, através de fazendas que sejam modelo, que sigam as regras de 
vigilância sanitária. 

Já estão sendo iniciadas negociações com criadores de gado, de aves e agricultores da região e, alguns, 
mostraram-se interessados em se tornarem modelos de fazenda para a realização do turismo rural. 
Deseja-se a longo prazo, conquistar uma estruturação de suas localidades, para receberem de maneira 
correta os turistas. 


A.3.4 Futuro turístico de Peirópolis 


Peirópolis está incluído em dois circuitos turísticos diferenciados, denominados de Circuito Turístico dos 
Lagos e Circuito Turístico do Triângulo Mineiro. As perspectivas são muito boas e, o objetivo é integrar 
Peirópolis nesses roteiros. Porém, a comunidade ainda não está preparada para receber o turista, ou seja, 
a comunidade não possui capacidade de carga para atender a demanda turística dos dois circuitos. Na 
comunidade de Peirópolis existem dificuldades no atendimento ao turista. Se considerarmos, por exemplo, 
a parte gastronômica, a Toca dos Dinossauros é o único restaurante e seu atendimento é restrito aos finais 
de semana. Em relação ao entretenimento turístico há limitações, pois os turistas visitam o local e reclamam 
da falta de outras atividades, além da visita ao Museu dos Dinossauros. A segurança e saúde também são 
questões críticas a serem resolvidas, pois ainda não há recursos disponíveis. 


Será feita uma casa de atendimento ao turista, ou seja, um posto de informação turística, através de 
parceria com o Ministério do Turismo. Estão sendo procuradas parcerias para a sinalização das estradas 
e para a parte de sinalização interna e, também, para a implementação de uma guarita policial para o 
atendimento à comunidade e aos turistas. A parte de preservação do meio ambiente será realizada em 
parceria com a empresa Coca-Cola, através da coleta seletiva de lixo, tanto na parte de ajardinamento do 
Museu dos Dinossauros, quanto nas cachoeiras. 


Nesse contexto, a comunidade tem que estar ciente de que o turismo, sem o suporte dos projetos de 
Paleontologia, não seria sustentável. Na verdade, o “carro-chefe” de Peirópolis é a Paleontologia, o turismo 
é apenas uma consequência do conhecimento paleontológico gerado na região. Tal aspecto deve ser 
entendido pela comunidade, de que só apoiando o projeto de desenvolvimento da parte científica é que o 
projeto de turismo se desenvolverá de uma forma coerente. Nesse caso, a essência de um planejamento 
turístico local é que, primeiramente, os conhecedores do lugar, em todos os seus segmentos, tenham 
consciência de seu patrimônio. 


Arq. Mus. Nac., Rio de Janeiro, v.66, n.2, p.403-456, abr./jun.2008 


SUMÁRIO / CONTENTS 


ÁRTIGOS ORIGINAIS / (ORIGINAL ARTICLES 


ANTROPOLOGIA / ANTHROPOLOGY 


Dinâmica de ocupação, contatos e trocas no litoral do Rio de Janeiro no período de 4000 a 2000 anos antes do presente. 
Dynamics of occupation, contacts, and exchanges at the coast of the State of Rio de Janeiro from 4.000 to 2.000 years 
before present. 


MEC TENORIO; DC PINTO E MEGAFONSO: quis corra ea mitiidttidenes ne ane NANA SMS E CCULO CAS CENCOREERCENCORCOR CCE CEIA MLUNELCUECERS ÇA 


BOTÂNICA / BOTANICS 


Euphorbiaceae nativas de cerrado e campo rupestre da Serra de São José, Minas Gerais, Brasil. 
Native Euphorbiaceae of “cerrado” and “campo rupestre” of the São José Range, Minas Gerais, Brazil. 


D:MEDEIROS, LSENNA- VALLE 80 RTV ALVES reranananaan cr cna nEle CONS DES UCA G E MCSE A ASALAA aaa ion iene 


ZOOLOGIA / ZOOLOGY 


Descrição de uma nova espécie de Cyrtoneuropsis Malloch, 1925 (Diptera, Muscidae) e primeiro registro do gênero no Estado 
do Maranhão, Brasil. 
Description of a new species of Cyrtoneuropsis Malloch, 1925 (Diptera, Muscidae) and first record of the genus for the state 
of Maranhão, Brazil. 


MS: COURT, G.PIS.BARROS & MLPLORSINs.sscrertranida irado raras cerern dida assada das Ce cetcrrna dba ad Sad o paid eira dados sandra artur d dadas 


Uma nova espécie de mosquito galhador (Diptera, Cecidomvyiidae) associado com Sebastiania glandulosa (Euphorbiaceae). 
A new species of gall midge (Diptera, Cecidomyiidae) associated with Sebastiania glandulosa (Euphorbiaceae). 


ULPIOLIVEIRA 87 VOID MAIA cocos cenonnadentao pes Le ieenirdad dado cUnabo Siad dd caca dio EE pino ndd dios pes S cndemd adm dis a sobcdioa E cerrada dani 


Mosquitos de galhas (Diptera, Cecidomvyiidae) associados com Heteropteris nitida DC. (Malpighiaceae). 
Gall midges (Diptera, Cecidomyiidae) associated with Heteropteris nitida DC. (Malpighiaceae). 


RNOVO-GUEDES 87 VCID:MALA = ro co sro donas cai trio nao COS Sa ra En E GO SU do e io dn RO ir o Alo RR ESP a ão 


Morfologia comparata da terminália masculina de quatro espécies de Oxysardexia Townsend, 1917 (Diptera, Sarcophagidae). 
Comparative morphology of the male terminalia of four species of Oxysarcodexia Townsend, 1917 (Diptera, Sarcophagidae). 


RE SILVA 2 CA MELLO-DATIUO, decr Lar racao hnreo better eua En ae SUR oo CO eo o Da RC o o AO ES o 


Primeiro registro de Eurythenes obesus (Chevreux, 1905) (Amphipoda, Lysianassoidea, Eurytheneidae) para as águas brasileiras. 
First record of Eurythenes obesus (chevreux, 1905) (Amphipoda, Lysianassoidea, Eurytheneidae) in Brazilian waters. 


AR SENNA Br SS SERENO ia, tesiro ss nata nei itia o Topa n eb a Sl nbs A E E a Op A E 


Revisão do conhecimento sobre os mamíferos aquáticos da costa norte do Brasil. 
Review on the knowledge about aquatic mammals of the north coast of Brazil. 
S.SICILIANO, N.R.EMIN-LIMA, A.F.COSTA, A.L.F.RODRIGUES, F.A. MAGALHÃES, C.H.TOSI, R.G.GARRI, C.R.SILVA 


&Z IESSSTEV A JUNIO Ra era, ga ti o, bra Se de rh a VR RR DA AL e ARA PS SR catia EAD lb 


GEOLOGIA E PALEONTOLOGIA / GEOLOGY AND PALEONTOLOGY 


À importância do Museu dos Dinossauros no desenvolvimento socioespacial de Peirópolis - Uberaba (Minas Gerais): diagnóstico 
para o turismo paleontológico. 

The importance of the Museu dos Dinossauros in the development of the Peirópolis — Uberaba (Minas Gerais): diagnostic for 
paleontological tourism. 


WoE SANTOS SESCARVALHO aereas presaerenierer ava ergue Conor CA E É AT CS A TAC COLA AQ TONGA EG pa nda 


Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.66, n.2, abr./jun.2008 
ISSN 0365-4508 


MUSEU NACIONAL 
Universidade Federal do Rio de Janeiro 
Quinta da Boa Vista, São Cristóvão 
20940-040 - Rio de Janeiro, RJ, Brasil 


Impresso na IMOS Gráfica e Editora